'Radis' de abril acompanha atendimento da Unidade Básica de Saúde Fluvial Vila de Ega, Amazonas

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A reportagem de capa da revista Radis, de abril de 2020, de autoria do editor Adriano de Lavor, acompanha parte da viagem da Unidade Básica de Saúde Fluvial Vila de Ega, em Tefé, no Amazonas. “Em pouco mais de um ano e meio de trabalho, os resultados já são aparentes: além da melhoria de alguns indicadores, é positivo o retorno da população: “O maior retorno é a população que dá”, relata Maria Adriana Moreira, secretária de Saúde de Tefé.

“É começo da tarde de segunda-feira, 20 de janeiro, quando a agricultora Andrea Barbosa Ribeiro, o marido e os quatro filhos chegam ao centro da comunidade Turé, às margens do rio Tefé, no Amazonas. Vieram em um pequeno barco a remo, em busca de atendimento na Unidade Básica de Saúde Fluvial ‘Vila de Ega’, de Tefé, que desde 2018 percorre os rios da região ofertando serviços de atenção básica à saúde. Distante 523 quilômetros da capital Manaus, o município fica às margens do lago Tefé — como é chamada a região onde o rio de mesmo nome se alarga, antes de desaguar no Solimões — e tem cerca de 60 mil habitantes, de acordo com estimativas do IBGE, de 2019”, relata o editor.

Conforme a Radis, usar uma unidade fluvial no atendimento das comunidades ribeirinhas foi uma maneira que a gestão municipal encontrou de facilitar o acesso à saúde aos moradores das regiões distantes da zona urbana e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de trabalho para as equipes, que antes enfrentavam, além de longas distâncias, dificuldades de infraestrutura e na oferta de serviços.

Os resultados já são aparentes. “O maior retorno é a população que dá. Eu fui a uma comunidade, e um comunitário me disse que estava sendo tratado como gente”, relata Maria Adriana Moreira, secretária de Saúde de Tefé. Na entrevista que concedeu à Radis, a secretária avalia que a iniciativa também traz retorno econômico ao município, já que diminui a procura por serviços de saúde na zona urbana. (leia entrevista clicando aqui).

Parte do sucesso do projeto é visível quando se vê a UBSF que está atracada em Turé: uma balsa motorizada de três andares que abriga, no convés principal, três consultórios (um médico, um odontológico e um de enfermagem), uma sala de imunização e outra para procedimentos, um laboratório de exames clínicos e uma farmácia, além de banheiros e um ambiente para recepção dos usuários. No andar de cima, junto à sala de comando da embarcação, seis camarotes abrigam os 15 profissionais de saúde e 6 tripulantes que, há cerca de 20 dias, navegam pelos rios Tefé e Curumitá.

Ao chegarem no fim da viagem, a comunidade mais distante, Vila do Moura, de onde partiram para esta viagem, fica a 36 horas de barco dali. “De lá até aqui, foram visitadas 19 comunidades e atendidas cerca de 1.400 pessoas. Turé é a última escala de viagem, antes da balsa retornar à sede do município. À sombra da imponente samaúma que se destaca na paisagem de Turé, a agente comunitária Sandriely Oliveira Moraes está à espera dos profissionais da UBSF”, confere a reportagem. Como acontece em todas as localidades, parte da equipe vai à terra firme para o primeiro contato, onde conferem a seleção de pacientes feita pelo ACS, conversam com as lideranças, visitam algumas casas, organizam os atendimentos, conferem as carteiras de vacinação e dão orientações gerais sobre questões de saúde.

A matéria observa que as atividades são registradas em relatório, inclusive demandas apresentadas por moradores. Entre as ações realizadas na viagem de janeiro, que foi integrada com a coordenação de endemias, constam no relato da equipe visitas domiciliares com a equipe multidisciplinar, orientações sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e verminoses, distribuição de escovas de dentes e atualização vacinal, entre outras ações.

Além disso, também estão apontados, no documento, encaminhamentos para consultas eletivas — na cidade — e o acompanhamento de todos os programas da atenção básica. “Todas essas informações permitem que o gestor municipal tenha um retrato atualizado sobre o que acontece em cada uma das localidades, incluindo o número de casos positivos de exames para determinadas ISTs, como HIV e sífilis, de doentes de malária e tuberculose, a quantidade de hipertensos e diabéticos, bem como de mulheres cadastradas no acompanhamento de pré-natal; são produzidos ainda dados sobre a saúde bucal, o programa de imunização e os exames laboratoriais feitos na embarcação”, informa à Radis.

Em Turé, onde vivem 34 famílias e cerca de 100 pessoas, o ponto de encontro entre a equipe da UBSF e a comunidade é uma mesa, colocada bem à frente da grande árvore que se destaca na paisagem. Os moradores já inscritos por Sandriely para o atendimento aguardam as orientações da equipe e, depois, são levados à unidade em grupos — idosos, gestantes, crianças e pacientes mais graves têm prioridade.

Andrea e seus meninos estão no grupo prioritário: “Melhorou muito depois da vinda da balsa. Antes, eu tinha que vir do igarapé, onde moro, até aqui, para daqui ir a Tefé tentar uma consulta”, conta à Radis, enquanto afaga os cabelos de Maria de Fátima, a filha de 2 anos que está no colo e presta atenção na conversa.

Já na UBSF, a família se junta a outros usuários na recepção. Quase todos vão se consultar. Ela quer que o médico examine a pele da Maria de Fátima, que vem se queixando de coceira; também espera a opinião dele sobre exames feitos no pequeno Artur, de 4 anos, que, recentemente, esteve com “a barriga empedrada”; Maria Luiza, de 9 anos, precisa ir ao dentista; Camila, com 13, veio para ajudar a cuidar dos irmãos enquanto a mãe passa pelo exame ginecológico preventivo.

Na recepção, as técnicas de enfermagem Jaciara Damasceno Barão e Isabely Lopes da Silva se dividem nas atividades de acolhimento e triagem dos pacientes. “Precisamos organizar o fluxo, conferir os dados e explicar a eles como funciona a seleção das prioridades”, explica Jaciara. “A espera é um desafio para eles”, complementa Isabely, enquanto anota pesagem, altura e pressão de quem aguarda consulta.

Do outro lado da porta, a movimentação nos consultórios é tranquila. Turé é uma comunidade pequena e fica relativamente próxima da sede do município — cerca de duas horas de viagem em um barco pequeno —, o que se reflete no menor número de atendimentos. Mesmo assim, são muitas as lembranças negativas dos moradores sobre as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, antes da vinda da UBSF.

Além da falta de comunicação (telefones celulares não têm cobertura e não há sinal de internet na região), que os obrigava a se deslocar para a sede do município diante de qualquer necessidade de saúde, os atendimentos feitos pelas equipes que os visitavam tinham outras limitações, como lembra a ACS Sandriely: “A unidade fluvial aumentou o número de serviços e trouxe privacidade para as pessoas”, destaca. Ela informa que muitos usuários — principalmente mulheres — reclamavam de consultas e exames realizados em centros comunitários, escolas ou até ao ar livre. Em muitos lugares, usuários ficavam expostos ao olhar de curiosos durante os procedimentos, dada a falta de um local adequado para o trabalho.

Parada em Piraruiaia

A tranquilidade que se observa na UBSF, no entanto, também é reflexo da boa organização da equipe, que se prepara para atender às demandas da comunidade. Nem sempre é possível resolver todos os problemas, mas é fundamental se organizar e estar aberto ao diálogo, explica o enfermeiro Rodrigo Cunha Lopes, um dos responsáveis pela Equipe de Saúde da Família Fluvial (ESFF) da zona 21, que está a bordo. Na conversa que promoveu no dia anterior, quando ainda estavam na comunidade de Piraruaia, ele ouvia e respondia pacientemente questionamentos de moradores, enquanto os colegas aplicavam vacinas e conferiam cadernetas.
Piraruaia, uma das maiores comunidades da zona 21, abriga 215 moradores, divididos em 43 famílias. Para aquela visita da UBSF, a agente comunitária Julcicleia dos Santos Nogueira havia inscrito 40 pessoas para atendimento médico e 21 para o consultório odontológico. Ao chegarem ao local, a enfermeira Andreza D´Ávila Ferreira Merinho (também responsável pela equipe) e a assistente social Pollyana Torres de Lima circularam pelas casas convocando as pessoas para o centro comunitário, onde aguardavam Rodrigo e o médico da equipe, Jonathan Souza Lima.

“O papel do assistente social é contribuir com a equipe na relação entre a comunidade e a unidade, seja no agendamento de consultas, seja na remoção de pacientes para a cidade, seja na explicação sobre o que é e como funciona o SUS”, esclarece Pollyana, destacando a importância da parceria entre os profissionais da ESFF com os agentes comunitários de saúde: “São importantíssimos para o nosso trabalho; sem eles não saberíamos onde estão os problemas”, resume. Rodrigo confirma o que diz Pollyana: para ele, os ACS são “os olhos da equipe dentro da comunidade”.

Há dois anos escolhida pela comunidade para atuar na função de Agente Comunitária de Saúde, Julcicleia conta à Radis que divide seu tempo entre as tarefas de dona de casa e as visitas regulares aos domicílios, onde faz busca ativa de malária, realiza o mapeamento de hipertensos e diabéticos e dá orientações aos comunitários, entre outras atividades. Ela conta, ainda, que, há cerca de dois anos, Piraruaia foi assolada pela malária, mas que, graças à formação que recebeu e à agilidade na detecção e no tratamento de novas infecções, o número diminuiu de 30 casos para praticamente zero.

No centro comunitário, enquanto Rodrigo explica a dinâmica de atendimento e Jonathan justifica a falta de alguns medicamentos, idosos se aproximam, mulheres acalmam crianças assustadas com a vacina, homens observam à distância. “Hoje, trataremos as demandas prioritárias: hipertensos, diabéticos, idosos, gestantes, crianças de colo e pessoas que estejam com febre há mais de quatro dias; o restante fica para o dia seguinte”, explica Rodrigo. “A atenção básica trabalha com a equidade, temos que priorizar quem tem mais dificuldades, dar mais a quem está mais distante”, diz à Radis.

Em um pequeno barco, os primeiros usuários são levados à unidade fluvial, entre eles as idosas Nazaré Silva, 77 anos, e Maria José Rodrigues, 72. Maria José reclama de dores nas pernas e relata que precisa de remédios para pressão e para controle da diabetes. Ela conta que nasceu em Caranari e foi morar em Piraruaia quando os filhos ainda eram pequenos; hoje, eles estão casados, e ela mora sozinha. Para dona Maria José, a UBSF é de grande ajuda, principalmente por não ter que se deslocar até a cidade para receber os medicamentos que toma regularmente.

Ao seu lado, já na recepção da unidade, também estão Leone, 6 anos, sua irmã Leandra, 4, e a mãe Daiane Santos da Silva, grávida de seis meses. Todos já foram vacinados e aguardam atendimento com a dentista. Daiane vai aproveitar a oportunidade para começar o pré-natal. “Hoje, eu tenho mais facilidade de levar as crianças a uma consulta; antes, saía daqui às 3 da madrugada e, muitas vezes, nem conseguia”, relata, já no consultório odontológico.

Leone não aparenta medo e logo deita na cadeira, pronto para ser tratado pela dentista Deize Araújo de Castro, que, com jeito, explica que vai usar o motor para “tirar o bichinho do dente”. Ela aproveita a consulta para orientar a família sobre a importância da escovação, alertando que a maioria dos casos que chegam até ela é de pessoas que descuidam da higiene bucal.

À Radis, a dentista conta ter atendido, durante a viagem, uma criança com apenas 3 anos e todos os dentes cariados. Para ela, a responsabilidade é sempre dos pais, razão pela qual ela e os assistentes Deinis da Silva Lacerda e Franklin Meireles Rocha também realizam palestras educativas — uma das atividades realizadas logo que a UBSF chega à comunidade —, distribuem e ensinam a usar escovas de dentes. “A falta de escovação reflete a falta de condições de comprar creme dental e escova de dentes e a falta de orientação sobre a importância dessa ação de higiene na prevenção das cáries”, avalia a profissional.

A equipe da UBSF trabalha em ritmo constante, como em qualquer outra unidade básica de saúde. “As nossas primeiras viagens estão trazendo para nós dados que nos permitirão planejar ações mais específicas e entrar com mais objetividade dentro das comunidades”, avalia Jonathan Souza Lima, médico na UBSF. Em conversa com a reportagem, ele disse acreditar que, em um futuro próximo, será possível se organizar e conhecer melhor as comunidades, descobrir o que necessitam e ser mais objetivo e ter controle dos pacientes que precisam de acompanhamento, e dar seguimento ao tratamento.

O biomédico Ruan Azevedo e o técnico de análises clínicas John Santos explicam seu trabalho: hemograma completo, glicose, parasitológico de fezes, Beta HCG (teste de gravidez) e VDRL (para diagnóstico de sífilis), entre outros exames, são realizados e entregues em pouco tempo, de acordo com o pedido do médico ou da enfermagem. “Nosso trabalho contribui muito com o diagnóstico clínico”, acentua Ruan, destacando a boa estrutura da UBSF e a vantagem de estar próximo do profissional que solicita o exame. “É bom porque podemos tirar dúvidas, e o resultado fica pronto rápido”, destacou.

A técnica de enfermagem Crislene da Silva Cardoso organiza as vacinas disponíveis e explica que, mesmo quem não tem cartão vacinal, é imunizado durante as visitas da UBSF. “É difícil encontrarmos pessoas que estejam com todas as vacinas em dia”, relata, lembrando de uma situação em que teve que segurar uma criança para que tomasse de uma vez todas as que estavam atrasadas. “A gente não pode ter pena das crianças, mas aquele sofrimento me marcou muito”, relembra.
O técnico de enfermagem Liandrisson Lemos Pereira desabafa sobre sua experiência na UBSF: “Nosso trabalho é muito gratificante”, diz ele, acentuando a possibilidade de conviver com profissionais de outras formações e aprender, enquanto trabalha.

Diante do cenário amazônico, a médica de família Janaína de Oliveira agradece a oportunidade de estar ali. “A saúde me deu muito mais o direito de ir e vir neste país do que qualquer status que muita gente pode sonhar”, diz. Longe de casa, a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), que acompanha a viagem como parte do trabalho de campo que desenvolve no curso de mestrado em Epidemiologia e Controle de Doenças Infecciosas e Parasitárias na Universidade de Brasília (UnB), não se contentou em somente observar o trabalho dos colegas e contribuiu no atendimento.

“O que eu achei mais interessante aqui foi perceber que o paciente tem oportunidade de ser atendido em tudo num só momento”, avalia Janaína. Para ela, isso é o que deveria ser feito em qualquer unidade básica tradicional. Ela citou, como exemplo, a rotina de uma gestante que acessa a UBSF: “Se chega hoje na balsa e faz a abertura de pré-natal ou está na segunda ou terceira consulta, ela já faz todos os exames da rotina de pré-natal e sai com os resultados normais ou algum diagnóstico”, explicou.

De volta pra casa

No último dia da viagem, após o fim do atendimento em Turé, a enfermeira Andreza Merinho e Dolly Deane Sá, administradora da embarcação organizam uma reunião em que fecham os últimos dados para o relatório e organizam o barco para a entrada de uma nova equipe, que embarcará dia 24, rumo a outra região do município. “Uma das maiores dificuldades do nosso trabalho é ficar tanto tempo longe da família”, desabafa Rodrigo, já na proa da embarcação, enquanto os colegas estão todos com o celular nas mãos, testando chips e mudando de posição, em busca de algum sinal de internet que os possibilite ter notícias de casa. “Depois de duas semanas sem comunicação alguma com os parentes, a voz do filho, da namorada ou da mãe são motivo de alegria para quem consegue”, finaliza a reportagem.

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