'Cadernos de Saúde Pública' de agosto debate complexidade da saúde coletiva

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“Complexo não é complicado. Um problema complexo envolve múltiplos relacionamentos que equilibram e garantem a estabilidade dinâmica do sistema. E são inúmeras as situações-problema do campo da saúde coletiva.” Os desafios da ciência frente a essa complexidade é a questão enfocada pelo já disponível Cadernos de Saúde Pública de agosto.
 
A editora da revista, Marilia Sá Carvalho, assina o editorial, onde diz que aos pesquisadores do campo da saúde coletiva cabe buscar, por meio da ciência, caminhos para enfrentar os grandes desafios colocados para a saúde das populações. “Precisamos aprofundar, por exemplo, o debate voltado para o avanço de uma ciência de ‘consequência’, seja no campo da epidemiologia, das ciências humanas, da política de saúde. Não basta identificar mecanismos causais, compreender os limites da assistência prestada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), reconhecer a importância da fala das pessoas no diagnóstico dos problemas e acesso aos serviços de saúde.”
 
Para ela, é preciso avançar no sentido de apontar caminhos que enfrentem a complexidade dos problemas estudados. Marília cita como exemplo a causa da crescente prevalência de obesidade no mundo, como consequência das forças da indústria de alimentos, do agronegócio, dos desertos alimentares. Como enfrentá-la? “Todos nós gostaríamos que o Guia Alimentar para a População Brasileira tivesse um grande impacto na redução da prevalência da obesidade. E se isso não acontece é exatamente pela estabilidade de um sistema complexo.”
 
Segundo a editora, o problema exige que se considere o conjunto, os diferentes atores e pontos de vista e, para enfrentá-lo, a simplificação é necessária, sempre de forma coerente, sem perder a visão do todo, trazendo à tona, de forma explícita, os pressupostos e modelos mentais, criando uma visão compartilhada. “O único critério que permite reunir pontos de vista tão diferentes e multidisciplinares, da economia à ciência da nutrição, da epidemiologia à gestão do SUS, da política à qualidade do alimento disponível nas comunidades carentes, é a ação, a perspectiva de uma intervenção coordenada sobre o problema identificado.”
 
O editorial também ressalta ser frequente, frente a um problema (e por isto se justifica a denominação de situação-problema), imediatamente vir a ideia de que “bastaria” uma medida relativamente simples. Por exemplo,  “uma vez que os medicamentos adequadamente indicados sejam prescritos, seria possível controlar a hipertensão. Para isso bastaria que os hipertensos seguissem corretamente a receita, o que nem mesmo entre pessoas esclarecidas, com nível superior completo, se verifica. E por que caem as coberturas vacinais, estratégia tão bem-sucedida no controle de inúmeras doenças? Vítimas do próprio sucesso?”
 
Por fim, o editorial opina ser indispensável que, no atual contexto de retrocesso das políticas sociais, no qual se constrói deliberadamente a rejeição à ciência, sejam adotadas formas de abordar os desafios da saúde coletiva que contribuam para a ação multidisciplinar, juntando pesquisadores, gestores e população, integrando cultura, saberes e ciência. 
 
A publicação traz, na seção Perspectivas, o artigo Poluentes do ar como fator de risco para o desempenho cognitivo e demência, que aborda a relação entre a exposição aos poluentes do ar e os desfechos neurodegenerativos ainda não bem estabelecida, mas já considerada uma preocupação mundial. Espera-se que nos próximos anos o Brasil e outros países latino-americanos avancem no entendimento referente à associação entre os poluentes do ar e desfechos cognitivos, visando a minimizar o impacto dessa associação, para propiciar ao indivíduo um envelhecimento mais saudável em ambientes urbanos.
 
Entre os artigos disponíveis, Fatores associados à hipotensão ortostática em adultos: estudo ELSA-Brasil, objetivou investigar os fatores associados à presença de hipotensão ortostática em 14.833 indivíduos de 35-74 anos. Estudo transversal realizado com os dados da linha de base (2008-2010) do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil). As covariáveis analisadas foram sexo, faixa etária, raça/cor, escolaridade, estado nutricional, circunferência da cintura, alteração no índice tornozelo braquial, velocidade de onda de pulso, pressão arterial sistólica e diastólica, hipertensão, diabetes, uso de anti-hipertensivos, colesterol, triglicérides, sorologia para a doença de Chagas, ocorrência de sintomas e variação de frequência cardíaca no teste postural, relato de doença cardíaca, infarto agudo do miocárdio (IAM)/revascularização e acidente vascular cerebral. A presença de hipotensão ortostática pode ser alerta de potencial comprometimento cardiovascular, e, portanto, uma ferramenta de rastreamento e prevenção.
 
 
 

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