Luto e lama: reportagem da 'Radis' fala com médicos voluntários de Brumadinho

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Vários médicos voluntários na atenção básica de Brumadinho, em Minas Gerais, contam o que restou depois do rompimento da barragem da Vale, que, até o momento, causou 228 mortos, além de 49 pessoas que continuam desaparecidas. A reportagem é de Bruno Dominguez, da revista Radis.
 
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“Em 25 de janeiro, a médica Ana Melodias seguia de uma reunião em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, em direção à capital do estado, onde é preceptora do Programa de Residência de Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde, quando ouviu pelo rádio a notícia de que às 12h28 daquela sexta-feira a parte inferior do reservatório de rejeitos da mina Córrego do Feijão da mineradora Vale rompera, liberando em torno 12 milhões de metros cúbicos de lama sobre o município de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). “Minha mãe, que mora em BH, começou a me ligar. Um grupo de Whatsapp com amigas mineiras se mobilizou em torno de uma delas, que mora em Brumadinho, e perdeu um cunhado, funcionário da empresa”, lembra Ana, que estudou Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
 
Pelas contas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o rompimento devastou 270 hectares de terra, área equivalente a 377 campos de futebol. No rastro de destruição estavam parte do centro administrativo e do refeitório da Vale, máquinas, linha de trem, ponte, o rio Paraopeba, estradas, casas, pousadas, plantações, currais. Até 24 de fevereiro, a Defesa Civil de Minas Gerais confirmou a morte de 177 pessoas; outras 133 eram consideradas desaparecidas.  
 
Em 1º de fevereiro, a sexta-feira em que o desastre completaria uma semana, Ana começava a trabalhar voluntariamente em Brumadinho, na unidade básica de saúde do Parque da Cachoeira, a 10 minutos de carro do centro. Do cenário que a médica descreve ter encontrado, não se sobressai uma paisagem devastada, mas uma população devastada. “Tem um cemitério no meu quintal”, foi uma das declarações marcadas na memória dela. “Ouvi relatos muito intensos. As pessoas rememoravam o acidente: onde estavam, o que sentiram, o que perderam, quem perderam”.
 
Ana ocupou um dos dois postos vagos na atenção básica de Brumadinho — as unidades de Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão estavam sem médicos lotados — após duas representantes da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, que ela integra desde a fundação, em 2015, terem procurado a prefeitura oferecendo ajuda. “Ninguém está preparado para uma situação como essa. O rompimento pegou todos de surpresa e não seria diferente com a secretaria de Saúde. Mas rapidamente houve uma articulação para auxiliar o SUS local”, conta. As duas colegas — Marina Corradi e Clarissa Santos — estiveram na linha de frente da assistência à população nessas unidades nos primeiros dias após o desastre. 
 
“A rede não é um grupo de voluntariado para atendimento em situações de calamidade, mas uma articulação de médicas e médicos que entendem a saúde como direito e defendem um SUS construído com o povo e para o povo", explica Ana. A ideia principal em torno da ida a Brumadinho, afirma ela, era apoiar a luta dos atingidos por barragens: proteger os direitos e exigir a apuração mais justa possível desse crime. Ana e colegas da rede também atuaram voluntariamente em Mariana, outro município de Minas Gerais afetado pelo rompimento de uma barragem, a de Fundão, da mineradora Samarco, em 5 de novembro de 2015. Foram 19 mortos pela enxurrada de lama no distrito de Bento Rodrigues.
 
Sintoma
 
Quando perguntada sobre o dia a dia de uma médica em um município devastado, Ana ressalva que “em geral, tem-se uma noção errada de como funciona o cuidado à saúde após um desastre”. Em Brumadinho, por exemplo, não viu um vai e vem de ambulâncias com resgatados. Os poucos encontrados na lama com vida, politraumatizados, seguiram para hospitais de grande porte em Belo Horizonte. O que chegava até seu consultório era gente com sintoma de tristeza profunda, com picos de pressão alta, problemas de sono. O mau cheiro, especialmente no final da tarde, e o barulho de helicópteros a procura de corpos ainda agravavam o luto, diz à Radis.
 
Em muitos momentos, a procura pelo serviço era baixa: “Os agentes comunitários de saúde sinalizaram que muitas pessoas não queriam sair de casa, extremamente entristecidas, quadro típico de estresse pós-traumático. Sentimos que precisávamos ir até elas e, por isso, fizemos muitas visitas domiciliares”. Diarreia, náusea, dor de cabeça, picos de pressão, insônia e doenças de pele fizeram parte da rotina de diagnósticos. Ana avalia que não é possível separar o que tinha origem física e o que tinha origem mental, porque “uma dimensão afeta a outra e, nesse momento, tudo pode estar associado a esse crime”.
 
“O papel tanto dos profissionais da rede quanto de outros que estavam atendendo em Brumadinho era de conversar com os atingidos em relação aos direitos soterrados pelo crime da Vale, entendendo que ter perdido um vizinho ou familiar, ter tido seu comércio afetado, ter entrado em contato com a lama, ter ficado sem poder ir e vir porque estradas estavam inacessíveis, tudo isso abala a saúde e precisa ser cobrado da empresa”, destaca a médica.
 
As consultas começavam com ela perguntando: “Como você acha que esse crime te atingiu, não só na saúde mas na vida em geral?”. Parte das demandas era em seguida declarada; parte, não. “O profissional de saúde precisa praticar muito a escuta, não chegar com seu saber apenas. Precisa pegar ganchos, explorar o que é falado, procurar demandas ocultas, para acessar as necessidades mais profundas das pessoas. Sobretudo, precisa respeitar o momento de cada um”, reflete.
 
Empatia, palavra-chave
 
O médico Alisson Sampaio, que chegou a Brumadinho em 2 de fevereiro também por intermédio da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, cita outra palavra-chave para o cuidado em um momento tão delicado: empatia. “É preciso compreender o sofrimento das pessoas”, aponta. Entre os pacientes que consultou na unidade do Parque da Cachoeira, ele destaca um funcionário da Vale que esteve de frente para a barragem no momento do rompimento; a lama cobriu toda a instalação, menos sua sala. “Ele estava em choque, abalado, sem dormir”.
 
Na unidade, Alisson diz ter encontrado a estrutura necessária para atuar: enfermeiro, agentes de saúde, medicação. Mas ressalta que a ação dos médicos da rede foi emergencial, pontual, e agora o município precisa se preparar para lidar com uma ferida que pode nunca fechar: “O acompanhamento das pessoas deve ser feito de maneira interdisciplinar, por diversas categorias da saúde. O número de mortos é muito grande, um massacre, uma chaga na vida dessa comunidade, que perdeu irmãos, tios, pais, maridos”. Ele cita como desafio a difícil fixação de médicos na região.
 
Em 8 de fevereiro, a prefeitura abriu edital para contratação temporária de 132 profissionais, entre eles médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e agentes de combate a endemias, além de pessoal administrativo e operacional.  “Foi uma resposta rápida, que compreende que o voluntariado não estará lá para sempre, e a população precisa de um SUS bem articulado, fortalecido e reorganizado. O SUS não pode ser o mesmo de antes, porque Brumadinho não será o mesmo de antes”, reforça Ana Melodias.
 
“Um crime dessa dimensão é irreparável”, observa a médica. Para ela, o impacto será transgeracional: “Houve desagregação familiar e comunitária. A história do município mudou: além dos que morreram, muitos perderam suas casas e vão se mudar não por escolha, mas porque foram obrigados, e os laços com os vizinhos assim se desfarão. Não tem como reparar as vidas, a história, o ambiente e o município”.
 
Ainda assim, Ana e Alisson reforçam que a Vale deve se responsabilizar pela reparação possível. A saúde, dizem os médicos, deve colaborar fazendo a associação do crime com os agravos dele decorrentes — por contaminação do solo e da água, dos alimentos e animais. “Os prontuários devem ser documentos a ser usados na luta dos atingidos”, diz Ana. Queixas de diarreia e dores abdominais, por exemplo, podem ser consequência da exposição a ferro presente na lama. Alisson conta que precisou orientar a população a não consumir água encanada de forma alguma, nem fervida e filtrada: “Ferver e filtrar livra a água dos germes, mas não do minério”.
 
Desastre ou crime?
 
A presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima, avaliou durante o seminário “Desastre da Vale em Brumadinho – Impactos sobre a saúde e desafios para a gestão de riscos”, realizado em 5 de fevereiro no campus da instituição no Rio de Janeiro, que “não é correto chamar de desastre um evento que revela um descaso histórico pela vida da população que vive em torno das barragens e dos seus trabalhadores”.
 
Ainda no campo das nomeações, o pesquisador Mariano Andrade, do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergência de Desastres em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Cepedes/Ensp/Fiocruz), observou que o incidente deve levar o nome da empresa responsável por ele — desastre ou crime da Vale S.A. — e não do município atingido, de forma a evitar estigmatizar a população, processo também capaz de degradar a qualidade de vida.
 
Outro integrante do Cepedes, o pesquisador Carlos Machado apresentou dados da saúde da população de Barra Longa, município de 5 mil habitantes, o mais afetado pela lama da barragem do Fundão: na comparação antes e depois do rompimento, houve aumento de 25 vezes nos quadros de ansiedade, sete vezes nos de dermatites, 11 vezes nos de diabetes, 11 vezes nos de diarreias e gastroenterites, 15 vezes nos de hipertensão arterial. No caso da dengue, com a chegada de pessoas de fora e a interrupção do fornecimento de água e consequente necessidade de armazenamento, o crescimento foi de 3.000%. O mesmo pode se repetir em Brumadinho, alertaram.
 
Segundo Diego Xavier, pesquisador do Observatório Nacional de Clima e Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), a área de Brumadinho é endêmica para febre amarela e esquistossomose, doenças transmitidas por mosquitos e caramujos. Com o rompimento da barragem, há uma alteração brusca no ecossistema, que pode matar predadores naturais e criar condições favoráveis para esses vetores. A falta de coleta de lixo também pode aumentar a população de roedores e assim fazer crescer o risco de um surto de leptospirose.
 
Bruno Dominguez"
 
Fotografia: Isac Nóbrega/PR

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