Violência, Trabalho e Saúde pautam aula aberta na ENSP

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Fruto de uma parceria entre a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), os cursos de Pós-Graduação Tópicos Especiais em Gênero, Violência e Saúde, da ENSP, e Tópicos em Saúde Coletiva Violência, Gênero e Saúde, do Instituto de Saúde Coletiva, da Universidade Federal Fluminense (ISC/UFF), contaram com uma aula aberta para iniciar o ano letivo. O mês escolhido para a aula aberta, Violência, Trabalho e Saúde: luta e resistência das mulheres, organizada pelo Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP/Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal Fluminense, é o mês da luta e da resistência. Esses poderiam ser sinônimos do mês de março, no qual é celebrado o Dia Internacional da Mulher.

A abertura da atividade contou com a fala da coordenadora de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFF, Márcia Guimarães, expressando toda sua felicidade em estar presente ao evento, além da relevância do curso. “Essa disciplina tem um significado importante não só pela temática, mas pela parceria de muitos anos entre as Escolas, que agora está consolidada.” Já a coordenadora do Cesteh, Kátia Reis, parabenizou todas as mulheres presentes de forma calorosa, dando boas-vindas e salientando o valor da aula. “Vamos fazer um coroamento, com a disciplina e o evento, para essa luta de resistência contra a opressão, contra a violência, contra as formas de misoginia, de ceticismo e de racismo.”

Para compor a mesa, a professora colaboradora, Regina Simões, convidou a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Ana Flávia Pires, e a cientista social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Neuma Aguiar. Logo em seguida, ela relembrou a todos o real significado da data. “Nossa disciplina veio dar mais uma contribuição para essa luta. Trazer a verdadeira marca do dia 8 de março, já que de umas décadas pra cá, tentaram transformar essa data no símbolo da feminilidade, quando as mulheres ganham flores, carinhos e jantares. Isso é uma das estratégias de minar a resistência crítica e transformá-la em um dia de celebração”, enfatiza ela.

Abrindo as palestras, a professora Ana Flávia Pires mencionou o início da sua trajetória na luta em favor das mulheres e trouxe a pauta do panorama da violência no Brasil. “Muitas e muitas delas lutaram antes de nós para que estivéssemos alforriadas agora”, enfatizou a professora, que contou sobre a primeira onda do movimento feminista, iniciado em 1791, o qual, assim como qualquer luta social, oscilava.

O segundo momento importante, de acordo com ela, foi já no século XX, nos anos 1970. “Naquela época, foi articulada a luta de mulheres por luta de causas comuns das mulheres. Muito da redemocratização do Brasil e da construção do Sistema Único de Saúde (SUS) foi feita por mulheres articuladas”, relembrou a professora.

Ana salientou a importância da análise da opressão, para avaliar o que deveria ser modificado. "Precisamos nos debruçar e entender de onde vem isso. Existem várias compreensões do por que nós não termos os mesmos direitos, não termos o mesmo poder nas questões de Legislativo, Judiciário, diretorias." Dando continuidade à sua fala, ela mostrou o real sentido da luta. “Trata-se de acabar com os gêneros, não com o sexo e nem com as diferenças. A luta é para acabar com a desigualdade, que é articulada ao modo de produção capitalista e o quanto a gente precisa unir as lutas contra o capitalismo, racismo, misoginia machista e a opressão de gênero". 

Nos anos 1980, toda luta da redemocratização trouxe a primeira luta das mulheres contra os parceiros íntimos, o que chamamos hoje de feminicídio, isto é, a morte das mulheres e, depois, a absolvição dos parceiros, os quais haviam matado pautados na tese de legitima defesa da honra. Dessa década em diante, conforme citou a professora, começaram as discussões de gêneros e o fortalecimento da luta das mulheres, com várias conferências em relação aos direitos humanos.

Ana lembrou que a violência demostra perda de poder e mostrou como debater conceitos de gêneros ajuda no combate à violência contra a mulher. “A violência para nós é aquele ato extremo realizado por aquela pessoa que está em posição de poder, seja para educar ou aculturar a mulher em seu lugar, ou retomar a posição de poder que está sendo vista como injustamente perdida. Então, quando há muita atenção e mudança nas relações de gêneros, como vem ocorrendo nas últimas décadas, ocorre o acirramento na violência, como uma forma da masculinidade reiterar seu poder, uma vez que eles sentem como injustamente perdido. E a violência, na nossa cultura, está extremamente associada à masculinidade", finalizou. 

Mulher e o trabalho

A cientista social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Neuma Aguiar, apresentou a contribuição da mulher para a força de trabalho, em uma pesquisa que retrata sua posição social. A ideia era elaborar sugestões para melhorar a compilação das mulheres na força de trabalho e aprimorar o conhecimento sobre a participação na vida social, não só no Brasil mais em outros lugares do mundo. “Era preciso estabelecer um movimento dessa natureza a fim de aperfeiçoar as pesquisas, e com elas retratar a real situação social", disse ela, referindo-se ao seminário realizado nos anos 1980 direcionado à apresentação dos resultados.

A economia doméstica foi o que motivou a pesquisa da cientista, já que antes, o olhar era voltado à economia capitalista. Com o intuito de melhorar os indicadores das mulheres, a barreira enfrentada foi chegar até elas. “O que atrapalhava a pesquisa era a forma da estratificação social da época que podia alterar os resultados, pois os levantamentos eram realizados apenas com os chefes do domicílio. As mulheres só apareciam se elas ocupassem essa posição. Queríamos desvincular isso”, lembrou a cientista, já que o objetivo principal era aprimorar os indicadores da participação da mulher na força de trabalho.

Saindo da área da sociologia, à disciplina economia doméstica foi implementada a pesquisa para analisar o conjunto de bens e serviços efetuados em determinada área geográfica, empregando capital doméstico de todos os componentes físicos que entram na composição do domicílio e o trabalho não pago. “Isso inclui produção de alimentos, limpeza da casa, o cuidado das crianças, utensílios domésticos, entre outras atividades realizadas no lar", explicou a cientista.

Os resultados da pesquisa foram apresentados e apontam que o tempo de trabalhos domésticos realizado pelas mulheres é quase o dobro dos homens durante a semana, tendo uma pequena queda nos fins de semana, em todas as classes. A observação é direcionada às mulheres de classe mais baixa, explica a cientista. “Elas têm mais trabalho durante a semana e nos fins de semana, e, no caso dos homens, quanto mais elevada a classe, maior o número de atividades realizadas por eles apenas nos fins de semana”, finalizou Neuma, lembrando que o interesse não era só estudar o lugar de participação das mulheres, mas o que esse lugar representa para a sociedade.

*Por Thamiris Carvalho, sob supervisão de Tatiane Vargas.
 
*Thamiris Carvalho é estagiária de jornalismo da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP.
*Tatiane Vargas é jornalista da Coordenação de Comunicação Institucional da ENSP.

 

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