'Suicídio é o fato violento que mais mata no mundo', aponta Cecília Minayo

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Durante as comemorações dos 65 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), realizado de 3 a 6 de setembro, uma dos temas em debate foi o suicídio, fato violento que mais mata no mundo, segundo a pesquisadora do Claves/ENSP, Cecilia Minayo. A mesa intitulada Falar é a melhor solução: Setembro Amarelo, realizada em 5 de setembro, contou com participação de pesquisadores do tema que abordaram diferentes aspectos sobre o suicídio, como suicídio de idosos, comportamento suicida na infância e adolescência, comportamento suicida na formação médica pediátrica, além da crise do suicídio indígena no Brasil. 


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A pesquisadora emérita da Fiocruz e coordenadora científica do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP), Cecília Minayo, trouxe para a discussão o suicídio de idosos. Segundo a pesquisadora, quando uma pessoa idosa comete suicídio ela está antecipando o fim. A depressão, por exemplo, pode ser um sintoma grave para culminar no suicídio, entretanto é preciso olhar o que tem de social em relação a isso. “Falar de suicídio é falar de vida e a velhice é tempo de mudança. Os idosos precisam encontrar o sentido da vida. Desta forma, o suicídio tem que ser pensado como parte da vida e não somente como o ato de morrer. Os idosos antecipam o fim pois estão sofrendo e é preciso tentar compreender esse sofrimento para evitar o suicídio”, destacou ela.

Um estudo realizado em 13 países europeus mostra que as taxas médias de suicídio entre pessoas com mais de 65 anos nessas sociedades chega a 29,3% em cada 100 mil e as de tentativas de suicídio, a 61,4% em cada 100 mil. Neste aspecto, Cecilia advertiu sobre a questão da subnotificação. “Os suicídios são extremamente subnotificados e as tentativas de suicídio mais ainda. São problemas tabus e as famílias não querem falar sobre isso”. A pesquisadora apontou, ainda, a relação entre suicídio e transtornos mentais, que estão fortemente relacionados com suicídios em pessoas idosas. Estudos mostram que 70% a 95% das pessoas idosas que cometeram suicídio possuíam diagnóstico de algum transtorno mental por ocasião de sua morte, entre eles: melancolia e depressão; rigidez na forma de ver a vida; obsessão; e abuso de álcool ou outras drogas.

A relação entre os fatores sociais e o suicídio foram destacadas por Cecília com uma das mais importantes. “A maioria dos estudiosos ressalta a importância do contato humano e do suporte social para que os idosos não coloquem em risco sua vida. A capacidade ou possibilidade de interação social é um dos mais relevantes elementos de prevenção do suicídio nesse grupo social”, reforçou. Por fim, Minayo apontou que a depressão é o mais relevante fator associado ao suicídio, na quase totalidade das pesquisas. Mas é preciso observar se ela é causa ou efeito. O grupo acima de 80 anos é o que mais se envolve com pensamentos e sentimentos e efetivação da morte autoinfligida. Sobre a prevenção, ela destacou alguns fatores, enfatizando que é preciso dar atenção particular aos mais velhos e dependentes.

Cenário e vulnerabilidades do comportamento suicida na infância e adolescência

A pesquisadora do Claves/ENSP, Joviana Quintes Avanci, abordou em sua fala o comportamento suicida na infância e adolescência. Segundo ela, no mundo, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.  No Brasil, o suicídio é a terceira causa de morte entre adolescentes. Sobre o suicídio em crianças, destacou que é raro, mas não excepcional, havendo subregistro e má classificação. Os principais fatores de risco são depressão, privação emocional, falta de afeto e abuso físico e sexual. “Aproximadamente metade dos acidentes envolvendo crianças podem ser tentativas mascaradas de suicídio”, alertou.  Sobre o comportamento suicida na adolescência, Joviana descreveu que no Brasil, o suicídio é a terceira principal causa de morte entre os rapazes e a oitava entre as moças.

Ela citou, ainda, a questão da autolesão. Conceitualmente ela consiste na destruição deliberada direta ou alteração do tecido do corpo sem intenção consciente de suicídio, mas que resulta em ferimentos graves o suficiente para a ocorrência de lesões. “A autolesão costuma ser utilizada para alívio de emoções muito fortes e diminuição da tensão, e possui maior frequência entre as meninas, principalmente devido a solidão, raiva e disforia, observadas como elevadas antes do comportamento de autolesão deliberada”. A vulnerabilidade nas famílias, de acordo com a pesquisadora é um dos fatores que mais contribuem para o comportamento suicida na infância e adolescência.

Entre as principais vulnerabilidades, Joviana destacou a dificuldade das famílias para enfrentar desafios; dificuldade para se comunicar e expressar o que sentem; além do abandono afetivo intergeracional, no qual o papel dos pais de cuidado, de supervisão e de afeto é difícil de ser exercido. Encerrando sua apresentação a pesquisadora abordou as mídias virtuais, comportamento suicida e autolesão. Segundo ela, os adolescentes buscam as redes sociais como forma de compartilhar experiências, expressarem o que sentem, aprenderem formas de se matar ou cultuarem o sofrimento, remetendo também ao prazer pela estética do ato. “Quanto maior a exposição a conteúdos favoráveis à autolesão e ao comportamento suicida, menor é a percepção de bem estar subjetivo”, explicou.
 

Vazios curriculares sobre o comportamento suicida na formação médica pediátrica: o triplo tabu

O pediatra e psiquiatra da Infância e Adolescência do Instituto Nacional de Saúde do Mulher, da Criança e do Adolescente (IFF/Fiocruz), Orli Carvalho da Silva Filho, apresentou os resultados da sua dissertação de mestrado, apresentada em março deste ano no IFF. Segundo Orli, no Brasil 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano, em média, sendo a quarta maior causa de morte entre 15 e 29 anos. Terceira maior causa entre homens de 15 a 19 anos, e oitava maior causa entre mulheres na mesma faixa etária.

O objetivo da pesquisa do pediatra foi compreender e analisar a percepção e o conhecimento de médicos residentes em pediatria sobre o comportamento suicida na infância e adolescência. A pesquisa apontou baixa exposição sobre o tema, desinteresse discente no tema e desconforto provocado pelo mesmo. O pediatra destacou, ainda, que a pesquisa buscou retornar resultados e considerações às entidades pediátricas, no sentido de como contribuir na implantação, consolidação e discussão de uma nova proposta curricular. Por fim, Orli citou o triplo tabu da questão. "Falta compreensão das ações e práticas pediátricas, peculiaridades da pediatria, além de reflexões sobre os Programas de Residência Médica em pediatria.

A crise do suicídio indígena no Brasil

O pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia), Jesem Douglas Yamall Orellana, tratou da Crise do suicídio indígena no Brasil. O que dizem as estatísticas e como anda a sua prevenção? Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, no Brasil, haviam 817.963 indígenas, representando 305 etnias diferentes, falantes de 274 idiomas. No âmbito dos indicadores de saúde, o pesquisador destacou que as condições de saúde, em geral, são precárias e quase sempre com expressivas cifras de desigualdade em relação aos não-indígenas. Nas crianças há elevadas prevalências de desnutrição e, em certos casos, dupla carga de problemas nutricionais, como a coexistência de excesso de peso e anemia. Além do conhecido impacto de doenças infeciosas nos perfis de morbimortalidade. Nos adultos há alta prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, neoplasias, bem como violências e acidentes.

Segundo Orellana o suicídio indígena no mundo não é um problema generalizado, mas é uma das causas que melhor expressa iniquidade em países de alta renda e pouco se sabe sobre a sua carga em países de baixa e média renda. Sobre as desigualdades entre indígenas e não-indígenas, o pesquisador explicou que há indícios de que as maiores discrepâncias na mortalidade sejam observadas no Canadá e, principalmente, no Brasil. Sobre o suicídio indígena no Brasil, Jessem apontou que “em geral, são jovens de 15 a 24 anos, residentes em terras indígenas e crianças de 10 a 14 anos, grupo pouco compreendido. Dados do Boletim Epidemiológico (MS 2017) apontam, ainda, os adolescentes indígenas - entre 10 e 19 anos - como grupo de maior risco. A maior parte deles estão concentrado Norte e Centro-Oeste do país, e utilizam como método principal o enforcamento, envenenamento ou intoxicação e arma de fogo”.

De acordo com Jessem, há registros em todas as Unidades federativas do Brasil, mas sua importância é quase nula em estados como Goiás e Mato Grosso (1 e 15 casos registrados nos últimos 20 anos), bem como no Distrito Federal (1 casos registrados nos últimos 20 anos). “Em contrapartida, no Ministério da Saúde há centenas de registros e o problema parece estar se agravando em certas regiões e etnias do estado de Tocantins”, advertiu. Por fim, o pesquisador ressaltou que o padrão nacional de mortalidade por suicídio entre indígenas é amplamente desfavorável, em comparação aos não-indígenas. “São necessárias ações de prevenção e promoção da saúde urgentes, que devem considerar o contexto geopolítico, de ocupação e posse do território, bem como aspectos socioculturais”, concluiu.

Encerrando a mesa Falar é a melhor solução: Setembro Amarelo, coordenada pela pesquisadora do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP), Vera Frossard, o pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict Fiocruz), Carlos Estellita-Lins, fez a apresentação do filme etnográfico ‘MIRIM, 2014-2015’.

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