Presidente da Fiocruz fala dos desafios da pandemia de Covid-19

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Em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, comentou o contexto da pandemia de Covid-19 e os desafios de sua chegada ao Brasil. Ela também elenca algumas ações da instituição na resposta à crise sanitária, que vai desde a produção de testes ao atendimento aos infectados. Todos os setores e unidades da Fundação estão mobilizadas para o enfrentamento da epidemia. “A Fiocruz está completando 120 anos em maio e o aniversário vai ser marcado pela resposta à essa pandemia, assim como o início da instituição foi uma resposta sanitária às epidemias no Rio de Janeiro”, destacou Nísia.

Como você vê o contexto da pandemia de Covid-19 no mundo hoje?
 
Nísia Trindade Lima: Eu olho por um lado para o meu papel institucional e, ao mesmo tempo, olho na perspectiva de quem trabalhou muito tempo e continua a trabalhar com uma reflexão sócio-histórica sobre a saúde e a relação de epidemias/endemias e sociedade. É uma situação única no mundo, que já viveu outras pandemias, é claro. Esta pandemia coloca uma complexidade enorme, porque nós estamos em pleno século 21. Vivemos hoje em um mundo extremamente conectado do ponto de vista de população, de pessoas, de mercadorias. Temos também uma capacidade muito grande de informação e de análise e de produção intensa de conhecimento nos vários domínios da ciência, como a biologia molecular, a imunologia e a epidemiologia, o que é muito importante neste momento.
 
Temos um contexto novo de uma disseminação mais intensa de vírus, de reemergência de doenças antigas e emergência de novas. Isto é um fato muito importante para ser pensado. Nós teremos mais casos de viroses nos próximos anos, principalmente viroses respiratórias. Esta é uma tendência apontada por estudos e isto está ligado ao nosso modelo de desenvolvimento, com variáveis ambientais e a relação entre humanos e não-humanos, como é o caso deste vírus que veio de um animal. Quer dizer, há uma complexidade muito grande em que ainda há muitas interrogações.
 
Além disso, temos o nosso cotidiano totalmente alterado, com muitas inseguranças, inquietação e até o medo, como é normal em uma doença nova e desconhecida. Por outro lado, nós temos hoje recursos e tecnologias de informação e comunicação que ajudam a enfrentar uma situação tão grave e talvez nos permitam viver esse isolamento não como distância social, mas como distância física.
 
Precisamos olhar também para as realidades demográficas e a realidades sociais de cada país, de cada território por onde a epidemia vai passando, porque ela não chega ao mesmo tempo para todos e as estratégias de contenção também terão um papel nisso. Então, há uma interferência humana, política e científica, tudo ao mesmo tempo. Eu acho que é uma grande responsabilidade para as autoridades públicas em todos os estados nacionais e para a sociedade também. Este é um grande desafio, um desafio impensável tempos atrás.
 
Quais são as especificidades da pandemia na chegada ao Brasil?
 
Nísia Trindade Lima: Por dever de ofício, já que sou socióloga, vou falar dos impactos sociais. É muito importante pensar a dimensão sócio-espacial, que é essencial em uma epidemia. Cada epidemia tem que ser vista nas suas especificidades. A Covid-19 está se intensificando no Brasil primeiro em dois grandes centros, o que é natural, uma vez que veio pelo tráfego aéreo. Chega de classe executiva, mas se depara com uma realidade em que nós temos uma alta densidade populacional e em condições habitacionais de muitas vulnerabilidades, como é o caso de muitas das nossas periferias e favelas em todos os centros urbanos do Brasil. Além disso, temos uma mobilidade urbana difícil, transportes lotados, uma série de questões que vão interferir no curso da epidemia. É o caso também de grupos específicos que nos preocupam muito, como a situação das prisões no Brasil. A atenção para isso tem que se somar a atenção aos grupos de maior idade. Esses fatores que têm que ser observados e as pesquisas e as políticas públicas terão que olhar para essa realidade tão complexa que se resume numa palavra: desigualdade. Precisamos olhar para esse fator para pensar em estratégias de solidariedade social.
 
Como a Fiocruz tem atuado em diferentes linhas para responder à essa emergência?
 
Nísia Trindade Lima: Desde o início, quando ainda não havia sido definida como pandemia e quando começaram os casos do novo coronavírus na China e a identificação de formas graves de pneumonia, nós temos acompanhado à evolução da doença, especialmente junto à área de vigilância no Ministério da Saúde, mas também do ponto de vista da pesquisa e do desenvolvimento de ações. Nós temos a clareza que a grande prioridade agora é salvar vidas. 
 
Por isso, uma das nossas principais linhas de ação, desde o começo, é a questão do diagnóstico, com a produção e a análise. Uma segunda prioridade, também definida com o Ministério da Saúde, é a assistência especializada em doenças infecciosas para pacientes graves. Uma terceira linha são os ensaios clínicos para definição de terapêutica eletivas. Nós também desenvolvemos pesquisas em várias áreas do conhecimento para auxiliar no avanço do conhecimento sobre o vírus e a doença e no combate à epidemia. Também destaco a atuação na formação de profissionais e nas plataformas de informação, algo que é fundamental hoje e será no curso dessa pandemia, para que, não só à Fiocruz, mas o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira possam ter dados e evidências que se traduzam em política institucionais. Por fim, mas não menos importante, temos nossas ações de comunicação.
 
A Fiocruz está completando 120 anos em maio e esse aniversário vai ser marcado pela resposta à essa pandemia, assim como o início da instituição foi uma resposta sanitária às epidemias no Rio de Janeiro. Por isso, ela está sendo observada por todos os nossos institutos e unidades, em todos os estados em que a Fiocruz está presente. Cada um buscando somar força junto às secretarias estaduais de saúde para que a gente possa responder a esse desafio.
 
Em relação ao diagnóstico, quais são as principais ações?
 
Nísia Trindade Lima: Nós temos uma tradição de produção de diagnósticos, toda a hemorrede brasileira conta com os testes diagnósticos da Fiocruz. Nossa capacidade associa desenvolvimento tecnológico e produção. Nesse momento, nós estamos totalmente dedicados a isso. 
 
Começamos com o trabalho do Laboratório de Vírus Respiratório e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz [IOC], que é referência no país e vem trabalhando intensamente. Este laboratório desenvolveu um trabalho importantíssimo de treinamento de outros laboratórios, atuando em rede. No primeiro momento, nós fizemos esse treinamento para os laboratórios Adolfo Lutz (SP) e Evandro Chagas (PA) e para o Laboratório Central [Lacen] de Goiás, que foi onde chegaram os brasileiros que estavam na China. A partir deste trabalho, fizemos um treinamento, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde [Opas] para os países da América Latina e desenvolvemos, de uma forma constante, o treinamento de todos os Lacens para que os exames possam ser processados em cada unidade da federação. 
 
Além disso, temos a área de produção dos kits diagnósticos, no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos [Bio-Manguinhos]. Temos agora a demanda do Ministério da Saúde de intensificar produção destes testes, aumentar ao máximo esse número. Nós estamos trabalhando intensamente e definimos com o Mistério uma meta de 1 milhão e trezentos de testes para dar atendimento à essa demanda. É um trabalho que tem sido feito de uma forma muito integrada. Bio-manguinhos tem sido incansável em cada vez mais aumentar seu ritmo de produção. Ao mesmo tempo, há um trabalho integrado com Instituto de Biologia Molecular do Paraná, que é um instituto resultado de um acordo da Fiocruz e o governo do estado, através do Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar), para o aumento dessa possibilidade de entrega dos kits diagnósticos. 
 
Por último, temos o papel importantíssimo de análise da qualidade dos testes do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde [INCQS].
 
E em relação à assistência?
 
Nísia Trindade Lima: O INI já é a unidade de referência da Fiocruz na área de pesquisas clínicas e atenção especializada em doenças infecciosas e que atua como referência para o atendimento a pacientes graves de Covid-19, mas ainda tem uma estrutura de atendimento muito pequena para essa emergência. Então, estamos mobilizando toda nossa equipe em um grande esforço para atender aos pacientes graves, aumentando o número de leitos, com o Centro Hospitalar Fiocruz para Pandemia da Covid-19, na nossa sede, em Manguinhos. 
 
Estamos falando de 200 leitos de tratamento intensivo e semi-intensivo que serão montados no campo de futebol em Manguinhos. Nós instituímos um comitê para monitoramento de todas as ações da Fiocruz nesse momento, um grupo dedicado a isso para que tenhamos esses leitos podendo ser ofertados em condições de qualidade, de segurança do paciente, que só é possível pela excelência da nossa equipe do INI e também pela ousadia, que eu acho que a nossa instituição tem que ter. Uma ousadia derivada do seu compromisso com a saúde pública.
 
Além disso, temos também a atuação do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira [IFF], que está acompanhando o que no Brasil acontecerá com as gestantes e recém-nascidos. Eu acho que isso é fundamental, já que ainda há muitas dúvidas sobre a transmissão da doença e possíveis efeitos.
 
Quais outras linhas de pesquisa estão sendo desenvolvidas na Fiocruz? Como tem sido estruturada essa área?
 
Nísia Trindade Lima: Já existem modelos matemáticos sendo feitos, estudos sobre o impacto no sistema de saúde, impactos sociais e impactos econômicos. A minha proposta é estabelecer um Fórum de Pesquisadores para Covid-19 e utilizar a Câmara Técnica de Pesquisa como um elemento de contribuição para isso. Com isso, teremos elementos para estruturarmos uma indução por parte do nosso programa Inova para elucidar essa situação dramática atual e, ao mesmo tempo, contribuir para a preparação da nossa instituição e do país frente a possíveis novas emergências, assim como nós passamos pela emergência sanitária de zika. Eu acho que nesse momento a gente tem um desafio de pesquisa importante, em todos os campos.
 
E quanto às ações de comunicação?
 
Nísia Trindade Lima: Eu acho que a comunicação tem sido uma ênfase do nosso trabalho e tem tido um papel fundamental, vide a presença dos nossos especialistas tirando dúvidas na mídia. Nós temos hoje uma rede coordenada pela comunicação social regular da Presidência, que tem um papel fundamental, além dos veículos próprios da Fiocruz, o Portal, que é o centro para as informações; as redes sociais; a Radis; o Canal Saúde; etc. A comunicação da Fiocruz também é um sistema e esse é um trabalho reconhecido por todos.
 
Eu acho que precisamos pensar em linguagem e públicos, precisamos ter comunicação para o jovem, isso tem que ser feito junto com a população, não é só uma mensagem que você dirige, mas uma construção conjunta de mensagens. Como nós fazemos uma comunicação que chegue a todos, não só as camadas médias da população? É muito importante revermos a todo momento nosso discurso, nossas ênfases, porque a comunicação tende a se dirigir para o público de classe média, até algumas medidas de isolamento dentro das casas em quartos individuais, evitar aglomerações, álcool em gel e outros exemplos assim. Mas nós sabemos que não é essa a realidade. Isso eu acho que é um desafio para nós.
 
Uma iniciativa interessante nesse sentido é o Se liga no corona, uma campanha de comunicação em saúde da Fiocruz, em conjunto com organizações de Maré e Manguinhos, para prevenção ao novo coronavírus junto à população moradora de favelas e periferias. Todos os materiais são montados com base em dúvidas dos moradores coletadas pelas organizações comunitárias parceiras.
 
Em relação à formação, o que vem sendo feito?
 
Nísia Trindade Lima: A Fiocruz atua normalmente dando uma formação em todos os níveis, mas nesse momento tivemos uma atenção muito especial para aqueles profissionais dos laboratórios que processam os testes, como já vem sendo feito, e também aos profissionais de saúde, como nós temos, junto com a Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), a formação de agentes de saúde. 
 
Essas primeiras semanas serão muito duras para todos e todas e para esse conjunto de atividades, porque nós estamos vendo os modelos as estimativas e estaremos nos preparando. No caso da educação, fizemos uma aula inaugural à distância sobre o novo coronavírus. O tema inicialmente não era esse, seria uma aula sobre desenvolvimento sustentável com o professor Jeffrey Sachs, mas seria uma alienação hoje falar sobre qualquer tema diferente dessa pandemia que está movendo e impactando todo mundo, ainda mais numa instituição como a nossa. Estamos preparando também cursos virtuais para profissionais de saúde voltados para o combate à Covid-19. Estes cursos são muito importantes na estratégia de enfrentamento na assistência. Os programas de pós-graduação estão se adaptando e preparando atividades virtuais, algumas bancas têm acontecido já nesse formato. Isso vale para a educação e para todas as atividades nesse formato. 
 
E sobre o impacto no dia a dia dos trabalhadores da instituição?
 
Nísia Trindade Lima: Eu acho que o impacto no dia a dia dos nossos trabalhadores é muito grande. Por isso, nós estabelecemos um Plano de Contingência para protegê-los e também as nossas atividades essenciais, uma vez que a Fiocruz é parte da solução para esse problema que estamos lidando. Além disso, nós também estamos colocando no centro das discussões nesse momento a questão do Adicional por Plantão Hospitalar (APH) para os profissionais da atenção à saúde, algo fundamental para que a gente cuide melhor das pessoas. Nesse momento, o profissional de saúde está sobre forte impacto pela situação da pandemia, pelo trabalho e o impacto psicológico muito forte. Esse profissional tem que lidar com situações muito difíceis, muito dramáticas. Então, nossa atenção muito especial está voltada para todos os trabalhadores da Fiocruz e, nesse momento especificamente, para aqueles que vão trabalhar na atenção.
 
Nós não queremos desmobilizar nossa instituição. Ao contrário, nós queremos dar condições de segurança para os trabalhadores e estudantes, dentro das regras que as autoridades sanitárias têm definido. Proteger ao máximo nossos trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, nos manter fazendo as coisas pela Fiocruz. Porque é isso também que vai nos permitir mais ânimo, não adoecermos, dar um sentido para esse período tão difícil de isolamento em que muitos estão em casa: estarmos ligados e conectados em uma das coisas mais importantes, que é esse nosso orgulho de ser Fiocruz e poder responder a uma emergência sanitária tão grave. Uma crise que não impacta apenas aquele percentual que desenvolve a forma mais grave da doença, mas todo o sistema de saúde, uma vez que temos outros problemas de saúde impactando o nosso Sistema Único de Saúde (SUS), que é um sistema universal, no qual nós acreditamos, nós contribuímos para sua construção e que, eu acho, ainda que com suas fragilidades, é uma das forças do Brasil neste momento.â

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