Entrevista: Projeto busca preservar a Memória da Saúde Pública do Brasil

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Há 63 anos, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) realiza pesquisas na área de saúde pública, abre caminhos para inovação e produz grande volume de conhecimentos. Entretanto, com o passar do tempo, alguns documentos de pesquisa e da história da saúde pública podem se degradar, desaparecer ou até mesmo caírem no esquecimento, o que gera prejuízos imensuráveis para a memória da instituição e da saúde brasileira.

Ciente dessa situação, a Escola, em parceria com a Casa de Oswaldo Cruz (COC), criou o projeto Memórias ENSP. A iniciativa se contrapõe a esse processo negativo e promove esforços para identificar, preservar e divulgar documentos resultantes das pesquisas realizadas nos centros e departamentos da instituição.

Ao projeto da ENSP, a COC não apenas cedeu sua base de dados Arch, adaptando-a para o uso da escola (base Arch/Ensp), como assumiu a responsabilidade de treinar os trabalhadores na tarefa de organizar e preservar sua documentação corrente sobre pesquisa e ensino.

O objetivo, segundo o diretor da ENSP, Hermano Castro, é também garantir a "memória do futuro", ou seja, que os documentos atualmente produzidos sejam adequadamente organizados e disponibilizados, evitando-se que se percam ou se dispersem, ficando acessíveis a professores e alunos. Entusiasta da iniciativa que teve início no seu primeiro ano de gestão, Hermano concedeu entrevista ao Informe ENSP e lembrou que o grande objetivo é reunir as demais instâncias de saúde e conceber aquilo que chamou da "Memória da Saúde Pública do Brasil". Confira.

Informe ENSP: O Memórias da ENSP é um projeto que permite revisitar o passado, preservar a lembrança e documentar a história da saúde no país. Qual é a sua relevância para a Escola Nacional de Saúde Pública?

Hermano Castro:
Em momento de crise como o que vivemos atualmente, é importante resgatar e reviver o aprendizado que a história nos proporcionou. E isso, para uma instituição como a ENSP, é fundamental. Na história estão nossas bases de construção do Sistema Único de Saúde e da trajetória da saúde pública brasileira.

O projeto teve início no primeiro ano da minha gestão (2013) com um pensamento, inclusive, de reviver a história da saúde pública brasileira envolvendo outras escolas. Recolhemos uma série de documentos, materiais e fizemos o contato com a Casa de Oswaldo Cruz (COC) entendendo que a Fiocruz tem uma unidade específica de documentação da sua trajetória. A COC nos acolheu e disse que é fundamental que as unidades se envolvam com as histórias da instituição.

Eles nos ajudaram com a metodologia sobre como fazer uma gestão eficiente dos arquivos, demonstrando as vantagens da organização arquivística e o seu papel estratégico na melhoria da qualidade dos serviços prestados pela instituição. Desde o início, a parceria foi e salutar e, conforme o próprio diretor Paulo Elian afirmou, foi pioneira na Fiocruz. As unidades são o repositório dessa história da saúde pública, e a essa foi a motivação da ENSP desde o primeiro momento.

Informe ENSP: Qual é o atual estágio do Projeto Memórias da ENSP?

Hermano Castro:
O projeto Memórias da ENSP foi inaugurado com as coleções documentais do Programa Peses/Peppe e do Laboratório de Paleoparasitologia. Logo depois, foram incorporados à base documentos do Departamento de Ciências Sociais e a revista Radis. Ele agora está apoiando o tratando da documentação do Cesteh e deverá iniciar em breve o tratamento de três grandes conjuntos documentais: as fotografias abrigadas na CCI e a documentação de dois importantes pesquisadores do Departamento de Epidemiologia.

Seguimos nessa fase de organização. Constituímos a plataforma orientada pela COC e agora estamos formando os profissionais na Escola para acompanhar e organizar a história escrita, oral e documentada de tudo que vem acontecendo ao longo dessas décadas. Ter um grupo formado de gestores, analistas e demais profissionais que entendam desse projeto é fundamental.

Informe ENSP: Quais os objetivos do Grupo de Trabalho de Gestão de Documentos?

Hermano Castro:
Precisamos deixar claras as diferenças entre o projeto Memórias da ENSP e a gestão corrente de documentos. Esta é uma atividade permanente, que pretende preservar a memória para o futuro. É uma ação institucionalizada, gerida pelo Sigda – Sistema de Gestão de Documentos e Arquivos – e o Grupo de Trabalho de Gestão de Documentos vem apoiar esta ação, reunindo trabalhadores de cada centro e departamento responsáveis pela documentação produzida e  criando um ambiente de discussão técnica, com o apoio de profissionais da COC.

Já o Projeto Memórias da ENSP está voltado para a memória do passado. A ideia é identificar onde estão as questões mais importantes a serem resgatadas. Por exemplo, podemos ter um grupo de pesquisadores que já se aposentou ou que já nos deixou de alguma maneira e que possui um acervo enorme. O objetivo é que os técnicos do projeto Memórias da ENSP oriente os profissionais do departamento ou centro a que pertence aquele pesquisador sobre como organizar isso. Outro exemplo: a Escola tem pesquisadores que acompanham o processo de saude indígena no Brasil desde os anos 1960, e esse é um acervo que tem que ser preservado.

Também pensamos no futuro do projeto. Organizar o toda essa documentação nos ajudará a pensar o futuro, evitando que se percam ou se dispersem, e possibilitará acesso a professores e alunos.

Informe ENSP: De que forma o projeto Memórias da ENSP pode ser um embrião para a preservação da memória da saúde pública brasileira?

Hermano Castro: Essa é uma questão que pensamos desde o primeiro momento. Possuímos memória daquilo que os pesquisadores e professores desenvolveram longo de 30 anos nas políticas e ações de saúde pública. Mas a saúde não se resume à ENSP; está em diversos locais e instituições. Para colaborar com a recuperação da memória da saúde pública brasileira é necessário estar em parceria com as outras escolas regionais, municipais, universidades e institutos de norte a sul do Brasil. É importante que a gente possa ter uma abrangência maior e uma parceria consolidada. Essa é uma etapa para o futuro, mas o objetivo é estender essa plataforma para outras instituições da saúde pública brasileira. Temos instituições como a Funasa, a Sucam e muitas outras que ajudaram a construir a saúde no país.

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