Pesquisador alerta sobre jornalismo inconsequente

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Por Joyce Enzler

Nesta difícil conjuntura mundial, em que as eleições são vencidas com o uso de mentiras e de fake news, manter-se ético, prudente e investigar sempre os fatos é o que buscam cidadãos que ainda não se renderam ao oportunismo, à ganância e ao individualismo. Eles se contrapõem aos que não se preocupam em inundar as redes sociais digitais com boatos e incitações à intolerância e ao ódio. Paulo Roberto de Abreu Bruno, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), conhece bem o que é ser atingido por  ofensas e inverdades de um jornalismo inconsequente.
 
O pesquisador foi um dos mais de 200 presos pela Polícia Militar, segundo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), no momento em que registrava com sua câmera, em 15 de outubro de 2013, a manifestação por mais verbas para saúde e educação, entre outras reivindicações, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. O registro era parte de uma pesquisa que fazia sobre movimentos sociais e saúde pública. Entenda melhor o caso lendo a matéria Pesquisador da ENSP ganha ação por danos morais contra blogueiro, produzida exclusivamente para o Informe ENSP.
 
Com a inundação de informação e desinformação em uma velocidade incompatível com o tempo necessário para apuração, investigação e escrita cuidadosa, está em xeque o jornalismo sério. Como diria o filósofo e urbanista francês Paul Virilio, que deixou um legado sobre estudo da dromologia – ciência que observa como a sociedade é afetada pela velocidade: "Hoje, não existem mais pessimistas e otimistas. Só realistas e mentirosos." Voltamos a viver em tempos de “perigo na esquina” e precisamos lutar para que o jornalismo seja pautado no conhecimento, senão estaremos reféns das redes sociais digitais.
Paulo Bruno, acusado de criminoso por um blogueiro, conversou  com o Informe ENSP sobre o incidente, as manifestações políticas daquele período, o cenário atual e a irresponsabilidade na imprensa. 
 
Informe ENSP: Nesse cenário, em que muitos confundem liberdade de expressão, com ofensas pessoais de toda ordem, como chamar de criminoso, o que significa politicamente essa vitória contra o blogueiro Rodrigo Constantino e a empresa Abril?
 
Paulo Bruno: Estamos falando de seis anos atrás. Era outro contexto, e esse tipo de comportamento começava a vir à tona. Agora, as pessoas começaram a opinar excessivamente nas redes sociais digitais. Na verdade, eu não dei muita importância ao que ele tinha falado, porque eu imaginei que muitas pessoas falam várias coisas por desconhecimento mesmo e, na época, nem vi o que ele tinha escrito.
 
Depois de um tempo, os amigos e a minha filha avisaram que ele tinha escrito muitas ofensas, e isso não é fazer uma análise política. O que ele fazia na revista era ofensa pessoal. Então, não me ocupei muito com isso. Mas, depois de um tempo, algumas pessoas, que me conheciam aqui da Fiocruz, entraram nos comentários da coluna dele e escreveram que ele não podia me acusar sem provas, e ele insistiu dizendo que eu era criminoso.
 
Entretanto, não houve crime nenhum. A prisão foi relaxada pela juíza da 35ª Vara Criminal, Daniela Alvarez Prado, e, mais tarde, o inquérito policial foi arquivado. Nunca cheguei a ser indiciado no inquérito policial, e, por isso, nunca foi ajuizada uma ação penal contra mim por parte do Ministério Público (MP). Pelo contrário, o próprio MP pediu o arquivamento do inquérito. Os fatos demonstraram que a Polícia Militar se equivocou. E o blogueiro mais ainda.
 
Informe ENSP: Quais são as motivações que o levaram a ingressar com essa ação?
 
Paulo Bruno: Em outubro de 2016, nós entramos com a ação porque fizemos a avaliação de que não poderíamos deixar aquilo continuar. As postagens dele e as acusações continuavam. Então, qualquer pessoa que buscasse meu nome na internet poderia se deparar com aquele tipo de acusação e sem chance de defesa, porque ele não me ouviu, não me entrevistou, não analisou os fatos a fim de poder tirar a conclusão dele. Apenas afirmou, no calor daquelas manifestações de 2013, que eu era criminoso. Não posso julgá-lo, só ele próprio pode dizer o que estava sentindo, mas, para mim, é desagradável ser acusado de uma coisa que eu não fiz. Além disso, o fato de ter sido relacionado à instituição que eu faço parte, ENSP/Fiocruz, merecia uma explicação.
 
Assim sendo, minha filha recuperou isso na internet, e tomamos a decisão de entrar com ação por reparação e danos morais. Também quero ressaltar o trabalho do Coletivo Tempo de Resistência, formado por militantes de Direitos Humanos, que realizou um trabalho voluntário.
 
No cenário em que a situação com a justiça estava muito complicada, pensei que não ganharíamos. Perdemos na primeira instância; pensei que fôssemos perder na segunda, queria desistir. Porém, o Marcus me mandou um áudio e disse que era importante recorrer, embora corresse o risco de perder. Portanto, aceitei e recorri, contudo, achando que o cenário não era favorável.
 
Informe ENSP: E o cenário político atual é favorável?
 
Paulo Bruno: Esse cenário atual é confuso, porque, ao mesmo tempo em que alguns setores da justiça dão demonstração de que agem de forma ideológica, existem vários juízes e desembargadores que atuam utilizando o direito, a racionalidade para tomar decisão, e não fazer perseguição política. Existem muitos que defendem o direito bem aplicado, as garantias que estão previstas na Constituição. Não esperava a vitória; no entanto, foram três votos a zero. Isso dá um destaque para o trabalho dos advogados, significa que fundamentaram bem a ação.
 
Embora eu tenha me surpreendido com a decisão dos três desembargadores, ao mesmo tempo, temos um contexto de contradições, e todos os setores da sociedade, a justiça, o governo têm contradições.
 
Contudo, o absurdo desse jornalista – não sei se tem formação na área ou se é apenas blogueiro –, foi acusar sem base, sem que a própria justiça tivesse chegado a uma conclusão.
 
Informe ENSP: Você pode aproveitar essa vitória como uma lição, mostrando que é errado acusar sem provas?
 
Paulo Bruno: Pode, mas quem tem isso mesmo como prática não vai mudar por conta disso. Nós temos vários casos recentes, na justiça, de pessoas que estão perdendo; não obstante, continuam falando como alguns deputados. Não sei se resolve, mas a decisão é importante como exemplo.
 
Fica a lição de que não é possível, não é correto e não é justo ofender as pessoas, incriminar as pessoas, sem base. E, ainda que tivesse base, o jornalista precisa ser cuidadoso para apurar os fatos. Jornalismo é um campo de conhecimento muito importante, mas a narrativa precisa estar fiel aos fatos. Eu sou graduado em História, não posso inventar fatos e criar uma narrativa.
 
Informe ENSP: Por mais que você discorde do que ocorreu?
 
Paulo Bruno: Por mais que eu discorde, preciso examinar os fatos. Tomara que sirva de exemplo. Importante que seja divulgado para que as pessoas saibam que a justiça pode ser correta.
 
Informe ENSP: Qual sua análise sobre o que foi escrito acerca das Jornadas de Junho de 2013? De que maneira sua presença, nos atos e manifestações, ajudou a compreender o movimento?
 
Paulo Bruno: Eu fiz o curso de Cinema Etnográfico no Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). Então, resolvi comprar uma câmera e gravar minhas pesquisas. Esse recurso de capturar as imagens para o historiador é ótimo, porque é como se a História estivesse sendo registrada na hora.  É totalmente diferente de narrar depois dos acontecimentos.
 
Muitos pesquisadores analisaram as manifestações a partir do que leram na imprensa. Li vários livros e artigos, que foram publicados sobre o tema, e observei neles várias interpretações errôneas, porque esses historiadores ou sociólogos não estiveram nas manifestações.
 
Entre 2013 e 2014, registrei praticamente todos os atos. No dia 20 de junho de 2013, por exemplo, numa das manifestações mais expressivas, permaneci na Central do Brasil e registrei parte da população que chegava dos bairros para a manifestação. Eram muitas pessoas descendo do trem – a maioria jovem –, e creio que essa geração era atraída pela comunicação nas redes sociais digitais. Desse modo, gravei as palavras de ordem gritadas, as bandeiras, os cartazes, entre outros.
 
Em 2014, apresentei um trabalho no Fórum Mundial de Educação, em Canoas (RS). Nele, discuti a ideia da “Pedagogia da Rua”, dos conhecimentos que são construídos e compartilhados em contextos de movimentos coletivos – no caso, das manifestações que ocorriam em espaços públicos. Embora a minha formação tenha sido em História, concluí mestrado em Educação, e essa área de conhecimento também é relevante para auxiliar na interpretação dos fatos que estudava.
 
Informe ENSP: Você foi preso por uma violência da polícia, em 15 de outubro de 2013. Nesse dia, mais de 200 pessoas foram detidas. O que mudou de lá para cá, no contexto brasileiro?
 
Paulo Bruno: No contexto brasileiro, mudou muita coisa em termos de governança, de gestão da política, de organização da sociedade. Mudou muito! Entretanto, naquela época, já era possível ver que as condições para essas mudanças estavam estabelecidas lá. Esse viés autoritário já estava. Na realidade, nunca deixou de existir.
 
Informe ENSP: Mesmo nos governos mais progressistas?
 
Paulo Bruno: Mesmo nos governos mais progressistas. O que sustenta esse momento atual já existia de uma forma encapsulada talvez, mas estava presente: a truculência, o discurso de ódio. Não sei se, até que ponto, deixou de existir, desde o “descobrimento”, a violência em si, com esse caráter de controle, de aparelho de Estado.
 
Na época, eu dei uma entrevista para a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), em que eu falava dos porões da democracia, que eu percebi após passar pela experiência da prisão, passar pelas mãos do poder do policial do Estado. A democracia está aqui, mas ela tem algo que faz parte dela que, naquela época, estava nos porões; agora, está na sala de estar.
 
Informe ENSP: Agora, muitos não sentem vergonha de incitar a violência.
 
Paulo Bruno: Nem têm vergonha. Aquela época era uma coisa de porão.
 
Informe ENSP: E o que mudou na sua vida?
 
Paulo Bruno: Conhecer de perto a situação dos presidiários, dos encarcerados. Eu tinha uma ideia equivocada, porque aqui, de fora do sistema, é incutido, na nossa cabeça, que todos são bandidos, são monstros. Então, o episódio do presídio me humanizou muito.
 
Era falado pelos policiais, antes de irmos para o presídio, ainda na delegacia, quando fomos detidos, que nós iríamos apanhar, seríamos estuprados. Contudo, não aconteceu nada disso. Quando passamos pelos corredores, entre as celas, embora, precisássemos ficar olhando para o chão, de mãos para trás, quando nosso olhar cruzou com os dos presos havia solidariedade. Não houve ameaça, pelo contrário, havia palavra de apoio. Eles falavam que a nossa luta contra o governo do Cabral era justa. Nunca houve nenhum ato de opressão. A mudança mais significativa foi o respeito por quem estava numa situação de perda de liberdade.
 
No mais não mudou. Depois, quando eu saí, no primeiro momento, fiquei temeroso com relação às manifestações. No início, quando estava filmando algum ato, qualquer explosão, qualquer presença de polícia, me assustava. Mas era só isso, porque esse sentimento fica embutido no indivíduo; toda repressão é para isso, é para te colocar o medo. E, lá dentro, o tempo inteiro, você é ameaçado por quem cuida da segurança do presídio, ameaçado, intimidado, humilhado, para você se disciplinar naquela ordem.
 
Informe ENSP: Os policiais também ameaçavam vocês?
 
Paulo Bruno: Sim, diziam que a nossa vida nunca mais seria a mesma e que poderíamos voltar para lá por qualquer incidente. E, se voltássemos, não seria como da primeira vez, seria muito pior. Tive a sensação de que o complexo penitenciário é um mundo à parte, totalmente diferente do modo de agir da justiça. O porão encontrava-se ali, o sistema opressor estava ativo, a todo vapor, só o público, naquele instante, que era diferenciado. Porém, a maior parte, na prisão, era preta, pobre, desempregada e usuária de drogas. Naquele momento, eu era preso político, todavia as outras prisões também apresentam caráter político, pois eram a consequência da política de criminalização da pobreza.
 
 
 

2 comentários para "Pesquisador alerta sobre jornalismo inconsequente"

 

  1. CLAUDIA GONCALVES THAUMATURGO DA SILVA

    Muito forte e contundente o depoimento do pesquisador Paulo Bruno. Trata-se de um testemunho sincero e corajoso, que se contrapõe ao obscurantismo e à proliferação de mentiras, que estamos presenciando nesse momento atual do país. É, acima de tudo, um convite à reflexão a respeito da fragilidade de nossa democracia e dos mecanismos de opressão utilizados para cultivar o medo na sociedade e alimentar o ódio voltado, principalmente, aos segmentos mais pobres da população.

  2. ANGELA CRISTINA DE SOUZA CORDEIRO

    Muito clara, objetiva e sincera a entrevista dada pelo pesquisador Paulo Bruno. Angela Cristina - DSSA/ENSP/Fiocruz

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