Entrevista: Projeto apoia mães solo durante a pandemia da Covid-19

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No jargão da saúde pública, “achatar a curva” significa desacelerar a disseminação do vírus, uma estratégia para tentar conter a explosão de casos e evitar a sobrecarga nos serviços de saúde. As ativistas Thais Ferreira e Thaiz Leão tomaram emprestado o termo e, por meio do Coletivo Massa e do Instituto Casa Mãe, idealizaram um projeto batizado de “Segura a curva das mães”. Cumprindo o isolamento social — e, portanto, fisicamente longe das ruas, seu território de atuação por excelência —, elas vêm ajudando mulheres mães que cuidam sozinhas dos filhos a passar pela pandemia. A iniciativa funciona como uma rede de cuidado e, além de uma verba emergencial de 150 reais para cada mãe acolhida, oferece ainda apoio psicológico e suporte jurídico e escolar.


De dentro de casa, mas em rede, elas conseguiram o impensável: numa primeira etapa, sem grandes apoiadores e sustentando um financiamento coletivo, arrecadaram 87 mil reais, que acabaram por beneficiar 732 mulheres de 20 estados — a maioria delas, 60,5%, negras. São mulheres mães solo, cuja renda média, em sua grande maioria, vai de zero a 100 reais por pessoa na família. Mais da metade dessas mulheres (432 mães) mora em residências de apenas dois cômodos — outras 236 vivem em lares com apenas um. Cerca de 30% do total têm três filhos ou mais. Não é incomum encontrar no cadastro mulheres responsáveis por seis, oito ou até 10 crianças.


O “Segura a curva das mães” acaba de entrar em uma segunda etapa. Dessa vez, abriu mil vagas, que foram preenchidas em apenas 12 horas. Para saber mais sobre o projeto, Radis conversou com Thais Ferreira. Entre uma resposta e outra, a mãe do Athos e do João, que já sofreu a perda de um outro filho, precisou acompanhar o caso de uma mãe atendida pelo projeto. “O marido pegou o filho dela sem autorização e, quando ela foi buscar a criança de volta, foi agredida”, contou depois, ao final da noite. Tudo havia sido encaminhado e no que dependesse dela e da rede de mulheres acionadas para acompanhar o caso, aquela mãe ficaria bem. Agora, sim, Thais poderia continuar a entrevista.


Que histórias lhe chegam por trás dos cadastros? Que vidas é possível conhecer? Pode nos contar alguns relatos que mais lhe afetaram?


As histórias chegam todos os dias. E eu acho que consigo me conectar com essas mulheres porque as histórias delas são as histórias das minhas tias, das minhas primas, da minha mãe, enfim, são as histórias das mulheres que atravessaram a minha vida, são as histórias das minhas amigas. Eu já trabalho com acolhimento materno há 10 anos e acabo exercitando bem esse lugar, não falo nem da empatia, mas de um acolhimento integral mesmo. Tem a mãe cujo filho foi internado por outro motivo, contraiu covid e morreu, no Rio de Janeiro. Tem a mãe com oito filhos, grávida do nono, porque não consegue fazer um planejamento familiar com laqueadura, no interior do Ceará. Tem a mulher grávida presa na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, sem condições de sair porque sofre violência doméstica. Hoje mesmo chegou um caso de uma mãe em São Paulo, com quatro filhos, que já tinha tentado, por três vezes, numa delegacia, denunciar a violência de que era vítima. Acabou que o marido pegou o filho sem autorização e, quando ela foi buscar a criança de volta, foi agredida e ouviu da polícia que a melhor coisa era ela sair de casa, não ficar mais lá — mas para onde ela vai com essas crianças todas?


Como você se sente ao final do dia?


A gente tenta encaminhar da melhor forma. Às vezes, o desfecho é ok; às vezes, não. São histórias de mulheres muito vulneráveis, mas também temos histórias de mulheres que tinham a sua independência e, por conta da covid, perderam a mobilidade e também a autoestima. Tem uma delas, de uma mulher que tem 10 filhos, ex-presidiária no Rio de Janeiro, que não consegue acessar os programas de benefício social por conta desse histórico e também não consegue emprego. Então, ela vai vender quentinha, vender bolo de pote e, quando está começando a recuperar a sua dignidade, vem a pandemia e a coloca nesse lugar de novo de extrema vulnerabilidade. São muitas as histórias. Não tenho nem como falar qual delas me afeta mais. Mas acho que teve um caso que me impactou bastante. Foi justamente o dessa mãe com 10 filhos que, um pouco antes do Dia das Mães, chegou para mim e falou que a gente tinha ajudado a devolver a sua autoestima e que ela queria uma indicação de protético, porque esse seria mais um Dia das Mães que ela ia passar sem nenhum dente na boca. Acho que, na prisão, por conta de alguma situação de violência, ela acabou perdendo os dentes. E ela queria um protético para poder rir para os filhos. [Radis conversou com esta mãe e traz o seu depoimento na edição de junho da revista]. Todos os dias eu sou afetada por essas histórias de uma maneira bem profunda, então, procuro entender o meu papel nesse lugar e, enfim, enxergar potência, mostrar para essas mulheres que elas não estão sozinhas e que a gente está aqui para ajudar a manter de pé as mães, que são geradas e geridas por essas famílias.


Só para ficar mais claro: como funciona exatamente o “Segura a curva das mães”?


A gente viabiliza uma rede de cuidado integral e emergencial. Primeiro, a gente fornece um apoio, uma verba emergencial mesmo, que é passada na hora em que a mulher é acolhida pelo projeto. No primeiro contato, a gente já pega os dados bancários para fazer o repasse no valor de 150 reais, que arrecadamos via vaquinha, para aquela mulher cadastrada. Pode parecer muito pouco, mas faz muita diferença na vida de mulheres que não estão tendo acesso ao auxílio emergencial do governo, que estão com suas atividades — mesmo que informais — impedidas por conta da covid. Mas a gente também oferece o apoio psicológico, por meio de psicólogas voluntárias que se disponibilizam a fazer esse trabalho social, e suporte jurídico, através de coletivos da sociedade civil que já se mobilizam para esse fim. A gente se organiza em rede. Há ainda o apoio educacional, escolar ou não-escolar, como chamamos. Ajudamos a pensar esse estar de mães e crianças em isolamentos social, em ambientes que não são saudáveis, mas extremamente vulneráveis, como por exemplo a convivência em casas com poucos cômodos. Para ter direito a esse nosso benefício, basta de fato ser mãe e ter situação de vulnerabilidade comprovada no questionário que a gente montou no formulário de cadastro.


Você escreveu em seu perfil nas redes sociais que a maior parte das mães beneficiadas pelo projeto é formada por mulheres pretas, como você. O que isso diz sobre o país em que vivemos?


Acho que fala sobre a realidade. Só não enxerga quem pode escolher não olhar para esse problema. Tem um discurso do Malcom X [um dos grandes defensores dos direitos dos negros nos Estados Unidos, na década de 1960], que reverbera até hoje. Ele fala que a mulher preta era a pessoa menos respeitada e a mais violentada nos Estados Unidos à época. Isso se repete no Brasil, um país forjado na exploração desses corpos negros. A gente chegou aqui por um sequestro, então, até o nosso corpo ser re-humanizado, até a gente ter uma restituição da nossa humanidade, demora muito. Para muitos, as mulheres negras têm um defeito de fabricação, porque nasceram assim. Para muitos, elas também fabricam os defeituosos. Para muitos, o mal do mundo vem dos nossos ventres. Então, estar nesses piores índices de desigualdade diz muito sobre a sociedade em que a gente vive e como ela se constrói, como ela se estrutura, usando o racismo como a sua principal política, infelizmente.


A pandemia parece ter realçado ainda mais as desigualdades e divisões de gênero. Durante o isolamento social, que fatores podem contribuir para a situação de vulnerabilidade dessas mulheres?


Acredito que, como a mulher mãe tem essa sobrecarga no cuidado diário, não só com ela, mas com outras pessoas, a saúde mental e emocional dessa mulher é um lugar para onde olhar. Tivemos o caso de uma mãe de quatro filhos, em São Gonçalo, que sustenta sua família vendendo doce no sinal, e que, por meio do nosso projeto, teve seu primeiro atendimento psicológico. Ao final, ela falou: “Meninas, eu não sei o que foi que aconteceu comigo, mas durante o atendimento eu só consegui chorar”. Acho que isso abala muito as mulheres que estão mães e que são mães e estão sozinhas. Por conta do isolamento, ela perde a rede de apoio — e a rede de apoio são os parentes, outras pessoas, a própria escola dos filhos. Muitas mães, que não tinham condições de dar boa alimentação para seus filhos, contavam com a escola como o momento da principal refeição; ou contavam com a escola como uma ferramenta de ensino e pedagogização daquela criança para tudo que elas não conseguem oferecer; ou contavam com a rua também como um lugar não só de espairecer, mas de vivenciar, de ter contato, de socializar, para além dos limites de casa, pensando nessas casas que não são saudáveis, que estão inseridas em comunidades, em lugares muito vulneráveis, que não têm janelas, não permitem o observar, não permitem o contato com a natureza.

 

Esse é o verdadeiro confinamento.


Esse estreitamento dos limites da maternidade para um lugar confinado, que não é saudável, é extremamente perigoso e isso só causa cada vez mais vulnerabilidades para essa mulher. Mas são muitos os fatores que, combinados com outras situações de desigualdade, fazem com que esse estado de vulnerabilidades seja extremo. Todo tipo de negligência, violência e ausência que uma mulher mãe já sofre no dia a dia, na sociedade que a gente vive, é agravado nesse contexto. A gente fala da maternidade solo, para além da mulher que não tem um companheiro, porque tem muitas mulheres que têm companheiros abusivos, violentos, não colaboram nas tarefas de casa, e elas continuam ali, maternando, sozinhas.


Em um país campeão em feminicídio e violência doméstica, o aumento dos índices de violência contra a mulher durante a pandemia também foi uma preocupação que vocês levaram em conta ao pensar o projeto?


A gente sabe que a casa, muitas vezes, não é o lugar mais seguro para essa mulher ficar. Por isso, a gente também vem buscando mapear o tipo de ambiente que essa mulher vive, se o relacionamento que ela tem (quando ela tem) é saudável, se ela tem algum caso de violência. Por isso, a gente achou tão importante estruturar também o apoio psicológico para essas mulheres. Para que, mesmo se a gente não conseguisse mapear alguma violência durante o acolhimento, pelo menos essa mulher pudesse estar protegida e ter garantido o atendimento profissional. Por isso, a gente busca apoio nas instâncias oficiais dos estados e municípios. Para que essas mulheres saibam acessar os equipamentos de referência no que tange aos direitos da mulher. A dificuldade de fazer a denúncia é uma realidade. A subnotificação vem muitas vezes acompanhada desse lugar do medo. Romper com o ciclo do abuso e da violência é muito difícil. Então, a gente investe bastante nessa conexão e nesse vínculo. Para que, se a gente conseguir perceber algum sinal, a gente possa agir a tempo.
O decreto de auxílio emergencial do governo federal prevê que mães solo possam receber o valor de 600 reais dobrado [no caso, 1.200 reais]. Mas há relatos de mulheres que tiveram seus pedidos negados por conta dos ex-maridos que teriam tentado fraudar o preenchimento dos cadastros.

 

Vocês têm acompanhado esses casos? Enfrentaram algo parecido no projeto “Segura a curva das mães”?


Sim, tem esses relatos. A gente vem fazendo um compilado e reforçando uma iniciativa chamada “Parto do Princípio”, do grupo Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa, que está com uma ação-denúncia coletiva sobre todos esses casos de dificuldade de acesso ao auxílio emergencial por parte das mães. Tem desde a mãe que achou que tinha conseguido o auxílio, mas até hoje não conseguiu sacar, até a mãe cujo companheiro se cadastrou com o CPF da criança, impedindo que ela conseguisse fazer o cadastro. Nesse caso, ela precisou se cadastrar como se não tivesse filho para, pelo menos, garantir os 600 reais, mas ainda assim sua inscrição continua em análise. Das 732 mulheres beneficiadas no nosso projeto “Segura a curva das Mães”, só 100 conseguiram sacar o auxílio do governo federal. É um absurdo. Então, a gente vem buscando fortalecer o trabalho de quem está na linha de frente, fazendo mobilização, para que essas iniciativas ganhem mais força e essas vozes sejam ouvidas e esse direito, garantido.

 



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