Colóquio Latino-Americano debate Redes Colaborativas e formação docente em Saúde Pública

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*Por Talita Rodrigues e Júlia Neves

O primeiro painel do I Colóquio Latino-Americano de formação em Saúde Pública e III Colóquio Brasil-Cuba de formação em Saúde Pública, no dia 8 de maio, discutiu o tema Redes Colaborativas e Formação de Formadores Latinoamericanos, com a participação de Ricardo Teixeira, da Faculdade da Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e Mario Rovere, da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina. Ricardo Teixeira fez um relato de experiência sobre a Rede Humaniza SUS (RHS), rede colaborativa social vinculada à Política Nacional de Humanização. A RHS existe há dez anos e funciona como um blog comunitário, no qual os usuários podem postar suas publicações. “É uma rede social aberta para ocupação coletiva, na qual se compartilham narrativas de experiências de trabalho submetidas à discussão pública, contribuindo para o aprimoramento das políticas de gestão e cuidado em saúde”, disse Ricardo. Na RHS, também são compartilhadas experiências de formação no Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive com a publicação de trabalhos de alunos. “É um espaço de ocupação pelo cotidiano do trabalho em saúde”, observou Ricardo. Atualmente, a RHS tem 33 mil usuários cadastrados e publicações de 1.850 autores, além de 35 mil comentários já registrados.


Mario Rovere falou sobre o referencial de redes e citou alguns exemplos de redes bem-sucedidas no Brasil, tais como a Rede Unida, Rede de Escolas de Governo e a Rede de Escolas Técnicas do SUS (RET-SUS). Para Mario, três conceitos principais são importantes sobre as redes: unir instituições diferentes para a troca de experiências; a integração interna da rede para que ela funcione bem externamente; e a força na dinâmica de produção da rede. “Na lógica das redes, é mais importante a aranha do que a teia, porque a aranha pode construir a teia. Cuidar só da teia não adianta”, destacou ele.

Assista, no vídeo a seguir, as apresentações de Ricardo Teixeira e Mario Rovere na íntegra.
 

A formação docente em saúde pública à frente do debate

A formação de formadores em saúde pública e sua importância para os sistemas de saúde deu título ao segundo painel do I Colóquio Latino-Americano de formação em Saúde Pública e III Colóquio Brasil-Cuba de formação em Saúde Pública, coordenado pela vice-diretora de Pesquisa da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Marcela Pronko. Na mesa de debate estavam Oscar Feo, assessor do Instituto de Altos Estudos em Saúde Arnoldo Gabaldón (do espanhol, Instituto de Altos Estudios en Salud/Venezuela), Mario Dal Poz, professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Nancy Molina, diretora do Instituto de Desenvolvimento Humano, Incapacidades e Diversidades (do espanhol, Instituto de Desarrollo Humano, Discapacidades y Diversidade) da Universidade Nacional da Colômbia (Unal), Felix Rigoli, especialista em sistemas e serviços de saúde do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (Isags/Unasul),  e Carlos Einisman, presidente da Associação Argentina de Técnicos em Medicina Nuclear (do espanhol, Asociación Argentina de Técnicos en Medicina Nuclear - AATMN/Argentina).

Para Oscar Feo, o que se chama por formação de formadores em saúde pública não implica um problema técnico ou metodológico. “É basicamente um problema político, que obriga a todos a refletir sobre quais são os determinantes dessa formação e dos sistemas de saúde”, orientou, destacando dois fatores determinantes da formação: “O primeiro é o surgimento, nos últimos anos, de uma saúde pública para o mercado e o capital. O segundo é a entrada da saúde nos circuitos de acumulação de capital e, consequentemente, o aparecimento do complexo médico industrial financeiro como ator principal das políticas de saúde.”

A partir da década de 1990, com as políticas neoliberais, surge uma saúde pública que favorece as privatizações e coloca a saúde no mercado. Feo sublinhou que, nesse mundo globalizado e de hegemonia planetária do capital e vitória cultural da direita, pessoas pensam e atuam em função do mercado. “Essa hegemonia faz com que a sociedade adote as ideias dominantes e as incorpore ao seu repertório ideológico. A classe dominante educa a sociedade para que viva o capitalismo como algo natural”, criticou. O estudioso do tema observou que caberá ao campo da formação de formadores construir um pensamento contra-hegemônico, desenvolvendo uma saúde coletiva que asuma os novos determinantes das políticas de saúde.

Interações

Há dois elementos centrais quando o assunto é processo formativo, destacou Mario Roberto Dal Poz. São eles: as capacidades institucional e técnico-científica das instituições que formam. Para Dal Poz, pensar a formação de formadores implica refletir a interação entre os sistemas de saúde e as escolas de saúde, bem como seus desafios em diferentes dimensões. “As funções tradicionais da escola são basicamente quatro: formação; investigação e desenvolvimento tecnológico; cooperação técnica; e a ação direta na comunidade”, explicou, questionando como tais funções se interrelacionam com os componentes do sistema de saúde. Em sua observação, é importante pensar não somente o que as escolas estão produzindo quanto ao sistema de saúde, mas, também, como elas podem influenciar a organização e as funções dos sistemas.

Coube à Nancy Molina falar sobre as propostas de transformação para a melhor formação dos formadores e a necessidade de pensar a educação em conjunto com a prática profissional e o processo de trabalho. “A educação pode contribuir para uma prática profissional transformadora, à medida que consegue estabelecer lógica e capacidades contra-hegemônicas. O sentido básico do processo é o reconhecimento e a crítica a toda forma de relação de dominação, seja pelas classes sociais, de gênero, de etnias ou profissionais”, enfatizou. Ela defendeu a formação de vínculos com a realidade. “Todos os cenários de prática devem ser assumidos como uma possibilidade de transformação, a partir da maior compreensão do funcionamento da sociedade, da identificação de conflitos e das possibilidades de resistência e de mudança”, acrescentou.

Dedicado aos países da Unasul, onde se observam as maiores desigualdades sociais e, por isso, desafios em comum, Felix Rigoli discorreu sobre os anos 2010, marcados pela consolidação de paz, democracia e crescimento econômico, ainda que nenhuma das características esteja assegurada para a próxima década. “Há desafios em comum, especialmente para os sistemas de saúde, em um mundo que parece caminhar para o isolamento e a regressão dos indicadores sociais”, observou. Rigoli destacou a importância dos sanitaristas no contexto atual, que são dialeticamente produtos e produtores do sistema de saúde. “O desafio está em formar quadros direcionados aos direitos e com capacidade de pensar e implementar mudanças, em  um contexto no qual a população compreenda seus direitos e se mobiliza para defendê-los. Os sanitaristas, portanto, têm a obrigação de participar desse esforço”, sugeriu.

Por fim, Carlos Einisman destacou a interrelação contínua entre teoria e prática: “O interessante é que, independentemente de profissão, são categorias que se encontram em todas as partes. Nas carreiras universitárias, há mais teoria que prática. No entanto, quando se trata de técnicos ou operários, a prática se sobrepõe à teoria”. O professor explicou os conceitos de Episteme e Phronesis. Segundo ele, a Episteme é dirigida para o conhecimento de várias situações, usa conceitos gerais, baseia-se em pesquisa científica e é conceitual. Já a Phronèsis está direcionada a uma ação concreta e específica, centra a atenção em aspectos específicos da situação e se baseia em experiências próprias de cada um.

Confira, no vídeo a seguir, as apresentações do painel 2 na íntegra.

*Talita Rodrigues e Júlia Neves são jornalistas da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). 

 

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