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ENTREVISTA

Pesquisadora defende construção de políticas públicas duradouras e coerentes

07/02/2014

* Por Danielle Monteiro

O investimento em Recursos Humanos em saúde é essencial para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Sem uma força de trabalho eficiente e suficiente, não é possível um sistema de saúde sólido e eficaz. Mas o que é necessário para enfrentar os principais desafios no campo de RH em saúde no mundo, como a insuficiência de profissionais? Por que o RH em saúde é importante para o alcance dos ODM e da cobertura universal? E qual a importância das cooperações internacionais para que se atinjam essas metas? Essas perguntas foram respondidas pela pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Maria Helena Machado, em entrevista ao Crisinforma.

Durante o bate-papo, ela também comenta os principais resultados do III Fórum Global sobre Recursos Humanos em Saúde, no qual esteve presente representando a Fundação. O Cris/Fiocruz também marcou presença no Fórum e participou das pré-oficinas do evento, que reuniram membros da Rede dos Institutos Nacionais de Saúde da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Rins/CPLP), da Rede Internacional de Educação de Técnicos em Saúde (RETS/CPLP e Rets/Unasul) e da Rede de Escolas de Saúde Pública (Resp).

O evento, que aconteceu em Recife, foi coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Global Health Workforce Alliance (GHWA), em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e o Ministério da Saúde do Brasil. O Fórum culminou na Declaração de Recife, documento de compromisso dos países membros, que traz 10 ações que devem ser implantadas pelas nações no campo de RH em saúde. A declaração propõe ainda a criação de redes internacionais e o apoio internacional para que os governantes atinjam as metas no seu próprio país. 

Confira a entrevista na íntegra.

Qual a importância do RH em saúde para o alcance da cobertura universal ?

Maria Helena Machado: Primeiro, gostaria de dizer que prefiro o termo ‘trabalhador em saúde’, e não RH. Isso significa elevar o termo a sua real categoria de prioridade em qualquer sistema e estrutura organizacional, pois os trabalhadores são a peça fundamental da grande engrenagem do sistema de saúde, independente do continente onde esteja. Essa é a importância: tornar estratégica a área e elevá-la à máxima prioridade institucional, afinal, estamos falando de pessoas qualificadas e preparadas para atender às necessidades da população que busca atendimento em situações adversas.


Qual a importância dos recursos humanos em saúde para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio?

Maria Helena:
 É inconcebível pensar alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio no campo da saúde sem priorizar e produzir politicas públicas consistentes, duradouras e coerentes com esses objetivos. Ou seja, não se pode pensar saúde para todos sem ter como centro o acesso dos profissionais para realizar estes objetivos.

Um dos grandes problemas no campo de RH em saúde no mundo é a escassez de profissionais. A que se deve isso?

Maria Helena:
 São várias as razões, que vão desde a baixa relação entre oferta e demanda de profissionais até a ausência de politicas públicas adequadas de valorização dos profissionais, gerando seu afastamento do sistema de saúde. Essa é uma questão complexa e deve ser discutida - como observado no Fórum Global - respeitando as realidades regionais. A  escassez de médicos no continente africano, por exemplo, é uma situação específica, que deve e precisa ser vista de forma especial, uma vez que as realidades de cada país são definidoras dos rumos a tomar pelas autoridades governamentais. A escassez de profissionais de saúde no Canadá, Brasil, Peru, ou mesmo na Europa, por outro lado, é localizada, específica de uma determinada área longínqua e, por vezes, de difícil acesso.

Que soluções podem ser propostas para a ampliação do número de profissionais de saúde nos países para o alcance da cobertura universal?

Maria Helena:
 É preciso regionalizar o problema da escassez para buscar saídas específicas e respeitosas com a realidade local. Reconheço a importância das cooperações internacionais, mas sou mais favorável a soluções nacionais por meio de politicas públicas capazes de resolver de fato este enorme problema. É preciso ter um diagnóstico claro da situação da Força de Trabalho em Saúde (FTS) existente no país, e de sua localização, verificando sua concentração e escassez; analisar o comportamento da oferta e demanda dessa FTS; analisar a capacidade institucional do aparelho formador e, especialmente, observar a possível e quase sempre desigualdade de distribuição destas instituições formadoras no país. A solução deste grave problema é sempre um conjunto de soluções envolvendo muito mais que a simples matemática da oferta e demanda de FTS.

Quais são os outros desafios no campo de RH em saúde no mundo?

Maria Helena:
 São tantos que fica difícil mencioná-los. Elegeria dois desafios estratégicos. O primeiro seria formar profissionais mais em sintonia com sua realidade e menos ‘estandartizados’. O segundo seria dar uma melhor adequação ao mundo do trabalho no qual vão atuar, dando mais dignidade e valorização a esses profissionais. Implantar políticas públicas que priorizem a carreira, bons salários, boas condições de desenvolver com dignidade e tranquilidade as atividades cotidianas e, acima de tudo, respeito e atenção especial para com aqueles que cuidam da população. Trabalhadores de saúde são um bem público precioso que o Estado (seja ele qual for) deveria cuidar com preciosidade, priorizando-os.  O mundo precisa trilhar este caminho se de fato a meta for saúde para todos no próximo milênio.

O que a Fiocruz tem feito, inclusive em termos de cooperações internacionais, na tentativa de solucionar esses desafios?

Maria Helena:
 A Fiocruz é um exemplo perfeito de como uma instituição pública de vocação nacional pode contribuir para buscar a superação destes desafios, formando milhares de trabalhadores para o sistema de saúde, qualificando-os em áreas estratégicas para os serviços, fazendo parcerias nacionais e internacionais com outras instituições, o que permite descentralizar e ampliar sua capacidade formativa. A Fiocruz, com suas parcerias, vem contribuindo também na produção de conhecimento, formando quadros de jovens pesquisadores nas regiões e países, especialmente na América Latina e África. Contudo, há muito ainda que realizar e ampliar nossa capacidade de transferência de tecnologia, saber e conhecimento.

Como se deu a participação da ENSP no Fórum Global de RH? E quais foram os principais desdobramentos desse encontro?

Maria Helena:
 A Ensp esteve ativa não só com a presença de sua direção nos debates, como também com a presença de nós, pesquisadores da área, buscando ampliar os contatos internacionais no campo da pesquisa e cooperação técnica. Este foi o terceiro Fórum do qual participamos e, em todos, fizemos um bom debate, e estabelecemos contatos e ótimas  possiblidades de parcerias institucionais.

*Danielle Monteiro é jornalista da Coordenação de Comunicação Social da Fiocruz.


 
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