'Relações de poder no meio acadêmico e saúde mental' foi debatido no Seminário de Ensino da ENSP 2019

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Dando sequência ao Seminário de Ensino da ENSP 2019, no dia 31 de outubro, foi debatido o tema 'Relações de poder no meio acadêmico e a relação com a saúde mental na vida acadêmica', pelo doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Robson Nascimento Cruz, que chamou a atenção para o elitismo encarnado na universidade. A mediação da mesa ficou a cargo de Elizabeth Leite Barbosa, representante do Fórum de Estudantes.
 
Para Cruz, o estudo da vida acadêmica no cotidiano é recente. “O acadêmico vive excesso de futuro no presente, o que implica muita ansiedade.” Ele disse que, como psicólogo, é muito procurado por acadêmicos que precisam otimizar o tempo, e a maior parte dessas pessoas são produtivas. Elas presumem que o controle do tempo está no controle delas. “Então, essa surpresa com os casos de depressão e suicídio nas universidades é o reflexo da sociedade, que também está passando pela mesma situação.” Portanto, segundo ele, essa visão revela como a universidade se vê fora da sociedade. 
 
O psicólogo também citou o caso dos que não veem a pós-graduação como trabalho, como se estivessem se formando ainda, e não trabalhando, entendem que não teriam direitos. “O mal estar com o trabalho tem a ver com o significado histórico e nosso maior trauma que é a escravidão, principalmente o trabalho manual. Existe certo apagamento da universidade como atividade laboral.”
 
Cruz observou o romantismo que há em torno da atividade acadêmica, que não cabe na realidade. “Numa das minhas palestras, houve um episódio em que uma professora se indignou com a reclamação dos alunos sobre a dificuldade da escrita.” Ela chegou a dizer: “É só sentar a b**** na cadeira e escrever.” Mas sabemos que “a escrita é uma máquina de poder que revela a distinção social. A gente admira quem escreve.”  Portanto, completa ele, a escrita não é tão natural, gera sofrimento. 
 
Outro componente da roda de conversa, Raí Campos Silva, vice-presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) da regional de São Paulo e doutorando em Química da Universidade de São Paulo (USP), tratou do tema 'Enfrentamento do assédio moral, racismo e adoecimento dos estudantes da pós-graduação'. Ele mostrou ao auditório o vídeo produzido pela ANPG sobre assédio moral na pós-graduação, que está disponível aqui
 
Silva lembrou da dificuldade de os alunos se mobilizarem e considerou gratificante a inclusão desse tema no espaço acadêmico, parabenizando a iniciativa da ENSP. “A necessidade de levantar essa questão veio da minha própria experiência ao lidar com as violências cotidianas e transformei-as em ativismo”, explicou. Ele organizou um questionário para delimitar o perfil dos pós-graduandos da Universidade de Brasília e seu sofrimento mental, gerando a campanha contra o assédio moral, por meio do vídeo e de cartazes espalhados pela universidade.
 
Para falar sobre 'Processos avaliativos e práticas educativas na pós-graduação', o evento teve a participação do doutor em educação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Marcelo Aranda Stortti. De acordo com ele, essas práticas são ‘suleadas’ pelas concepções de homem/mulher, de sociedade, de conhecimento e de aprendizagem de professores e educadores, uma vez que o processo educativo não se desenvolve de forma descolada dos demais elementos.
 
“A partir da história do pensamento pedagógico, são sugeridos rituais avaliativos voltados para professores e alunos. Os formadores desses professores e outros profissionais, geralmente, se utilizam dessas mesmas ferramentas, que fundamentam as raízes da pedagogia tradicional”, disse Stortti. E acrescentou: “Essa pedagogia tradicional, a partir do processo neoliberal da globalização, se constituiu em uma ferramenta de poder.”
 
Ele ressaltou a importância de buscar referencial teórico em pensadores da África, da América Latina e do Caribe, no sentido de romper com esse modelo colonialista. Stortti ilustrou a questão com a teoria de Quijano sobre a colonialidade, que propõe uma concepção da diferenciação colonial e epistêmica, em que a colonialidade se transfere do âmbito do poder para o campo do saber, e age de forma a manter a hegemonia eurocêntrica como perspectiva superior de conhecimento.
 
Encerrando as atividades do Seminário de Ensino 2019, a tarde do dia 31/10 foi dedicada à mesa 'ENSP: Enfrentando desafios e construindo caminhos para a garantia de uma formação pública gratuita e de qualidade', mediada pela vice-diretora de Ensino, Lúcia Dupret. 
 
Iniciando os trabalhos, falou Andréa Sobral de Almeida, coordenadora do Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente, que visa produzir conhecimento a partir da investigação do impacto do ambiente e suas alterações no processo saúde-doença, considerando a dimensão populacional da saúde. Como marco de referência, o programa considera o processo de adoecimento indissociável dos impactos ambientais que afetam os seres vivos. Nesse intuito, tem contribuído para estruturação de programas similares no país, na Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal do Acre. “ No momento, preparamos proposta de turma de mestrado/doutorado 2020/2022 para a Fiocruz Mato Grosso do Sul”, ressaltou Andréa.
 
Elyne Engstron, coordenadora do Programa Profissional em Saúde Pública, disse que esse programa está atingindo sua maturidade, atuando com mecanismos próprios de governança como Comissões de Pós-Graduação e Regimento, aprovados em 2019. Segundo Elyne, foi enviada proposta de doutorado profissional, em agosto, para Avaliação das Propostas de Cursos Novos. Entre os desafios, promover uma formação pública voltada para o fortalecimento do Estado e da sociedade, em seus princípios de justiça social, direitos, bem-estar público, equidade e democracia; ter um planejamento interno para atender demanda; qualidade da formação visando formação crítica; e pensar o financiamento do programa com solidariedade e transparência.
 
Logo após, foi a vez de Enirtes Caetano Prates Melo, coordenadora do Programa de Epidemiologia em Saúde Pública, que completou 11 anos e, atualmente, conta 34 docentes permanentes. “Cerca de 50% deles já podem se aposentar, o que é muito preocupante diante da situação atual de não realização de concursos”, alertou. 
 
O programa, que se organiza em quatro áreas (Epidemiologia das Doenças Transmissíveis; Epidemiologia Geral; Epidemiologia, Etnicidade e Saúde; e Métodos Quantitativos em Epidemiologia), tem inúmeros desafios, e, por meio de oficina de autoavaliação e planejamento estratégico, pretende-se reconfigurar o itinerário de formação no mestrado e doutorado diante desse momento de restrição orçamentária e fazer pactuação coletiva sobre os rumos do programa.
 
Enirtes destacou o papel da divulgação científica para dar maior visibilidade às ações e resultados dos cursos, a exemplo do ‘Nascer no Brasil’, inquérito nacional sobre parto e nascimento coordenado pela pesquisadora Maria do Carmo Leal, que por meio de publicações científicas, vídeos, infográficos, material impresso e digital, debates, redes sociais, promove visibilidade às questões da atenção ao pré-natal, ao parto, nascimento e puerpério no Brasil.
 
A seguir, Marly Cruz, coordenadora do Programa de Saúde Pública, cujas primeiras turmas foram criadas em 1967/1968, e sua estruturação formal data de 1977, é um dos mais antigos do país. Em 2016/2017, houve uma reestruturação das áreas de concentração, conformando-se atualmente da seguinte forma: Complexidade dos processos saúde-doença e do cuidado em saúde; Relação entre Estado e sociedade na construção de políticas públicas de saúde; Organização e funcionamento de sistemas, serviços e práticas de saúde. Dentre as perspectivas futuras do programa, Marly citou processos internos mais amadurecidos em relação ao Programa de Excelência Acadêmica (Proex), ampliação de participação de docentes e discentes no planejamento e gestão, busca de representatividade efetividade em processos decisórios, e ampliação da postura solidária com articulações e redes de colaboração com demais programas, Fiocruz e outras instituições.
 
Sergio Rego, coordenador do Programa de Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva, associado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense, disse que tem como grande desafio constituir núcleos fortes de pesquisa capazes de produzir conhecimento de forma sistemática. O PPGBIOS se apresenta em diálogo permanente com a Saúde Coletiva, a Filosofia e o Direto; com articulações internacionais, colocando o Brasil no debate internacional; com a perspectiva de estimular o desenvolvimento de programas de pós-graduação na área em outras partes do Brasil. 
 
Rego trouxe a reflexão de vários teóricos sobre o tema, e destacou as discussões em torno da era da ciência de dados, a exemplo da Big data, Inteligência Artificial, Learning Machine e Deep Learning, alertando que “é ilusão acreditar que os algoritmos são neutros ou sabemos o que é melhor para os outros, ou que a inteligência artificial pode resolver melhor sem a mediação humana”. Finalizou citando o autor José María Lassale Ruiz: “Precisamos de um acordo global que subordine a tecnologia a um novo humanismo baseado em direitos e propriedades digitais  sobre dados e em uma república digital global capaz de controlar a vontade de poder da técnica.”
 
Por fim, Rafael Arouca, coordenador geral de Pós-Graduação Lato Sensu e Qualificação Profissional, que engloba cursos de especialização e residência (Médica e Multiprofissional), ressaltou a vocação da ENSP para esse fim, que atende ao projeto civilizatório da Reforma Sanitária. “É importante assegurar a inserção pública, gratuita e de qualidade aos agentes dos serviços de saúde nos cursos”, disse Arouca. 
 
Segundo ele, há previsão de realizar uma oficina, em dezembro próximo, para discutir as razões que levaram à redução de demanda e aumento de evasão da especialização e qualificação. “Mesmo tendo noção da violência do entorno e dificuldades de acesso à Manguinhos, além do contexto político-econômico do país e da precarização dos vínculos trabalhistas que levam os alunos a desistirem ou nem tentarem frequentar os cursos, precisamos pensar criticamente sobre o problema”, concluiu.
 
 

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