Fiocruz discute cooperação internacional para ensino

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Danielle Monteiro* e Tatiane Vargas**

Com o intuito de promover maior articulação e integração entre as ações que promove no âmbito da cooperação internacional no ensino, a Fiocruz promoveu na quarta-feira (11/4) o seminário Cooperação Estruturante no Ensino: a Experiência da Fiocruz na América Latina e na África. O evento, coordenado pelo Centro de Relações Internacionais (Cris/Fiocruz) e a Vice-Presidência de Ensino, Informação e Comunicação (VPEIC) da Fundação, reuniu os coordenadores de programas de ensino de algumas das unidades da Fundação, entre elas a ENSP, para apresentar dados sobre os programas de educação oferecidos na América Latina e na África. “Sentimos a necessidade de uma reflexão compartilhada sobre a experiência de ensino que a Fiocruz tem desenvolvido nos países da África e da América Latina. Nossa motivação principal foi trazer uma discussão para que nós, em conjunto, refletíssemos sobre se, de fato, estamos caminhando para uma cooperação estruturante”, explicou a vice-presidente Nísia Lima, durante a abertura do evento.



 

O coordenador do Cris, Paulo Buss, fez uma breve reflexão sobre a atuação do Brasil no cenário internacional nos últimos anos. Segundo ele, com o crescimento econômico do Brasil e a estabilização de sua economia surgiu a responsabilidade de o país ajudar outros que ainda não conseguiram atingir o mesmo nível de crescimento. Buss também destacou a importância de uma cooperação estruturante no ensino nos países latino-americanos e africanos e afirmou que, ao contrário de uma parceria isolada, a cooperação estruturante ocorre quando há um alinhamento das ações implantadas aos desejos do país que está sendo ajudado, além de uma harmonia dessas ações com as de outras nações que também desenvolvem programas de ensino naquele país e a apropriação dessas ações pelo país de forma a dar prosseguimento aos programas que recebeu. “A ideia não é chegar ao país, implantar a ação e ir embora. Cooperação estruturante significa alinhamento, harmonia e apropriação”, ressaltou.

Os programas de ensino e seus desafios

Os desafios referentes à implantação dos programas de ensino foram relatados pelos participantes do seminário. Um deles diz respeito à condição financeira de alguns alunos, principalmente do continente africano, o que dificulta sua estadia no Brasil durante o período de estudo. “É preciso estabelecer normas que melhorem as condições desses estrangeiros em nosso país. Precisamos não só oferecer a eles formação, mas também ajudar na melhoria de suas condições”, destacou Nísia. Outra dificuldade abordada foi a falta de infraestrutura dos países que receberam os programas de ensino, especialmente os africanos: “Tínhamos que dar as aulas dentro de um local pequeno; houve vezes em que faltou luz por problemas no gerador e sofremos com o calor”, contou Fátima Martins, do Instituto de Comunicação e Informação Cientifica e Tecnológica (Icict/Fiocruz), que coordenou o projeto de criação de uma rede de bibliotecas em Moçambique. O programa, criado para capacitar recursos humanos e promover o acesso às  fontes de informação e literatura para o desenvolvimento da saúde no país, teve como resultado a capacitação de dezenove profissionais e a obtenção de dezoito centros cooperantes em Moçambique.

A mesma dificuldade foi apontada por Elizabeth Artmann, coordenadora do projeto de mestrado em saúde pública em Luanda (Angola), programa que consistiu em disciplinas presenciais, com participação de professores brasileiros e de ex-alunos africanos que tinham mestrado e doutorado e que estavam em atividade em seus países. “Faltou maior comprometimento por parte do governo angolano. Era comum haver salas sem água nem luz, embora Angola disponha de infraestrutura”, afirmou Elizabeth.

Também realizado no país africano, o programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em parceria com o Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique, assim como a criação da rede de bibliotecas, rendeu bons frutos. O programa, uma das atividades prioritárias do Plano Estratégico do INS, está para receber sua terceira turma no fim de julho e vai oferecer novas vagas para o pessoal da área clínica. Segundo Ilesh Jani, diretor do Instituto Nacional de Saúde, “a continuação do curso é de importância crítica para a estruturação do INS e do sistema de saúde de Moçambique”. De acordo com o coordenador do programa, Wilson Savino, do IOC, o maior desafio em sua implementação foi definir do que de fato os alunos de Moçambique necessitavam. “Tínhamos que definir do que os alunos de Moçambique precisavam, e não do que nós achávamos que eles precisavam. Isso não foi fácil”, contou.

Outro programa apresentado no evento foi o curso de mestrado em saúde pública que a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) implantou no Peru, juntamente com o INS e o Ministério da Saúde do país sul-americano. Com o objetivo de fortalecer a capacidade de investigação e ensino em saúde pública, de análise estratégica e de formulação de políticas e programas de saúde no país, o programa, que teve financiamento do Ministério da Saúde, por meio da Opas e do INS do Peru, contemplou 27 alunos, dentre eles, alguns pesquisadores e docentes do INS e da universidade pública San Marcos.

No evento, também foram apresentados o Programa de Mestrado em Epidemiologia na Argentina, coordenado pela ENSP e desenvolvido em parceria com a Administración Nacional de Laboratorios e Institutos de Salud (Anlis), o Programa de Mestrado em Biologia Celular e Molecular na Argentina, coordenado pelo IOC e implementado na Anlis, e as ações desenvolvidas pela Escola Polítécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) no âmbito da cooperação internacional. Com a realização do seminário, a ideia é que o Cris e a VPEIC compilem as informações obtidas de forma a avançar no desenvolvimento de metodologias para os cursos e detectar os pontos fracos das ações implementadas. “Devemos pensar mais na ideia de consórcio e associação de programas para podermos avançar mais. O papel das unidades na cooperação internacional no ensino é importante, mas devemos pensar em mais formas de integração para usar esse potencial tão rico que a Fiocruz tem”, complementou Nísia.

 

ENSP prepara segundo curso de mestrado em epidemiologia na Argentina

 

A coordenadora adjunta do mestrado em Epidemiologia na Argentina, Aline Nobre, abordou a estruturação do curso do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP na parte da tarde. O curso surgiu a partir do convênio da Fiocruz com a Administración Nacional de Laboratorios e Institutos de Salud (Anlis) da Argentina, com a finalidade de estabelecer relações de cooperação científica e tecnológica nos campos de desenvolvimento tecnológico em saúde, produção de insumos, medicamentos e recursos para diagnóstico. Coube à ENSP, por meio do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública, montar o curso, as disciplinas, os orientadores e os seminários do mestrado. O objetivo do mestrado é fortalecer as áreas de recursos humanos e pesquisa da Anlis.


A primeira turma do mestrado teve início em agosto de 2008 e reúne alunos de diferentes províncias com o objetivo de fomentar uma massa crítica no país. O mestrado, cuja coordenação geral é da pesquisadora do Departamento de Epidemiologia da ENSP Marília Sá Carvalho, possui 27 alunos, todos eles vinculados ao Ministério da Saúde, e já teve catorze dissertações defendidas, sendo doze delas em 2010 e duas em 2011. Em novembro de 2010, alunos, orientadores, professores da banca e representantes do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP, da Vice-Presidência de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz e da Anlis, além do diretor de Relações Internacionais do Ministério da Saúde da Argentina, se reuniram para a semana de defesas e avaliação do curso. No relatório final, os envolvidos destacaram a oportunidade de capacitação profissional, a abrangência metodológica dos projetos e sugeriram propostas para as próximas turmas do curso.

 

 

 

Por fim, Aline destacou algumas dificuldades para a execução do curso, como a estadia dos alunos no Brasil, o apoio acadêmico e a infraestrutura em Buenos Aires e a intensidade da carga horária as disciplinas. A coordenadora citou também que existem muitos desafios e perspectivas para a continuação do curso. “Existe a possibilidade de criação de uma estrutura de rede de intercâmbio entre os alunos egressos do curso e também a possibilidade da elaboração de um curso de doutorado”, explicou ela. A elaboração da segunda turma de mestrado em Epidemiologia na Argentina está em discussão entre as partes envolvidas e prevista para agosto de 2012.

 

*repórter da Agência Fiocruz de Notícias

**repórter do Informe ENSP