'Pacientes agravam a sua doença por falta de assistência adequada', afirma especialista na tuberculose multirresistente

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Em entrevista ao jornal O Globo, o pneumologista Jorge Luiz da Rocha, chefe do ambulatório do Centro de Referência Professor Hélio Fraga da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), afirma que o sucateamento das unidades de saúde especializadas no tratamento da tuberculose, além de prejudicar os pacientes mais críticos, faz com que muitos deles tenham de recorrer a emergências comuns, sem condições de biossegurança para o atendimento. O médico ressalta ainda que, entre os casos graves, muitos têm a doença resistente aos medicamentos, que podem desenvolver complicações.
 
O que é a tuberculose multirresistente? Como o senhor avalia hoje a rede para detecção e tratamento da tuberculose multirresistente no Rio?
 
Jorge Luiz: O diagnóstico é feito mediante a realização de cultura de escarro com teste de sensibilidade. O resultado de resistência (aos medicamentos) Rifampicina e Isoniazida configura a multirresistência. Esses dois fármacos são justamente os mais importantes para o tratamento da doença. Uma vez feito o diagnóstico da multirresistência, os pacientes são agendados para serem assistidos em unidades de saúde de referência, de acordo com o seu local de residência. O estado do Rio tem uma rede preparada para o atendimento aos pacientes portadores de tuberculose multirresistente.
 
Apesar disso, como o sucateamento dos hospitais de referência em tuberculose no Rio pode impactar no tratamento dos pacientes com multirresistência?
 
Jorge Luiz: O tratamento da tuberculose multirresistente é realizado ambulatorialmente, assim como os casos de tuberculose sem resistência. No entanto, a retaguarda hospitalar de referência é necessária, pois existem várias indicações de internação, como condições de saúde que não permitem o tratamento ambulatorial. São casos de extrema desnutrição; gravidade das lesões pulmonares; reações adversas ao esquema terapêutico, de difícil controle; presença de comorbidades que dificultam tratamento ou contribuem para o agravamento da tuberculose, como o HIV, a diabetes, as doenças mentais, hepáticas, renais e reumatológicas; necessidade de uso de medicamentos injetáveis por via endovenosa. Existem também as causas de internação por motivos sociais, que dificultam a adesão dos pacientes ao tratamento, tais como: o uso de drogas ilícitas; a ausência de residência fixa; dificuldade de autocuidado; falta de apoio familiar; etc. Esses motivos de internação, especialmente os últimos (sociais) requerem longa permanência hospitalar.
 
Existem somente três hospitais públicos com leitos destinados aos pacientes portadores de tuberculose: um municipal e dois estaduais. Somente um desses três é referência para internação de pacientes portadores de tuberculose multirresistente, que, pela característica de longa permanência, não consegue absorver toda a demanda. Com isso, pacientes agravam a sua doença por falta de assistência adequada, requerendo atendimento em unidades de urgência e emergência, que não possuem estrutura adequada de biossegurança.
 
O sucateamento dos hospitais de referência dificulta não só a ampliação necessária do número de leitos e de recursos humanos, mas também à prestação do cuidado com qualidade e oportunidade que esses pacientes necessitam, principalmente no que se refere ao acesso a métodos diagnósticos mais complexos, à terapia intensiva, à cirurgia torácica e ao arsenal terapêutico, dentre outros.
 
Enquanto isso, nos últimos anos tem acontecido um aumento do diagnóstico da tuberculose multirresistente no Rio. Quais os índices que registramos nos últimos anos?
 
Jorge Luiz: Nos últimos anos, uma nova tecnologia foi introduzida na rede de diagnóstico da tuberculose que é o Teste Rápido Molecular (TRM-TB), que detecta a presença de DNA do bacilo no escarro, e se existe a mutação genética que confere ao mesmo a resistência à Rifampicina. Esse resultado, que duas horas para ficar pronto, já indica multirresistência, que precisa ser comprovada posteriormente pelo Teste de Sensibilidade. De posse desse resultado, já existe a indicação de referenciamento e início do tratamento para multirresistência.
 
A partir da introdução dessa metodologia diagnóstica, aumentou-se a detecção de casos de multirresistência. Houve também o aumento do número de casos com multirresistência primária, ou seja, indivíduos que foram contaminados por bacilos já resistentes, sem história de adoecimento e tratamento prévios. No entanto, a tuberculose multirresistente secundária ou adquirida é a mais frequente dentre os casos de tuberculose resistente. Essa modalidade de resistência é consequência de tratamentos irregulares, inadequados e de abandonos.
 
Em 2010, foram registrados 117 casos novos de tuberculose multirresistente no Rio. Em 2015, foram 169, 30% a mais. Esse número correspondeu a 31,4% dos casos do país. O município do Rio é a origem de 60% dos casos do estado. Esses dados foram obtidos do SITETB (Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose), acessado em 16/10/2017.
 
No Brasil, a detecção de casos de multirresistência está aquém do esperado. Em 2015, a detecção foi de 63%, e somente 30% do total esperado foram notificados para iniciar o tratamento adequado.
 
Em comparação com o restante do país, como estamos no Rio para tratar do assunto?
 
Jorge Luiz: O estado do Rio é o que mais diagnostica e notifica casos de multirresistência no país. Essa é uma realidade que se mantém ao longo do tempo. A taxa de incidência de tuberculose no estado é uma das mais altas do país, assim como a de mortalidade. A taxa de encerramento por sucesso está bem abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o controle da doença, assim como a de abandono está bem acima das recomendações nacionais e internacionais.
 
Além desses fatores, a densidade populacional, as desigualdades sociais, a violência urbana, a presença de grupos mais vulneráveis, como a população em situação de rua, os privados de liberdade, os que possuem baixa imunidade, dentre outros, formam um cenário propício ao aumento de casos portadores de multirresistência.
 
 

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