Palestra resgata aspectos históricos da saúde pública

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Paulo_Sabroza_53anos_peq.jpgA globalização cria condições tecnológicas totalmente inéditas, e não sabemos qual e nem como será o desdobramento desses avanços. A única certeza é que problemas não faltarão., afirmou Paulo Sabroza, pesquisador do Departamento de Endemias Samuel Pessoa (Densp/ENSP) na palestra Conceito de saúde e doença e o projeto da saúde pública. No evento, que integrou a programação da semana de aniversário de 53 anos da ENSP, Sabroza fez um panorama histórico do processo saúde-doença-cuidado e mostrou suas diversas representações ao longo dos anos: a mágica, a religiosa, a filosófica e a científica. O áudio e a apresentação estão disponíveis na Biblioteca Multimídia da ENSP.

Segundo o pesquisador, há 80 mil anos o pensamento era mediado pela mágica. Há cerca de 10 mil anos, surgiu o pensamento religioso, que considerava o sofrimento humano resultado de impureza moral ou de pecado (desobediência dos códigos de conduta prescritos pelos deuses). Junto com o pensamento religioso, também surgiram, no Egito, as primeiras representações do pensamento filosófico, tendo as experiências empíricas como ponto de partida para os estudos. Os hebreus deixaram um universo de leis morais, porém, foram os gregos que visualizaram, pela primeira vez, um universo de leis naturais, explicou o palestrante, lembrando que a racionalidade científica, surgida há cerca de 500 anos, não é uma prática intuitiva, mas que exige experiência para a sua realização.

Paralelo a isso, de acordo com Sabroza, também houve grandes mudanças na expectativa de vida das pessoas, cuja média que era de apenas 20 anos para os neandertais, passou para 28 anos na Grécia Clássica, 50 anos na Europa do início do século XX e 79 no final do século, e hoje, já alcançou a marca de 83 anos.

O corpo como objeto de pesquisa e a saúde pública

Por volta de 1300, a peste invadiu a Europa, e a morte passou e ser vista como um horror ser explicação, afirmou o professor: A peste levou à ruptura dos paradigmas feudais baseados nos pensamentos religioso e filosófico. O corpo humano deixou de ser sagrado e passou a ser objeto de pesquisa das ciências médica e biológica, sendo entendido como uma máquina e estudado de forma totalmente separada da mente.

Quando finalmente a Europa se recuperou da peste, a partir de 1600, os inúmeros ciclos de desenvolvimento capitalista acabaram por gerar grandes concentrações populacionais urbanas e, principalmente nas capitais, as crises começaram a aparecer. A saúde pública tem cerca de 200 anos e é uma combinação de três dimensões indissociáveis: a científica, a política e o compromisso ético, enfatizou Sabroza.

Segundo ele, no final do século XIX, as doenças, que antes eram vistas como castigo de uma sujeira moral, passam a ser vistas como resultado da sujeira verdadeira. As pessoas passam a relacionar a pobreza com a sujeira e, conseqüentemente, com a doença: Esse aspecto aparece de forma clara no documento do Comitê Especial para a Saúde das Cidades, realizado em 1840, em Londres, que dizia que algumas destas medidas eram urgentes e necessárias para o bem estar dos pobres e para a defesa e segurança dos ricos. Ele também enfatizou que, nesse período, todo o conhecimento que se tinha acerca da saúde foi reformulado e, em pouco mais de 50 anos, se formaram novas concepções e valores relativos à vida, às doenças e à saúde. As práticas epistemológicas de Pasteur já tinham sido disseminadas por todo o mundo como conhecimento e inovação social. Isso causou grande impacto na sociedade; foi uma revolução científica e cultural, disse, lembrando que elas traziam uma multiplicidade de práticas que acabaram incorporadas ao cotidiano e ao senso comum, como a eliminação dos dejetos humanos, a pasteurização do leite, a higiene individual, a vacinação de crianças e muitas outras.

A Saúde Pública no Brasil

Paulo_Sabroza_53anos_02.jpgDe acordo com Paulo Sabroza, a aplicação das novas técnicas e conhecimentos melhorou as condições de saúde no Brasil, como afirmou o próprio Oswaldo Cruz, durante a Convenção Sanitária Internacional na Cidade do México, realizada em 1907: As condições sanitárias do Brasil vêm melhorando ano a ano, acompanhando de perto as vantagens colhidas na luta contra moléstias infecciosas e melhoramentos materiais empreendidos no Rio de Janeiro, onde se concentravam os principais focos de disseminação das infecções por todo Brasil. Os estados têm conseguido manter as boas condições sanitárias do país e de seus portos.

Segundo o pesquisador, a união do discurso da microbiologia de Oswaldo Cruz, com o discurso da medicina social de Belizário Pena, outro importante sanitarista brasileiro que pensava o saneamento como melhoria para a qualidade de vida da população, resultou na formulação de projetos de reforma sanitária no país. Em meados do século XX, a forma de se estudar as doenças também muda, passando de linear à complexa. Além disso, o capitalismo utiliza o desenvolvimento tecnológico e da saúde como elemento fundamental para assegurar a redução da pobreza e o controle de doenças, permitindo, simultaneamente, a manutenção dos trabalhadores em seus postos e o fortalecimento do consumo, contou Sabroza.

Ainda no século XX, a criação das organizações internacionais de saúde pública e a conseqüente disseminação de informações tecnológicas aplicadas à saúde para os países periféricos geraram enorme crescimento em regiões que já viviam no capitalismo industrial, como a África, a América Latina, a Ásia e a Oceania. O aumento, muito maior do que o ocorrido na Europa, representou a globalização da saúde pública, e o Brasil integrou-se ao território de forma fantástica, por meio de campanhas de controle de doenças, capacitação de recursos humanos e outros, afirmou o palestrante, lembrando que a população brasileira foi a que mais envelheceu nos últimos 50 anos e lamentando o aumento da prevalência de doenças no país: Nós vivemos um paradoxo, pois o aumento do acesso aos serviços foi capaz de diminuir o impacto das doenças, mas não a sua prevalência. O processo saúde-doença, agora, é produto do desenvolvimento e não da falta dele.Hoje, nossas doenças estão mais voltadas para o consumo do que para a carência, e as mortes se dão por problemas cardiovasculares e respiratórios, diabetes e outras doenças dessa natureza.

Para Sabroza, nem o desenvolvimento e nem o acesso à saúde resolverão os problemas da população. A saúde não pode mais ser pensada apenas a partir do conceito de desigualdade, pois mesmo as pessoas com recursos estão sujeitas a enfrentar, por exemplo, o risco de novas pandemias e as conseqüências do esgotamento de recursos naturais. Nessa perspectiva a história não está acabando, ela está apenas começando para vocês que acabaram de chegar. Não existem caminhos prontos; a partir de agora, vocês têm que começar a construir os seus próprios caminhos. Eu fiz a minha parte. Daqui eu paro, e vocês continuam, completou.