Saúde Mental e LGBT's são temas de debate na ENSP

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“Como toda rosa exuberante, sempre haverá espinho para te perfurar.” Essa foi uma das frases do texto lido por alunos, que deu início ao XV Ciclo de Debates: Conversando sobre a Estratégia de Saúde da Família. Com coordenação de Alisson Malheiros, a mesa fez um link sobre a saúde mental e a saúde LGBT. “Tenho a nobre tarefa de dirigir uma mesa tão necessária”, destacou o coordenador, lembrando da opressão e discriminação sofrida por essas pessoas. 

   

 

 

Abrindo o segundo dia do Ciclo, a representante da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, Helen Barbosa, abordou a dimensão indissociável da clínica e da política, relacionando a importância de nomes.” O nome fala de lugar de pertencimento ou lugar de exclusão; então, quando nos damos um nome, estamos posicionando as pessoas numa determinada conjuntura, num determinado modo de poder circular, de um reconhecimento social.” 
 
Não necessariamente a dor é um sofrimento, mas toda dor não reconhecida se torna sofrimento
 
A saúde mental também foi um assunto abordado por Helen. Adentrando ao tema, ela nos convidou a ter um pensamento além da loucura do sujeito que sofre, colocando a "loucura na sua potência de resistência e trazendo a saúde mental como uma questão normal", para que haja uma dissolvição das hierarquias de poder. “A figura do louco é criada pela figura do sujeito que não entra nos moldes da normalidade, ou seja, que não é considerado sujeito produtivo”, salientou ela.
 
Para finalizar, a representante exibiu um vídeo que mostra a ação da segurança pública contra um homem com características de transtorno mental. Logo em seguida, ela relembrou a importância de pensar em novos métodos tanto na política como na segurança pública. “Não existe saúde mental quando não dá tempo de você reconhecer a angustia do outro. É sensibilizar a segurança pública e pensar em nossa rede territorial, onde circula esse sujeito”, concluiu.
 

 
 
Não é meu lugar de fala, mas meu lugar de intervenção
 
A assistente social Fernanda Oliveira, outra convidada da mesa, explicou o processo de desconstrução dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf) para atendimento mais qualificado das pessoas com transtornos mentais. “Estamos na atenção primária, e esse espaço ainda tem olhares muito míopes com relação às necessidades e subjetividades a respeito dessas pessoas que chegam na unidade em total sofrimento”, salientou a profissional explicando, logo em seguida, que o objetivo do Nasf é estimular os profissionais e a comunidade a olhar esse indivíduo como um sujeito direito.
 
A profissional relatou que muitos desses pacientes não chegam até as unidades de saúde; e quando chegam, suas necessidades não são recebidas de forma respeitosa diante das suas demandas. Nesse momento, a assistencia social vai se construindo para entender tal processo. “Não é meu lugar de fala, mas meu lugar de intervenção. Precisamos tirar o véu a fim de dar espaço para que essas pessoas tenham acesso ao ambiente de saúde.”
 
Já o trabalho de socialização feito pela equipe, elucidou Fernanda, é desenvolvido com discussões e falas abertas sobre o tema, tratando a todos como seres comuns que são. “Só precisamos ter ouvidos e coração abertos para entender o que essas pessoas querem. E o que elas desejam é respeito. Nós, como profissionais de saúde, temos que mostrar que estamos ali apoiando integralmente”, enfatizou.
 
"Sou louco sim, porque se fosse normal já teria desistido"
 
Essa afirmação marcou a fala de Jordhan Lessa – homem trans, guarda municipal, pai e convidado da assistente social Fernanda Oliveira para o debate – relatando as obscuridades pelas quais passou na vida até se tornar quem é. “Não teria chegado até aqui depois de, na década de 1980, ter sido internado duas vezes no manicômio, uma vez na Funabem, outra em situação de rua, um estupro coletivo, uma gestação que veio dessa violência sexual e a convivência com essa criança, que também não é fácil ”, disse ele discorrendo sobre a dificuldade de contar ao filho todo o trauma vivido após vinte e um anos. 
 
Hoje, com 52 anos e avô, Jordhan disse viver "na plenitude que, para uma pessoa trans, é fantástico". Ele se reconheceu como homem trans aos 47 anos, mas só agora pôde aproveitar esse privilégio de ser homem e ter seu real nome nos documentos oficiais. Assim como Helen Barbosa, Jordhan comentou como ser reconhecido com o seu nome é essencial. “Nome é porta de entrada para todos os serviços. Há dois anos, era uma tortura quando pediam meu documento...Eu tinha que ficar explicando, o que traz um monte de lembranças ruins, e você, simplesmente, desiste de ir a determinado lugar.” 
 
Como já passou e ainda passa por situações constrangedoras no atendimento em saúde, Jordhan relatou que procurar esse tipo de atendimento ainda causa receio nessas pessoas. “Quando uma mulher trans, um homem trans, uma travesti vão até esses locais, o maior medo é de como vai ser recebido ali. A pessoa te chama pelo seu outro nome para te ferir”, lamenta. 
 
A invisibilidade, principalmente dos homens trans, também foi lembrada, já que, nas discussões sobre a causa, segundo Jordhan, muitas vezes, eles são esquecidos. "Eu destaco os homens transexuais particularmente pela invisibilidade que temos. Quando se fala em transexualidade, travesti e outros se esquce do homem trans. E, quando falamos de masculinidade, não falamos da transmasculinidade”, alerta ele. 
 
Encerrando a apresentação, Jordhan apontou o que essas pessoas precisam quando procuram atendimento de saúde. “Desejamos nos ver no espelho da vida. O que precisamo é, em especial, de funcionários de saúde mental que nos ouçam, pois ninguém vai saber falar de nós melhor que nós mesmos”. Além disso, ele deixou um recado de aceitação e amor próprio: “Não! Não nasci no corpo errado. Nasci no corpo que Deus me permite fazer as mudanças que eu julgar necessárias para ser feliz... Não existe caneta, decreto ou revogação de lei que vá apagar a minha existência", assegurou Jordhan.  
 
 
*Por Thamiris Carvalho, sob supervisão de Isabela Schincariol.
 
*Thamiris Carvalho é estagiária de jornalismo da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP. Isabela Schincariol é jornalista da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP.

 

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