Teses, tiros e escorpiões: lá se vão sessenta anos

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Jorge Luís Borges imaginava o paraíso como uma espécie de biblioteca. A imagem, já clássica, é de uma beleza inegável, mas tem muito pouco a ver com a trajetória daquela que se tornou a maior biblioteca de saúde pública do Brasil. Na semana em que festejou seus 60 anos, a biblioteca da ENSP recebeu ex-diretores e funcionários para contar a história de um acervo que floresceu em tempos nada paradisíacos e se tornou uma referência internacional. O debate ocorreu no salão internacional da Escola, no dia 1º de setembro.

Criada em 1954, a partir do acervo do Conselho Nacional de Saúde, a biblioteca viria a enfrentar, dez anos depois, as conseqüências da severa vigilância do regime militar. “Não se assinava um periódico, não comprávamos nenhum livro. Vivíamos de doações”, lembrou Jussara Long, diretora da biblioteca por mais de 30 anos. Foi de Jussara a ideia de valorizar, então, as teses dos alunos da Escola, na intenção de individualizar a biblioteca.

Só nos oitenta, com a chegada de Sérgio Arouca à presidência da Fiocruz, esta realidade começou mudar. Criou-se uma superintendência de informação científica e as bibliotecas do campus foram integradas num mesmo sistema. Um avanço extraordinário comparado com a escassez do período da ditadura, mas quase uma era pré-histórica se levarmos em conta a velocidade com a informação circula hoje.

Paulo Buss, ex-diretor da ENSP, se divertiu ao lembrar um tempo em que se esperava 30 dias por um artigo escrito no Brasil e 90 por um do exterior. “Na hora de pesquisar, a gente tinha vontade de quebrar o computador”, disse Paulo. A mesa que celebrou os 60 anos da biblioteca foi marcada ainda por outros 'causos', como o das lacraias e escorpiões levados por Huberto Trigueiros para uma reunião do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). A “biblioteca viva” tinha por objetivo sensibilizar a direção do instituto quanto às más condições de trabalho na biblioteca da ENSP. Aproveitando a deixa, Paulo Buss também falou de marcas de tiros numa das paredes das bibliotecas, nos anos 90. Era a realidade do entorno da Fiocruz se fazendo notar da maneira mais perversa.


Justamente essa vizinhança havia sido lembrada por Hermano Castro, atual diretor da ENSP,  como o lugar para onde biblioteca e Escola devem voltar seu olhar e ações. As pautas que ditarão o futuro da biblioteca não param por aí. Paulo Buss ressaltou a integração e o convívio do papel com os novos suportes digitas e os vídeos. A atual diretora da biblioteca, Vânia Guerra, falou sobre o importante trabalho que vem sendo feito para individualizar as buscas de acordo com a necessidade de cada pesquisador.

Se a realidade das bibliotecas na vida acadêmica Brasileira não é um paraíso como o idealizado por Borges, ela tem lá suas compensações. Orgulhosa, Vânia lembrou de uma pesquisadora de Havard que teve que recorrer à biblioteca da ENSP para buscar algo que não poderia ser encontrado em nenhum outro lugar do mundo. E no melhor estilo faça limonada dos limões que a vida te dá, as teses, priorizadas nas primeiras décadas por serem a única saída diante da censura velada da ditadura, são hoje o carro chefe da casa.  Um acervo que precisa ganhar cada vez mais asas para ser preservado, segundo Jussara Long ,“os pesquisadores tinham receio da digitação por causa do plágio, mas eu sempre defendi que quando mais algo é conhecido menor a chance de ser copiado indevidamente. Além disso, tem muito suor numa tese para ela ficar restrita, fechada”, concluiu.

 

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