'Radis' de novembro: Padrões de masculinidade podem adoecer

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Forçados a se portarem como seres infalíveis, que não demonstram fraquezas, os homens são na verdade vulneráveis a altas taxas de homicídio e acidentes, motivados por comportamentos de risco, agressividade e uma cultura da violência. Suicídios ocorrem quase quatro vezes mais entre homens do que entre mulheres, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A questão é abordada pela revista Radis de novembro, já disponível on-line.
 
A reportagem de Luiz Felipe Stevanim afirma que os homens também têm maior probabilidade de morrerem antes dos 70 anos na maior parte dos países do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dietas e estilos de vida pouco saudáveis, consumo excessivo de tabaco e álcool e a baixa procura pelos serviços de saúde, pois “homem de verdade não se cuida”, são alguns dos fatores agravantes dessa vulnerabilidade masculina e que estão, segundo artigo de Carissa Ettiene (25/2/19), diretora da Organização Pan-americana da Saúde (Opas), ligados a normas predominantes de masculinidade.
 
Uma pesquisa realizada com mais de 40 mil brasileiros, em 2019, pelo Instituto Papo de Homem, com apoio da ONU Mulheres, revelou que seis em cada 10 homens não foram ensinados a expressar emoções; sete em cada 10 brasileiros do sexo masculino afirmam que aprenderam, durante a infância e a adolescência, a não demonstrarem fragilidade; e apenas dois em cada 10 homens tiveram exemplos práticos e boas conversas sobre como lidar com suas emoções e expressá-las de maneira saudável. A maioria também não cultiva o hábito de conversar com os amigos sobre medos, dúvidas e frustações, revela o estudo. “Os homens falam muito, mas pouco sobre o que habita dentro deles e o que realmente sentem”, aponta a pesquisa, que também produziu o documentário “O silêncio dos homens” sobre iniciativas voltadas para debater masculinidades (no plural).
 
Vinícius Rodrigues da Silva é um desses homens a que se refere a matéria. Estudante de 19 anos do curso técnico de Controle Ambiental no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) campus Nilópolis, ele sempre estranhou essa visão “tradicional” de ser homem.
 
Porém, afastar-se da “masculinidade esperada” não foi para ele um percurso simples — ao contrário, “ser diferente” por vezes ainda se revela uma experiência dolorosa, conforme relata a reportagem. Gay, negro, morador de Queimados, município da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, ele enfrenta dificuldades para ser respeitado em sua individualidade, completa a Radis. “Performar uma masculinidade fora dos padrões, sobretudo para homens negros, não é algo confortável a se fazer, mas também não é algo impossível. Acredito que devemos tentar e aos poucos lutar contra esse quadro”, afirma o estudante.
 
Segundo a revista, os passos dados por Vinícius questionam uma masculinidade que limita os modos de ser homem, impõe comportamentos e pode adoecer homens e mulheres. “É preciso que o homem seja forte, provedor, ativo e, sobretudo, esteja distante emocionalmente de si e de outras pessoas”, reflete o estudante. 
 
Construir “o que é ser homem”, para Vinícius, disse o repórter da Radis, é um percurso que envolve “inúmeros ritos de violência e demarcação”. “Em uma sociedade patriarcal, há uma masculinidade esperada. Isso fica claro em comerciais de TV, novelas, programas televisivos e igrejas”, pontua. Para ele, as masculinidades aceitáveis são aquelas que remetem à proatividade, agressividade, desamor, falta de compaixão — e à “desumanidade”. Desde a infância até a adolescência, ele afirma que coleciona episódios de repressão no ambiente escolar, por expressar sua orientação sexual e ser um “garoto diferente” do padrão imposto. “Homens que não se encontram dentro dos padrões (cis, héteros, brancos, ocidentais) enfrentam algumas dificuldades em sua trajetória. A escola é um lugar cruel para aqueles que não performam uma masculinidade esperada”, considera.
 
Outro entrevistado pela revista, um dos pioneiros do trabalho de grupos reflexivos de gênero com homens denunciados por agressão, Alan Bronz aponta que a iniciativa ajuda a diminuir os casos de reincidência. “O principal resultado é que os homens participantes adquiriram maior controle sobre sua própria agressividade e conseguem dimensionar o impacto que a violência tem na vida deles”, reforça. Com a proposta de prevenir e interromper o ciclo de violência intrafamiliar e de gênero, o psicólogo conta que a metodologia começou a ser desenvolvida em 1999, a partir de uma pesquisa sobre saúde e masculinidade realizada pela ENSP e pelo Núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para o grupo de psicólogos que então atuavam no Instituto Noos, surgiu o desafio de encarar a questão de gênero como um debate também para homens. “Apesar de sermos psicólogos, a gente nunca tinha parado para responder perguntas como: ‘O que é ser homem?’ Uma pergunta aparentemente básica, mas que homem nenhum se faz”, relembra Bronz.
 
Duas décadas depois, Alan considera que o desafio atual é levar os grupos que discutem gênero e masculinidades para espaços diversos, como escolas, e transformá-los em políticas públicas. “Os grupos reflexivos de gênero devem ser pensados como um recurso não somente para homens em situação de violência de gênero, mas para a população em geral e que possam ser aplicados em diferentes contextos, sobretudo em escolas, e não só com homens, mas com mulheres também”, propõe. Ele avalia que, quando envolvem pessoas encaminhadas pela Justiça, os grupos têm um papel “profilático”, “porque é uma situação de violência que já aconteceu”. “A pessoa chega muito contrariada. Ela vem associando a gente à Justiça, o que não é verdade. O que podemos fazer é tentar evitar reincidência e mudar um padrão de comportamento e interação para que isso não volte a ocorrer no futuro”, reflete.
 
Para ler a reportagem de capa na íntegra e as demais matérias da Radis de novembro, acesse aqui.
 

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