Dia Mundial de Combate à Tuberculose: desafios para o controle frente à pandemia de Coronavírus

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*Por Paulo Victor Viana
 
No marco do Dia Mundial da Tuberculose, celebrado em 24 de março, a pandemia do coronavírus Covid-19 assusta o mundo, com um grande número de infectados e mortes em escalas globais. Profissionais de saúde e entidades da sociedade civil da tuberculose (TB) têm se preocupado sobre como a pandemia do Covid-19 afetará os serviços de saúde que prestam atendimentos à população adoecida por TB. Antes mesmo da pandemia do Covid-19, a tuberculose, nos últimos anos, traz o triste recorde de ser a doença infecciosa que mais mata no mundo, superando até mesmo o HIV/Aids. Segundo a OMS, a TB matou aproximadamente 4000 pessoas, por dia, e 1,5 milhão de pessoas no ano de 2018. Além disso, em torno de 10 milhões de pessoas desenvolveram TB em 2018 e quase meio milhão de pessoas desenvolveram tuberculose resistente a medicamentos (TBDR).
 

Figura 1: Distribuição dos coeficientes segundo as unidades da federação, 2019.
 
Segundo dados oficiais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação junto ao Ministério da Saúde, no Brasil, em 2019, foram notificados 75.220 casos novos de TB, correspondendo a um coeficiente de incidência de 35,8 casos por 100 mil hab. Os dois estados com maiores coeficientes de incidência de TB foram Amazonas (76,0 casos novos/100 mil hab.) e Rio de Janeiro (66,4 casos novos/100 mil hab.).  No ano de 2018, segundo dados preliminares, foram registrados 4.490 óbitos pela doença, o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 2,15 óbitos para cada 100 mil habitantes. As unidades da federação com maiores taxas de mortalidade foram o Rio de Janeiro (4,27 óbitos/ 100 mil hab.), Amazonas (4,04/ 100 mil hab.) e Pernambuco (4,03/ 100 mil hab.). 
 

Figura 2: Número de casos novos de tuberculose, Brasil, 2010 a 2019.
 

Figura 3: Coeficiente de incidência tuberculose por 100 mil habitantes, Brasil, 2010 a 2019.
 
No município do Rio de Janeiro, chama atenção o aumento do coeficiente de incidência nos últimos 5 anos, de 84,2 casos /100 mil habitantes em 2014 para 96,8 casos/ 100 mil hab. em 2019, correspondendo um aumento de 15% no período. Ao analisar a distribuição por bairros no município, percebe-se claramente que a TB atinge de maneira assustadora bairros e comunidades mais carentes, os maiores coeficientes de incidência para o ano de 2018 foram: Rocinha (257,9 casos/100 mil hab.), Cidade de Deus (209,9 casos/100 mil hab.) e Jacarezinho (207,6 casos/100 mil hab.).


Figura 4: Coeficiente de incidência tuberculose por 100 mil habitantes, município do Rio de Janeiro, 2010 a 2019.
 
Historicamente a TB tem afetado populações socialmente desfavorecidas, em teoria, são indivíduos com vulnerabilidade social, com níveis baixos de renda e escolaridade, insegurança alimentar, condições insalubres de moradia, entre outros. Em nosso país, os dados de TB estão estritamente associados a populações em desvantagem social e nas populações tido como vulneráveis, tais como, população prisional, pessoas vivendo com HIV/AIDS, população em situação de rua e  povos indígenas. Por exemplo, importantes disparidades foram reveladas no coeficiente de incidência entre os grupos de “raça ou cor”. A categoria de “raça ou cor” indígena foi 87,2/100 mil hab., na categoria preta foi 47,6/100 mil hab., e branca 24,2/100 mil hab. para o ano de 2019. 
 

Fonte: Imagem El País
 
Como ficou claro, a TB atinge as camadas mais desfavorecidas da sociedade brasileira. Sendo assim, algumas inquietações e desafios levatandos por entidades como Stop TB e The Union vem à tona diante desse novo problema que emerge na saúde pública: a pandemia da COVID-19. Todos os dias nos noticiarios, assistimos países com relativo poder econômico e social atravessando uma grave crise humanitária para controlar a epidemia da Covid-19. Por outro lado, esses países, principalmentes os europeus, não têm a TB como um problema considerável de saúde pública. A medida que o novo vírus avança galopantemente para países do hemisfério sul, alguns especialistas se preocupam como essa nova doença irá se comportar em cenários com uma grande parcela da população vivendo em situação de pobreza e afetada com outras graves comobirdades como a TB, HIV, desnutrição, diabetes e hipertensão. 
 
Além disso, a Covid-19 provavelmente provocará uma crise econômica sem precedentes. Essa recessão levará ao fechamento de diversas empresas e até mesmo de comércios locais, provocando aumento abrupto do desemprego e, consequentemente, elevando a pobreza na população e tornando-a mais vulnerável ao adoecimento por TB. No Brasil, com os cortes substanciais na saúde e educação, nos próximos meses ou até mesmo anos, indica que teremos menos recursos para o financiamento da TB por conta das consequências da pandemia da Covid-19.
 
Alguns estudos recentes sugerem que os individuos infectados pelo Mycobacterium tuberculosis estão sob maior risco para o coronavírus do que outras comorbidades comumente relatas em outros estudos epidemiológicos como diabetes e hipertensão. Provavelmente, o M. tuberculosis aumenta a suscetibilidade ao vírus SARS-CoV-2 e aumenta a gravidade da Covid-19. Além disso, pacientes com TB costumam apresentar lesões pulmonares que os podem tornarem mais propensos ao coronavírus. Entretanto, mais estudos ainda são necessários para sustentar essa hipotese clínica. 
 
De acordo com o pesquisador Paulo Victor Viana, regiões com alta carga de TB não devem medir esforços proteger os pacientes de TB da exposição a Covid-19. Se pacientes com TB ativa desenvolverem sintomas do novo vírus, estes devem ser testados imediatamente e hospitalizados, se houver indicação médica.
 
Outro ponto que merece reflexão diz respeito à resposta nacional ao combate a epidemia da Covid-19 - ação que, muito provavelmente, resultará num grande deslocamento da força de trabalho e recursos da área de saúde dos serviços rotineiros de assistência da TB. Até mesmo leitos de isolamento destinados a TB podem se tornar leitos da Covid-19. Esse deslocamento emergencial de recursos ou força de trabalho pode, provavelmente, resultar em baixa qualidade no acompanhamento dos casos com TB ou até mesmo interrupções do tratamento, principalmente entre os casos com TBDR. Na medida que o isolamento social é recomendado para evitar a proliferação da Covid-19 na sociedade, os serviços de saúde devem buscar estratégias que mitiguem os efeitos da dificuldade dessa população chegar aos ambulatorios de atendimento de TB, estratégias como consultas remotas por aplicativos de celular podem ser pensadas para contornar este problema.
 
Para Paulo Victor Viana, nos próximos meses, os laboratórios de diagnóstico serão exclusivamente priorizados em larga escala para os testes da Covid-19 – ao invés dos testes de TB. Infelizmente, isso pode resultar em atrasos substanciais no diagnóstico da tuberculose, consequentemente, aumentando a cadeia de transmissão comunitária da TB. 
 
Recomenda-se esforços adicionais dos programas locais de TB devem ser realizados para contratação de pessoal adicional para continuar os serviços de diagnóstico da TB. O colapso provocado pela Covid-19 nos sistemas de saúde pode enfraquecer até mesmo a qualidade dos dados de notificação de TB como um todo. 
 
Nessa perspectiva, diante dos esforços globais para o desenvolvimento de novos testes, drogas e vacinas para a Covid-19, isso de alguma forma possa interferir no desenvolvimento de pesquisas e novos medicamentos para TB, o que poderá comprometer substancialmente a Estratégia End TB (pelo Fim da Tuberculose), que tem como objetivo de eliminar a TB como problema de saúde pública reduzindo em 90% os casos de TB e em 95% as mortes por TB até ano de 2035.
 
Por fim, é importante a presença da sociedade civil na luta contra a TB manifeste-se por meio de diversas iniciativas junto a pesquisadores, profisionais de saúde e orgãos de controle da TB para mitigar os danos durante esta pandemia e que possamos combater conjuntamente estas duas enfermidades, impedindo principalmente o aumento do número de casos e mortes por TB durante os duros meses que estão por vir.
 
Sobre o autor

Paulo Victor Viana é epidemiologista e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio da Fundação Oswaldo Cruz. Atualmente é coordenador substituto do Centro de Referência Professor Helio Fraga.  Recentemente, vem desenvolvendo estudos epidemiológicos voltados para as diferenças étnicos raciais no adoecimento e morte por tuberculose no Brasil. 

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