Conhecimento em biologia humana tem desdobramento sociocultural

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As novas tecnologias biomédicas têm impactos não só na saúde, mas também sociais, políticos, éticos e econômicos. E isso apresenta desafios para historiadores, filósofos, antropólogos e sociólogos. Reflexões e análises sobre o assunto são apresentadas no livro Identidades emergentes, genética e saúde: perspectivas antropológicas, lançamento da Garamond e da Editora Fiocruz. Organizada pelos pesquisadores Ricardo Ventura Santos, Sahra Gibbon e Jane Beltrão, a coletânea reúne artigos que abordam os mais variados aspectos, da psiquiatria ao diagnóstico de câncer de próstata, da violência à doação de sêmen.

Mas uma indagação idêntica perpassa os capítulos: estamos, nos dias atuais, diante de uma situação de novas tecnologias biológicas alimentando, direta ou indiretamente, a emergência de novas configurações ideológicas? Menos que uma combinação entre "novas tecnologias biológicas e novas configurações ideológicas", as análises do livro sugerem um padrão de "novas tecnologias biológicas e velhas configurações ideológicas".

 

Um exemplo bastante emblemático desse tipo de situação é o sequenciamento do genoma humano. Resultados de laboratório revelaram que, do ponto de vista do DNA, as diferenças entre as populações são mínimas. Contudo, no âmbito social, e contrariando expectativas, os achados da genética contribuíram para reavivar o debate sobre a concepção de raça e, consequentemente, sobre diferenças raciais embasadas em variações biológicas. "No caso brasileiro, por exemplo, de maneira mais próxima ou distante, os debates sobre o perfil genômico da população, como os leitores terão oportunidade de ver, passam, necessariamente, pela questão racial e pelo tema da mestiçagem em particular", afirmam os organizadores. Um dos capítulos do livro, aliás, apresenta um estudo comparativo de três empresas - uma delas brasileira - que comercializam testes de ancestralidade genética.

           

Os artigos incluídos na coletânea surgiram das discussões ocorridas durante a 27ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia, realizada em Belém, em 2010. Mas seus temas "transcendem fronteiras nacionais e refletem configurações internacionais de amplo alcance", ressaltam os organizadores. Nesse sentido, o livro trata de dois temas centrais na história e no presente da saúde: a loucura e a violência. A explicação de tais fenômenos tem variado ao longo do tempo e vai desde uma dimensão puramente biológica (ou seja, o indivíduo seria naturalmente louco ou violento) até questões sociopolíticas (fatores externos ao indivíduo determinariam seu comportamento desviante). A obra problematiza, ainda, a longevidade humana, assunto amplamente disseminado na mídia, incluindo a internet, na qual os discursos oscilam entre, de um lado, a predisposição de certas pessoas a uma vida longa e, de outro, a propensão de alguns grupos a determinadas doenças.

 

As atuais tecnologias biomédicas também propiciam novas formas de diagnóstico, que podem alterar a relação do paciente com a doença. Um exemplo estudado é o câncer de próstata, que, no passado, era diagnosticado somente a partir de alterações anatômicas. Hoje, o risco de desenvolvimento da doença pode ser medido pela detecção e quantificação de determinadas moléculas. Isso permite prever o câncer antes que se manifeste, gerando "pacientes em espera" ou "doentes por antecipação".

 

Outros capítulos debatem a subjetividade atrelada às novas tecnologias biomédicas. Em clínicas de reprodução assistida, por exemplo, vivenciam-se alguns dilemas, como a doação anônima de sêmen e o interesse dos casais atendidos em conhecer os atributos físicos e comportamentais do doador, que poderiam ser herdados por seus filhos. Já no caso da polêmica envolvendo o uso de embriões restantes de reprodução assistida para a produção de células-tronco, percebe-se como tanto aqueles que são a favor desse procedimento como os que são contra baseiam seus argumentos na ciência genética, mobilizando os dados segundo complexos arranjos de argumentação política. 

 

Por fim, o livro examina como a biomedicina pode desempenhar papel importante em tomadas de decisões políticas. Um dos capítulos analisa os discursos relacionados à leucopenia (baixa contagem de células brancas no sangue), no contexto da luta sindicalista e das discussões contemporâneas sobre a chamada "saúde da população negra". Já com o povo indígena Uro, dos Andes bolivianos, a discussão gira em torno de sua ancestralidade genética e de lutas políticas pelo reconhecimento de direitos.

 

"Através de diferentes enfoques, os textos abordam as múltiplas formas pelas quais a ciência (em especial a tecnociência contemporânea) contribui para moldar o mundo social em domínios como identificação pessoal, identidades nacionais e ações coletivas, inclusive na área da saúde", resumem os organizadores. "Os textos aqui reunidos estão em sua totalidade voltados para as vinculações entre produção de conhecimento científico sobre a biologia humana e seus desdobramentos socioculturais e políticos."

 

Serviço:
Identidades emergentes, genética e saúde: perspectivas antropológicas
Ricardo Ventura Santos, Sahra Gibbon e Jane Beltrão (orgs.)
Garamond e Editora Fiocruz
2012 / 272 p. / R$ 42,00

 

Mais informações em www.fiocruz.br/editora.