Cecília Minayo: ‘A desigualdade pode impactar o quadro de violência no país’

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Em entrevista ao Observatório de Análise Política em Saúde, do Centro de Estudos Estratégicos (CEE/Fiocruz), a pesquisadora da ENSP Cecília Minayo aborda os estudos acerca dos efeitos da violência sobre a saúde da população, a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência (PNRMAV) e a incorporação da violência na agenda da Saúde. Na pauta, também estão temas como as políticas de armamento e as relações entre desigualdade e violência. 
 
Você é coordenadora científica do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP), criado com o objetivo de investigar o impacto da violência sobre a saúde da população brasileira e latino-americana. Quais as principais contribuições das pesquisas na área para compreender as repercussões da violência na saúde dos/as brasileiros/as? O que dizem os dados referentes à morbimortalidade por violência no Brasil?
 
Desde a Assembleia Mundial de 1996, a OMS (Organização Mundial da Saúde) incluiu a violência como um problema a ser tratado pelos sistemas de saúde dos seus países-membros. O alerta foi especial para a região das Américas, a mais violenta do planeta. Esse chamamento foi reforçado em 2002, com uma obra monumental chamada “Relatório Mundial sobre Violência e Saúde”, que buscou rever e incluir, em sua bibliografia, inúmeras reflexões que já estavam sendo realizadas pelos profissionais e trabalhadas pelos pesquisadores. No caso do Brasil, a produção científica foi se incrementando a partir dos anos 1990, embora, anteriormente, houvesse estudos epidemiológicos, médicos e psiquiátricos esparsos, os quais o Claves conseguiu reunir no levantamento publicado em 1990.
 
O trabalho do Claves (que é interdisciplinar e articulado com outras áreas, por exemplo, a de Segurança Pública) ressalta: (1) violência não é sinônimo de delinquência, o que costuma parecer ao senso comum. Ela é muito mais abrangente; (2) a violência tem muitas formas de manifestação (homicídios, suicídios, agressões interpessoais), que se traduzem em abusos físicos, psíquicos, sexuais, negligências, dentre outros – e todos eles se potencializam mutuamente; (3) por ser uma questão social, a violência carrega, em suas manifestações, os problemas sociais, desigualdades, especificidade de faixa etária, raça/cor; (4) estudos sobre a situação mundial mostram que, globalmente, estão diminuindo os suicídios, os homicídios e os acidentes (é preciso ver a situação dentro de cada país e localidade). Logo, é possível prevenir a violência, assim como reduzi-la.
 
E quanto aos efeitos da violência no sistema de saúde brasileiro, o que as pesquisas mostram em termos, por exemplo, de organização de práticas e serviços de saúde e gastos com emergência, assistência e reabilitação?
 
Em 2005, fizemos uma primeira avaliação da PNRMAV [Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência]. Essa política havia sido aprovada em 2001. O tema tem muita dificuldade de ser absorvido pelos profissionais de saúde que tendem a tratá-lo como específico da área de Segurança Pública. Mas algumas questões haviam avançado em relação aos serviços móveis de emergência e nas políticas para mulheres e para as crianças. Incrivelmente, nesse estudo, observamos que, na Atenção Primária, a política havia sido muito pouco internalizada. A partir de 2005, com a promulgação da Política de Promoção da Saúde, a violência entrou nessa pauta e foram criados vários instrumentos para que a política fosse institucionalizada. É preciso dizer que, de 2005 a 2016, havia, no Ministério da , um grupo de técnicos altamente empenhados nas práticas de notificação e prevenção da violência. Hoje, estamos esperando para ver. Uma iniciativa importante é que o Claves está sendo convocado para fazer uma nova avaliação da PNRMAV, e continuamos ativas/os e vigilantes nesse tema e na busca de uma sociedade menos desigual, mais consciente e inclusiva.
 
Leia a íntegra da entrevista aqui.
 
Leia também a entrevista de Cecília Minayo ao blog do CEE-Fiocruz: Maria Cecília Minayo: ‘Não há saída com mais armas’
 
 

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