Materiais discutem uso de crack e questionam estereótipos reforçados pela mídia

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* Por Elisa Batalha

Fábio Araújo, gerente de lanchonete em São Paulo, conta que no fim do dia passa na favela para comprar uma pedra para fumar. “No dia seguinte, tenho responsabilidade de ir trabalhar”. Poliana Alessandra dá café da manhã para os filhos e os manda para a escola antes de varrer as ruas - trabalho que conseguiu por intermédio do programa De Braços Abertos, que promove redução de danos para usuários de drogas na região conhecida como “cracolândia” (ver Radis 158). Diego de Paula chegou à capital paulista com sonhos de uma vida diferente. Atualmente, dorme em um abrigo e reflete sobre solidão e isolamento social. Três personagens reais que fogem do estereótipo de “zumbis”, amplamente associado aos usuários da droga, têm seus depoimentos registrados no documentário Crack - Repensar, lançado em julho.

A produção, dirigida por Felipe Crepker Vieira e Rubens Passaro, e realizada com recursos do edital Selo Fiocruz Vídeo 2013, reúne depoimentos de usuários, ex-usuários, especialistas em saúde pública, acadêmicos, gestores e profissionais que atuam na promoção da justiça. “A ideia do filme surgiu para mim a partir de uma frustração pessoal, com coisas que são dadas como verdade. Não há nada científico que consiga embasar quais substâncias devem ter a comercialização legalizada e quais não devem”, revelou Felipe, em debate organizado pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) para lançamento do vídeo, dia 29 de julho, na sede da Ong Viva Rio.

Na conversa, que também contou com a participação de Paulo Gadelha, presidente da Fiocruz e da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD), Valcler Rangel, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção à Sáude da Fiocruz e a psicóloga Christiane Sampaio, assessora de Saúde Mental do Viva Rio, o diretor contou porque, apesar de também ter registrado mais 30 horas de testemunhos de pessoas que defendem a linha proibicionista, de “guerra total" às drogas, optou por deixar suas falas de fora da edição final do vídeo: “Os argumentos acabavam ficando no âmbito da crença. Fica claro que não há um conceito científico para embasar as teses sobre o crack”, justificou.

Premiação no REcine

A proposta de Crack - Repensar, que recebeu o prêmio de Melhor Curta Metragem pelo Júri Popular no Festival Internacional de Cinema de Arquivo (REcine), em 2015, é repensar conceitos como redução de danos, internação compulsória e regulação das drogas, a partir da problematização de questões controversas, como a dificuldade em se diferenciar quem é usuário e quem é traficante, por exemplo. O documentário mostra que as leis são distintas em diferentes países e, no meio do “fluxo” (cenas de uso), dão margens a subjetividades e interpretações. “A construção social que se faz é cruel. O usuário acaba sendo aquele que consegue provar que tem recursos para comprar a droga”, argumenta em depoimento ao vídeo Orlando Zaccone, delegado da Polícia civil do Rio de Janeiro, secretário da organização internacional Law Enforcement Against Prohibition (Leap Brasil), que tem como missão “reduzir os inúmeros e danosos efeitos colaterais resultantes da guerra às drogas e diminuir a incidência de mortes, doenças, crimes e dependência, pondo fim à proibição das drogas”.

“De cada quatro pessoas que consomem crack, apenas uma fica dependente. Quem não tem acesso a uma boa qualidade de vida, um lugar para morar, um emprego, as chances de vir a se tornar um dependente em uma situação de grande vulnerabilidade são maiores”, garante o psiquiatra Arthur Guerra, livre docente da Universidade de São Paulo (USP), também entrevistado para o filme. “O que se coloca no lugar do sofrimento?”, perguntou Paulo Gadelha, ao final da exibição do documentário, no Viva Rio. Para ele, o momento político pede que se resgatem ideias progressistas em Saúde Pública, como a redução de danos. “O filme é um instrumento de alerta para tentarmos reconstruir essas políticas”, declarou.

Christiane Sampaio, que trabalha com a estratégia de redução de danos desde a década de 90 e hoje atua na equipe do Consultório de Rua de Manguinhos, comunidade na zona norte do Rio de Janeiro, elogiou a abordagem simples e dialógica do vídeo. “Comecei trabalhando com usuários de drogas injetáveis. A oferta de drogas mudou completamente, e hoje nas cenas de uso do crack trabalhamos com o diálogo, com aceitação da alteridade, sem imposições do tipo ‘você tem que parar’”, declarou. Durante o debate, a psicóloga lembrou que o consumo de álcool é de 8 a 15 vezes maior do que o de crack, e questionou outro mito — que afirma que a droga “mata em seis meses”. Segundo ela, dos usuários de crack, 80% são homens de 20 a 30 anos, que o utilizam há cerca de seis anos (Radis 122). Christiane lembrou ainda que o seu consumo está vinculado a um estrato social. “Muitos são moradores de rua. Existem subjetividades dentro dessas características e o filme mostra bem o peso do estigma. O vídeo é gentil e mobiliza na ponta para construir novas visões”.

Discurso do medo

Responsável pelo programa Institucional sobre álcool, crack e outras drogas na Fiocruz, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção de Saúde da instituição, Valcler Rangel destacou que o vídeo é um contraponto à imagem alarmista divulgada pela mídia, que previa que “o crack iria destruir o Brasil em poucos anos”, enquanto Umberto Trigueiros, diretor do Icict, assinalou o caráter mobilizador da produção: “o filme dá uma bofetada na nossa cara. É importante romper a fronteira entre a ciência e a arte e tratar dessas questões que são tabu”. Para Nísia Trindade Lima, vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz o filme “pode e deve” ser exibido para adolescentes, em espaços educativos.

Integrante da Comissão Brasileira Drogas e Democracia da Ong Viva Rio, Rubem César Fernandes apontou que o desafio é avançar nas práticas. “Deveríamos ser mais ousados e desvincular o consumo de drogas da violência na cabeça das pessoas. O contexto do proibicionismo dificulta o trabalho dos profissionais na atenção aos usuários. Nós nos conformamos com o discurso do combate. Esse discurso só provoca medo”, afirmou. Na opinião do antropólogo, “a saúde da família, a saúde mental, as comunidades terapêuticas e igrejas, todas devem ter o seu lugar de fala, apesar de as pessoas de ciência terem dificuldade de lidar com essas últimas”.

O debate no Rio foi precedido de lançamento do livro Crianças, Adolescentes e Crack, organizado pela pesquisadora Simone Gonçalves de Assis, coordenadora executiva e pesquisadora do Departamento de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Ensp/Fiocruz). O livro aborda o consumo da droga por crianças e adolescentes e também as consequências em suas vidas do uso da substância por pais ou responsáveis. Dividido em 10 capítulos, com textos assinados por 17 especialistas, tem por base os resultados de duas pesquisas realizadas pela Fiocruz, em 2012 e 2013. Os autores atuam em diferentes campos de conhecimento e dão à obra uma visão interdisciplinar, na tentativa de identificar quem são (e quantos são) os jovens usuários de crack, bem como traçar um perfil deles e refletir sobre as formas de atenção disponíveis em algumas cidades brasileiras. Simone defende que o crack é um problema de saúde pública que afeta diversas famílias brasileiras, “mais pelos impactantes efeitos provocados nos indivíduos e na sociedade, do que necessariamente pelos números alcançados”. Segundo ela, nos estudos que aferem prevalência existente no país, o uso do crack tende a atingir algo em torno de 1% da população em geral, enquanto outros problemas como, por exemplo, o uso de álcool, abrangem proporções muito maiores”. 

*Elisa Batalha é jornalista da Radis
 

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