Entrevista: pesquisadora da ENSP participa de construção da Monografia da IARC sobre benzeno

Publicada em
 
 
 

Tatiane Vargas

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), produz, desde 1971, monografias que já avaliaram misturas complexas e carcinogenicidade de cerca de mil agentes e compostos diferentes. As monografias são importantes momentos pois as classificações dos compostos resultantes destas discussões são usadas pelas agências reguladoras de saúde do mundo para nortear tomadas de decisão, por exemplo, de estabelecimento de limites de exposição ou necessidade de banimento ou substituição de compostos carcinogênicos, para os quais não há doses seguras. Este é o caso recente do amianto no Brasil, já indicado pela IARC como sendo causa de mesotelioma desde 1973 (Grupo 1), e a classificação do glifosato como provável carcinógeno para humanos (Grupo 2A) em 2015, com impactos na redução do tempo de liberação para uso na União Europeia.

O volume 120 – Monografia Benzeno – envolveu discussões científicas do que vêm sendo produzido com relação à exposição ao benzeno. O benzeno é um composto comprovadamente cancerígeno para humanos, classificado como Grupo 1 da IARC desde 1979, com base em evidências suficientes de que causa leucemia. A exposição ao benzeno, por suas características toxicológicas, levam a alterações hematológicas e neurológicas, como dores de cabeça, náuseas, irritação das mucosas respiratórias e oculares, danos no sistema nervoso, irritação do sistema nervoso central, irritação da pele. Esses sinais e sintomas são chamados de benzenismo.

No âmbito das categorias das Monografias da IARC, os compostos são avaliados e classificados de acordo com as seguintes categorias: o agente é carcinogênico para humanos (Grupo 1); o agente é provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A); o agente é possivelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2B); o agente não é classificável como carcinogênico (Grupo 3); o agente é provavelmente não carcinogênico para humanos.

As monografia da IARC para avaliação de risco de carcinógenos a seres humanos realizam a revisão dos dados científicos disponíveis e avaliação a partir da organização de quatro grupos, sendo eles: grupo 1 (dados de exposição e dados epidemiológicos); grupo 2 (estudos de câncer em humanos); grupo 3 (estudos de câncer em modelos animais); e grupo 4 (dados mecanísticos e outros relevantes).  As evidências relevantes de carcinogenicidade em animais e humanos são classificadas como: suficiente evidência de carcinogenicidade; limitada evidência de carcinogenicidade; e evidência sugere falta de carcinogenicidade.

O ‘Informe ENSP’ conversou com a pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP/Fiocruz), Ariane Leites Larentis, que falou sobre sua participação como representante da Fiocruz na construção da Monografia sobre Benzeno da IARC. Confira, abaixo, a entrevista.


Informe ENSP: Como foi sua participação nesta reunião?

Ariane Larentis:
A construção das Monografias da IARC envolvem cinco categorias de participantes. Grupos de Trabalho, Especialistas Convidados, Representantes de Agências de Saúde Nacionais e Internacionais, Observadores e Secretariado do IARC. A pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Marcia Sarpa de Campos Mello, e eu, participamos como representantes de instituições e agências de saúde brasileiras.

O Grupo de Trabalho é responsável pela revisão crítica dos dados de exposição e epidemiológicos disponíveis e avaliações desenvolvidas durante o encontro para construção das monografias da IARC. As tarefas dos Grupos de Trabalho são: assegurar que todos os dados apropriados tenham sido coletados; selecionar os dados relevantes para avaliação baseada em método científico; preparar resumos acurados dos dados permitindo ao leitor compreender o raciocínio do Grupo de Trabalho; avaliar os dados relevantes para o entendimento dos mecanismos de carcinogênese; além de realizar uma avaliação geral da carcinogenicidade da exposição para seres humanos.

Informe ENSP: Como foi a construção da Monografia sobre Benzeno?

Ariane Larentis:
Os trabalhos da monografia começaram na Plenária Oficial na qual foram apresentados os principais pontos de discussão de cada um dos Grupos de Trabalho e finalizado com uma discussão geral dos coordenadores de cada Grupo. Posteriormente ocorreram as Plenárias de cada um dos Grupos para discussão e avaliação da decisão dos pontos discutidos nos Grupos, ou seja, se o Grupo considerou suficiente ou limitada a associação entre exposição ao benzeno e diversos tipos de cânceres em humanos e animais, efeitos carcinogênicos ou alterações de mecanismos moleculares, oxidativos, genéticos, epigenéticos e/ou inflamatórios.

Ao fim de cada discussão, uma votação ocorria entre os participantes dos Grupos de Trabalho para a tomada de decisão sobre estes pontos. Após os membros dos Grupos de Trabalho discutirem, os Representantes também participavam da discussão, e, por fim, a palavra era aberta aos Observadores, mas sem voto para estas categorias de participantes da Monografia, que não tem direito a voto. A Plenária combina a avaliação de dados dados de exposição, estudos de câncer em humanos e em animais e dados de mecanismos para avaliar a classificação dos agentes.

Um resumo das discussões da Monografia foi publicado na The Lancet Oncology, revista de alto fator de impacto, com autoria de Grupo de Trabalho e citação da participação dos representantes das Agências de Saúde presentes, como a Fiocruz.

Informe ENSP: Como foi a discussão sobre benzeno com pesquisadores de diferentes países e com diferentes experiências?

Ariane Larentis:
Essa foi uma experiência muito rica e importante para o desenvolvimento das nossas pesquisas na área de exposição a benzeno em postos de combustíveis. Foi possível, por exemplo, discutir nossos trabalhos com exposição a benzeno com os principais especialistas mundiais de diferentes instituições e áreas na avaliação de populações expostas ao benzeno, biomarcadores de exposição e efeito, genotoxicidade e estresse oxidativo, como da Divisão Epidemiologia Ambiental do Institute for Risk Assessment Sciences (IRAS) da Universidade de Utrecht, na Holanda; Universidade de Milão e de Parma na Itália; Universidade do Colorado e de Berkeley, nos Estados Unidos e pesquisadores da própria IARC.

A troca de experiências com estes pesquisadoras ajudou, por exemplo, na discussão da avaliação das exposições a baixas concentrações de benzeno, como é o caso dos postos de combustíveis, além de estratégias para diferenciar esta exposição ocupacional em níveis similares à exposição ambiental, cuja fonte de benzeno esteja relacionado à poluição.

Informe ENSP: Essa experiência poderá render parcerias de intercâmbio com a ENSP/Fiocruz?

Ariane Larentis:
Além das discussões como os participantes da Monografia do Benzeno de instituições descritas anteriormente, com os quais foram abertas possibilidades de estabelecer colaborações e parcerias, um dos objetivos da viagem a IARC foi conhecer pesquisadores e laboratórios na área de biologia molecular (genética, epigenética, mecanismos moleculares e biomarcadores), para possíveis colaborações de pesquisas, intercâmbios, doutorado sanduíche para receber nossos alunos, o que já ocorreu com pós-graduandos do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da ENSP. Na IARC, os pesquisadores podem receber estudantes de pós-graduação, pesquisadores, pós-docs, pois uma das missões da OMS é promover a formação científica e há possibilidade de expandir cada vez mais essa parceria.

Informe ENSP: O que representa para a instituição fazer parte da elaboração deste material tão importante para a saúde pública?

Ariane Larentis:
Representar a Fiocruz na IARC é muito importante para a saúde pública, pois contribuímos com dados da realidade do nosso país no âmbito da exposição a benzeno. Durante a reunião foi possível discutir o estado da arte no tema, colaborando para a formação dos pesquisadores.

A sistematização das experiências de exposição em postos de combustíveis foi levada para a discussão na IARC, através do dossiê temático Exposição ocupacional ao benzeno na cadeia de distribuição e revenda de combustíveis no Brasil. O dossiê foi publicado em 2017 na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) e teve como editores convidados, Albertinho Carvalho, da Fundacentro Bahia; Maria Juliana Moura Corrêa, da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre - RS, e eu, representando o Cesteh/ENSP.

O dossiê revela a situação da exposição ao benzeno nos trabalhadores em postos de combustíveis e as ações e experiências de Vigilância em Saúde do Trabalhador no SUS, em diferentes cidades e estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Bahia, Espírito Santo, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro), que juntos evidenciam a contínua exposição dos frentistas e dos demais trabalhadores em Postos de Revenda de Combustíveis (PRC) e a baixa aplicação das normas existentes, como a realização semestral de hemograma e equipamentos de recapturação de vapores.

A caracterização da exposição ao benzeno em diferentes populações também é um ponto fundamental a ser destacado. Além disso, estabelecemos uma rede de contatos e colaborações  visando integrar os grupos de pesquisa nacional com grupos de pesquisa internacionais. Um exemplo será nosso artigo da avaliação de exposição a benzeno em postos de combustíveis na Zona Oeste do Rio de Janeiro e em vigilantes das portarias da Fiocruz, para os quais identificamos exposição similar a dos frentistas, que deve integrar um dossiê internacional de exposição ambiental e ocupacional ao benzeno e dano oxidativo.

Este trabalho envolve resultados de pesquisa desenvolvidos na tese de doutorado da aluna Isabele Campos Costa-Amaral e dissertações dos mestrandos Daniel Valente, Victor Oliva Figueiredo, Marcus Vinícius Corrêa dos Santos e Angélica Cardoso Pereira, todos do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente da ENSP.

O projeto tem sido desenvolvido ao longos dos últimos no Laboratório de Toxicologia do Cesteh, Setor de Indicadores de Efeito, coordenado por Leandro Carvalho, e as análises no Setor de Solventes, sob responsabilidade de Renato Marçullo Borges, além do nosso grupo de pesquisa que envolve os estudantes, pós-docs, técnicos e colaboração com diferentes pesquisadores do Cesteh/ENSP e outras instituições, como Liliane Reis Teixeira, Maria Juliana Moura Corrêa,  Antônio Sérgio Fonseca, Sergio Rabello, Eline Gonçalves, Herbert Sisenando da UFRN, Jamila Perini da UEZO, Leiliane Coelho André da UFMG e Andrew Collins da Universidade de Oslo na Noruega, sob coordenação conjunta de Paula Sarcinelli, Rita Mattos, Marco Menezes e minha. 

 

Nenhum comentário para "Entrevista: pesquisadora da ENSP participa de construção da Monografia da IARC sobre benzeno"

Ninguém ainda comentou esta matéria. Seja o primeiro!

comente esta matéria

Utilize o formulário abaixo para se logar.