O contrário da violência é a inclusão

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abrasco_2007.jpgA violência urbana é comum nos países da América Latina, e a realidade de uma grande metrópole como São Paulo não é muito diferente da que existe na Colômbia, por exemplo. Retratar esse problema urbano e promover a defesa do direito à vida e à paz foi o objetivo de um dos quatro grandes debates realizados no IV Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco. Com a presença de Sérgio Adorno e Saul Franco, a atividade foi coordenada por Maria Cecília Minayo, pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Carelli (Claves/ENSP/Fiocruz), que ao abrir os trabalhos, destacou: Esse é um importante debate, no qual está implícita a questão da violência, mas que está voltado para o lado positivo, compreendendo a paz e o direito à vida. Confira, na Biblioteca Multimídia da ENSP, o áudio completo do debate.

franco_abr2007_peq.jpgO primeiro debatedor a falar foi o doutor em sociologia, professor da USP e presidente da Associação Nacional de Direitos Humanos, Ensino e Pesquisa (Andhep/Brasil), Sérgio Adorno. Farei aqui uma reflexão sobre distintas questões a respeito da violência e como podemos contorná-la. Temos de levar em conta, nesse debate, o esforço que o SUS tem feito pelo aprimoramento da qualidade dos dados sobre a violência em nosso país, para que sejamos capazes de traçar um panorama concreto de qual é a nossa realidade, afirmou. O pesquisador explicou que esses dados são fundamentais para a construção de políticas públicas mais eficazes para proteção do direito à vida.

Refletindo sobre a crise ocorrida em São Paulo, em maio de 2006, quando o maior centro urbano do país ficou temporariamente paralisado por conta de ações de guerrilha, que envolveram as polícias civil e militar e o crime organizado, Sérgio Adorno falou sobre dois grandes temas que vêm norteando os debates por todo o país: a necessidade de leis mais rigorosas, uma polícia mais efetiva no combate à violência e a promoção de políticas de justiça social voltadas para populações menos favorecidas e que vivem em regiões mais carentes e, conseqüentemente, com mais registros de violência.

De fato, essas questões não são suficientes ou eficazes para resolver o problema da violência no país. Vivemos uma sociedade altamente desigual, cuja população mais carente vive em regiões sem acesso a serviços básicos e com altos índices de violência. Uma política consistente, seja de justiça social, seja de lei de ordem, não pode ocorrer sem uma discussão sobre direito à liberdade, sobre a libertação das pessoas que vivem, de certa forma, numa escravidão urbana e, sobretudo, se não forem pensadas formas de reconfiguração a médio e longo prazo das relações sociais, permitindo que uma parcela substantiva dos cidadãos possa participar do contrato social, concluiu.

adorno_abr2007_peq.jpgO médico epidemiologista e doutor em Saúde Pública, Saul Franco, por sua vez, traçou um quadro da realidade da Colômbia, utilizando dados de um relatório de 2006 da ONU. De acordo com Franco, a Colômbia conviveu com um homicídio a cada meia hora nos últimos 30 anos e, cada vez mais, essas estatísticas vêm atingindo os jovens. Essas mortes ocorrem com pessoas indefesas, muitas vezes vítimas de seqüestro por parte das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), destacou.
Segundo ele, a situação colombiana pode ser diferente, uma vez que países como Guatemala, El Salvador, Irlanda do Norte e África do Sul vêm conseguindo estabelecer acordos e mostrando ao mundo que ainda é viável lutar por uma sociedade que possa viver em paz. A paz não significa que alguém tem o direito de decidir sobre a vida ou a morte de outra pessoa. A paz é um direito de todos e, sem ele, não há como uma sociedade garantir outros direitos sociais para seu povo, afirmou.

minayo_abr2007_peq.jpgApós as exposições, a pesquisadora Maria Cecília Minayo lembrou que estamos no século XXI e que a globalização é uma realidade que traz questões boas ou difíceis e problemáticas, tais como guerras e violência. Nesse mundo, que está hoje todo diferente, a globalização traz problemas para todos, pois tudo está relacionado, desde o nível abstrato de organização da sociedade até a questão da nossa subjetividade. Quando falamos de violência, segurança e paz, nós também estamos envolvidos e somos cúmplices na permanência ou solução dos problemas, ressaltou.

A coordenadora da mesa fez questão de encerrar o grande debate destacando que falar de paz, quando se trabalha com violência, seria dizer que o contrário da violência é o respeito às diferenças e o desejo de integração, o exercício do diálogo, o exercício da solução dos conflitos e o reconhecimento da igualdade fundamental. Quando falamos da necessidade de conhecermos mais essa nova sociedade, na sua subjetividade e na sua cultura de hoje, na verdade, chamamos cada vez mais a atenção para a democratização. O contrário da violência não é simplesmente a não violência. O contrário da violência é a inclusão das pessoas nessa sociedade moderna.

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