Evento discute atuação de Nutels entre povos indígenas

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O grupo de pesquisa em Saúde Indígena e o Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), ambos da ENSP, realizaram, no dia 29/4, o seminário Epidemiologia, sanitarismo, povos indígenas e controle da tuberculose: a atualidade da agenda de Noel Nutels, em comemoração ao centenário do médico sanitarista. Segundo Paulo Basta, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa (Densp), existem evidências paleopatológicas da presença de tuberculose (TB) nas Américas há milênios, mas, no Brasil, a doença foi introduzida logo nos primeiros anos da colonização portuguesa pelos jesuítas. "Do século XVI ao início do XX, houve importante processo de depopulação indígena em virtude de epidemias como gripe, sarampo, varíola e tuberculose. Só na década de 1950, com a criação do Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (Susa) por Noel Nutels, passou-se a conhecer, de forma sistematizada, a TB entre os indígenas no Brasil", relatou.

 

Segundo Paulo, permanecem desafios como as dificuldades estruturais dos serviços de saúde para realizar um correto diagnóstico de TB e a realização do acompanhamento dos casos em tratamento e indicação do tratamento entre indígenas. Também há necessidade de expandir as ações de prevenção, como vacinação com BCG em tempo oportuno para as localidades mais afetadas e esclarecimento da suscetibilidade genética ao adoecimento por TB entre essas populações. Além disso, "é preciso compreender as explicações indígenas para o adoecimento e buscar integrar as práticas da medicina tradicional indígena à biomedicina, com a intenção de melhorar os resultados do tratamento e o desempenho dos serviços de saúde", acrescentou.
 
A vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), Nísia Trindade Lima, anunciou, na apresentação, que está organizando um livro, com o pesquisador Gilberto Hochman, sobre os médicos intérpretes do Brasil. Noel Nutels estará presente entre eles, por ter pensado a nação brasileira com suas diferenciações étnicas e raciais e dificuldades do século XX ainda permanentes na atualidade.
 
Nísia mostrou fotos históricas de Noel Nutels em campo com sua câmera de filmagem, com indígenas ou mesmo atravessando um rio. Nutels, explicou Nísia, situa-se numa visão de estado com assimetrias e expressões culturais diferentes. No início da década de 1940, ele participou da expedição Roncador Xingu.
 
Essa expedição ocorreu em 1943, quando dezenas de homens partiram de São Paulo para o interior de Goiás e Mato Grosso com a missão oficial de explorar locais considerados selvagens. Tal empreendimento do Estado Novo visava expandir a autoridade federal para regiões tidas como "vazias", a exemplo da Amazônia e do Centro-Oeste, pouco depois. Posteriormente, foi incorporado pela Fundação Brasil Central (FBC), órgão público que intensificaria o processo de colonização de áreas a respeito das quais não havia dados cartográficos e demográficos precisos. 
 
Tais ações desencadearam a criação, em 1961, do Parque Indígena do Xingu, considerado a maior e uma das mais famosas reservas do gênero no mundo. Foi resultado de vários anos de trabalho e luta política, envolvendo os irmãos Villas-Bôas, Marechal Rondon, Darcy Ribeiro, Noel Nutels, Café Filho e muitos outros. 
 
Nísia lembrou o Plano para uma Campanha de Defesa do Índio Brasileiro contra a Tuberculose. Em 1939, esse plano relatava que os territórios centrais do Brasil não eram despovoados, mas existia uma “população amplamente rarefeita e cuja tendência é a de se rarefazer cada vez mais”.  O documento dizia tratar-se de “indígenas que, com a penetração descontrolada da civilização naquela região, vão recebendo doenças e outros problemas contra os quais nenhuma resistência podem oferecer”. 
 
“É com Nutels que as matrizes para pensar a saúde pública passam a contemplar como tema a saúde indígena, invisível até a década de 1950. Antes, porém, em 1918, foi instituído o Serviço de Proteção Indígena (SPI), dirigido por Marechal Rondon, que previa o saneamento dos sertões e continha a ideia do sertanejo como cerne da nacionalidade”, explicou ela. No entanto, complementou, havia uma fragilidade nessa ideia de tutela do SPI.
 
Em 1939, foi criado o Conselho Nacional de Proteção ao Indígena, vinculado ao Ministério da Agricultura. Nesse período, começou a estreitar-se a relação entre antropólogos, linguistas e médicos a respeito da política indigenista, disse Nísia. Daí, surgiram denúncias sobre as consequências que a população indígena sofria em virtude do contato com o homem “branco”. Nutels dirigiu o SPI de 1962 a 1964. Várias linhas de pesquisas antropológicas foram inauguradas na época.
 
Também participou do seminário o presidente da Fundação Ataulpho de Paiva, Germano Gerhardt Filho, órgão responsável, com licença do Ministério da Saúde, pela fabricação da BCG (Bacilo de Calmette-Guérin), a vacina contra a tuberculose, e mais recentemente pelo Imuno BCG, medicamento indicado para o tratamento do câncer de bexiga superficial.
 
Ele informou que, conforme dados de 2012, um terço da população mundial está infectada pelo bacilo da TB, principalmente nas regiões do sudeste asiático e continente africano. No Brasil, são estimados cerca de 90 mil casos por ano, em virtude das condições epidemiológicas existentes. “Apesar de ser uma doença curável, ocorrem 4.500 óbitos por ano”, disse Germano. As cidades campeãs de incidência são Recife e Rio de Janeiro. Com menor índice de incidência, estão Brasília, Goiânia e Palmas. Os dados são do Ministério da Saúde.

 
Germano fez um histórico das atividades de combate à tuberculose, que começaram no início do século XX no âmbito da sociedade civil. Na década de 1930, iniciaram-se as primeiras ações governamentais. “O Brasil foi o primeiro país a reduzir o tempo de tratamento da doença para 12 meses, na década de 1960. Na década seguinte, o Programa de Combate à Tuberculose ganhou ações mais específicas como redução de internações. A cobertura de 100% vacinal de BCG veio na década de 1980.”
 
De acordo com ele, houve, com esse programa, redução do índice de mortalidade pela doença que atingiu 5% ao ano. Em 30 anos, mais de 2 milhões de doentes foram tratados, e foram vacinadas com BCG cerca de 150 milhões de crianças. Em 2009, iniciou-se o tratamento com quatro drogas juntas e o diagnóstico de HIV nos pacientes tuberculosos. Também foi introduzido o diagnóstico por biologia molecular (GeneXpert).
 
A representante do Laboratório Central do Mato Grosso do Sul, Eunice Cunha, trouxe um diagnóstico laboratorial da tuberculose em áreas indígenas. Na década de 1960, Nutels, por meio de parceria com a missão religiosa Kaiowa, iniciou os trabalhos na região, mas apenas em 1999 houve intervenção do Ministério da Saúde para realização de tratamento ambulatorial. Naquele ano, foram registrados mil casos de tuberculose em MS.
 
O grupo de pesquisa em Saúde Indígena da ENSP é formado pelos pesquisadores Carlos Coimbra Jr, Ricardo Santos, Paulo Basta, Reinaldo Souza-Santos, Andrey Cardoso e James Welch. O seminário é coordenado por Carlos Coimbra e Paulo Basta.
 
Centenário do nascimento de Noel Nutels
 
O médico sanitarista Noel Nutels comemoraria 100 anos em 2013. Na década de 1950, Nutels foi idealizador e diretor do Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (Susa), que, em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB), levou assistência médico-sanitária às populações residentes no interior do país.
 
No escopo das ações desenvolvidas pelo Susa, Nutels tornou-se pioneiro na investigação da tuberculose entre os índios brasileiros, e parte do conhecimento disponível hoje sobre o tema se deve a seu esforço. “Assim, o seminário também pretende homenageá-lo”, afirmam os coordenadores do evento. “A ideia central é tratar dos avanços alcançados com as pesquisas recentes e identificar os principais desafios para se obter um efetivo controle da enfermidade entre as populações indígenas”, completaram. 

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