Lider indígena Davi Kopenawa Yanomami visita a ENSP

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“Minhas palavras são para sentir dor e preocupação, para ajudar nós". Essa é a mensagem trazida por uma das principais lideranças indígenas do país, o Yanomami Davi Kopenawa. Convidado pelo pesquisador do Departamento de Endemias da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), Paulo Basta, o xamâ visitou a ENSP a fim de fortalecer, ainda mais, o laço entre a Escola e os povos indígenas na luta de resistência.
 
Na ocasião, Davi Kopenawa comentou sobre os rios que banham as aldeias estarem contaminados pelo mercúrio - metal utilizado na separação de ouro nos garimpos ilegais instalados dentro das terras Yanomami. “O Rio grande está totalmente poluído pelo garimpo. O rio está sujo, com a água barrenta, e as comunidades que estão ao redor usam essa água”, disse ele. 
 
No ano de 2013, a associação Hutakara enviou um pedido de ajuda à ENSP para análise da contaminação de mercúrio no ecossistema e nos indígenas. O resultado desse pedido foi a união da Escola com a Pontifícia Universidade Católica (PUC) e o Instituto Socioambiental (ISA), que identificaram, por meio de análises científicas, a contaminação de ambos.
 
 
"Não tem jeito"
 
Os resultados foram entregues em Brasília aos órgãos públicos federais como Ibama, Funaí, Sesai e Procuradoria Geral da União República. Além disso, o relatório técnico foi repassado às mãos da representante da ONU para os povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, que relatou especial preocupação aos impactos sobre a saúde provocados pela mineração ilegal e pelo uso de mercúrio em terras Yanomami. O xamã conta que operações foram realizadas pela Policia Federal, pelo Exército Brasileiro e o próprio Ibama; porém, nada mudou. “Eles voltam. Não tem jeito. A operação tira os garimpeiros, o Exército sai; e os garimpeiros voltam. Eles sabem que têm bastante ouro. Infelizmente, é assim” lamenta.
 
Atual governo gera desconfiança
 
E o que estava ruim, pode piorar. O atual governo brasileiro gera desconfiança em Davi. Mesmo ele sendo uma das principais lideranças indígenas do país, em nenhum momento foi procurado para debater ou discutir sobre assuntos que interferem diretamente nos direitos indígenas. O que mais preocupa o Yanomami é a notoriedade e o apoio que o garimpo está ganhando do então governo. “A porta do garimpo foi aberta na terra indígena Yanomami. Ele está junto com o garimpo”, analisa, expressando a preocupação e revolta que sente sobre tudo isso, e desejando que seu povo não seja morto, conforme ocorreu nos tempos da ditadura que atingiu o país nos anos 1960.
 
“Com quarenta e oito anos de luta, não aceito mentiras”
 
A resistência indígena por meio de movimentos foi lembrada por Davi. “Os movimentos indígenas foram criados para defender nosso direito, nosso povo, nossa língua, nossa cultura, nosso jeito. Nós, que conseguimos falar português, queremos conversar antes com as autoridades brasileiras. Ou fala mentira ou fala verdade. Estou há quarenta e oito anos nessa luta e não vou aceitar; eu sou contra a invasão dos garimpeiros e a mineração na terra Yanomami sem a consulta dos líderes indígenas. Eu não vou aceitar. A mineração que está lá na região é muito perigosa”, concluiu ele, exigindo respeito com os povos que habitam aquelas terras. 
 
Na conversa, a pesquisadora Sandra Hacon fez uma observação para alertar a todos sobre a importância da resistência. “Temos que agradecer às comunidades indígenas, porque o dia em que elas saírem do território, a gente perde a floresta.” 
 
Em sua passagem pela cidade, Davi Kopenawa Yanomami realizou uma palestra com o tema Ipa theã oni: flecha para tocar o coração da sociedade não indígena, na Universidade Federal Fluminense e, na próxima semana, viajará para os Estados Unidos, onde ministrará uma palestra sobre mudanças climáticas na Universidade de Harvard. 
 

Veja +: Elevados níveis de contaminação por mercúrio preocupam comunidade indígena 

Veja +: ENSP debate a APS e os efeitos do mercúrio na saúde nos dias 29 e 30 de novembro 

*Por Thamiris Carvalho, sob supervisão de Tatiane Vargas. 

*Thamiris Carvalho é estagiária de jornalismo da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP. Tatiane Vargas é jornalista da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP.

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