'Viver dignamente': necessidades e demandas de saúde de homens trans abordadas em pesquisa

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Num estudo publicado pelo Cadernos de Saúde Pública, dez homens trans - residentes em Salvador, em sua maioria negros, heterossexuais e com idades entre 20 e 43 anos - apontaram a transfobia quando perguntados sobre suas necessidades e demandas de saúde. A transfobia é uma faceta antidemocrática que tem base na patologização, punição e violência. 
 
 
Para os autores da pesquisa, Diogo Sousa e Jorge Iriart, o cenário de intensa transfobia constitui um disparador de necessidades de saúde para os homens trans e adensa desafios para garantir a satisfação de suas demandas. Segundo eles, os recursos já disponíveis na rede de atenção à saúde não alcançam satisfatoriamente as questões dos homens trans porque seus corpos e suas experiências são deslegitimadas. Nesse sentido, afirmam os pesquisadores, “urge incutir a despatologização das vivências trans, um processo diretamente relacionado com o combate à transfobia estrutural e institucional, superando as barreiras que se apresentam aos direitos das pessoas trans.”
 
“As necessidades e demandas de saúde dos homens trans são organizadas em três aspectos: a despatologização, a modificação corporal e os atendimentos ambulatoriais.” Segundo o artigo do CSP, esses aspectos não são universais entre todos os homens trans e podem ser decorrentes de situações que assinalam conflitos e pressões grupais. “A ausência do processo transexualizador no estado e as barreiras no acesso à rede de atenção à saúde intensificam o processo de mercantilização das suas demandas de saúde, em especial, as modificações corporais.”
 
O artigo destaca que o reconhecimento das necessidades e demandas de saúde dos homens trans dinamiza a responsabilidade da Saúde Pública quanto à integralidade, universalidade e equidade que impliquem a produção de estratégias de cuidado capazes de alcançá-los. 
Cabe ratificar, de acordo com o estudo, os compromissos históricos e politicamente definidos pela garantia dos direitos à vida de pessoas trans por meio do Regime Internacional de Direitos Humanos das Nações Unidas, pelos princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero (Princípios de Yogyakarta) e pela Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, além de efetivar a garantia ao nome social nos serviços de saúde e demais instâncias, dadas a Portaria MS nº 1820, de 13 de agosto de 2009 e o Decreto PR nº 8.727, de 28 de abril de 2016. 
 
Historicamente falando, o artigo recorda que a segunda metade do século XX foi responsável pelo exponencial crescimento das tecnologias em saúde, em especial daquelas com a finalidade de produzir modificações corporais aos soldados que voltavam mutilados das guerras. “Elas inspiraram mulheres lésbicas masculinizadas (butches) na construção das suas performances de gênero.” Existe uma concordância, dizem os pesquisadores, de que esse contexto foi importante para que os homens trans elaborassem e requeressem estratégias de modificação corporal, uma vez que viram nessas novas tecnologias a possibilidade de construir o corpo e as performances de gênero desejados.
 
Evidentemente, esclarece o estudo, questões de saúde estão diretamente relacionadas aos contextos culturais, sociais e políticos que propiciam mudanças capazes de assumi-las como importantes e garantir os meios de torná-las possíveis de satisfação. “Ao reconhecermos a negação e a marginalização das vivências trans, buscamos, neste trabalho, compreender as necessidades e as demandas de saúde dos homens trans, considerando tratar-se de um passo primeiro para viabilizar caminhos por onde as estratégias de cuidado possam ser pensadas.”
 
Os pesquisadores consideram que a ausência de pesquisas e indicadores epidemiológicos que expressem quadros de saúde dos homens trans constitui um empecilho para pensar estratégias de cuidados a serem implementados. “Quando as necessidades e demandas de saúde de uma população são reconhecidas, as possibilidades de refletir as estratégias de garantia e de acesso aos cuidados ganham novos e potentes contornos.”
 
A pesquisa conclui que a transfobia estrutural faz disparar uma série de questões de saúde, ao mesmo tempo em que limita as possibilidades de obtenção de cuidado. A despatologização das vivências trans constitui o eixo central com base no qual o cuidado deve ser pensado, relacionando-a a mudanças culturais, políticas e sociais que impliquem a construção de uma sociedade não transfóbica e incidam no bem-estar e reconhecimento dos homens trans.
 
Acesse aqui, na íntegra, o artigo "Viver dignamente”: necessidades e demandas de saúde de homens trans em Salvador, Bahia, Brasil, que foi publicado no Cadernos de Saúde Pública (vol. 34 n.10). 
 
 

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