Paleoparasitologia, ciência na qual os mortos ensinam os vivos, celebra 40 anos

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*Por Tatiane Vargas

O Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Densp/ENSP) realizou seminário comemorativo dos 40 anos da Paleoparasitologia. Durante a celebração, houve a inauguração da Coleção Paleoparasitológica e de Fezes Recentes de Animais (CPFERA), institucionalizada pela Fiocruz em 2019, que passa a compor o acervo das grandes coleções institucionais. Para a pesquisadora da ENSP e curadora da Coleção Paleoparasitológica, Marcia Chame, por meio dessa iniciativa institucional, o material, testemunho de tempos pré-históricos, irrecuperável, ganha mais visibilidade e oferece a todos os pesquisadores oportunidade de desvendar novos segredos e descobertas. Todas as apresentações estão disponíveis no Canal da ENSP, no Youtube.

+ Acesse a playlist: Seminário comemorativo celebra 40 anos da Paleoparasitologia e inaugura Coleção.

A Paleoparasitologia é a ciência que estuda a presença de parasitos em animais extintos e múmias pré-colombianas. O termo foi criado pelo pesquisador emérito da Fiocruz, Luiz Fernando Ferreira (in memoriam), reconhecido internacionalmente e lembrado de forma carinhosa e emocionada por todos aqueles que contribuíram para o crescimento do campo e estiveram presentes à atividade. Na ocasião, Marcia Chame ressaltou que a realização do evento foi, também, pessoal, pois se tratava de uma promessa feita ao professor Luiz Fernando, com quem ela dividiu sua vida profissional nos últimos quarenta anos.

Atualmente, a Paleoparasitologia permite que, além da identificação de parasitos, seja possível inferir como as mudanças ambientais, climáticas, hábitos alimentares e a biodiversidade alteram o curso das parasitoses e, com isso, pensar como estarão distribuídas e se manterão no futuro. “Assim, seguimos o lema da paleopatologia, ou seja, ‘os mortos ensinam os vivos’”, lembrou Marcia. De acordo com ela, o acúmulo de material de diversas origens, coletados pelo Grupo da ENSP ou doados por inúmeros arqueólogos e paleontólogos, permitiu reunir mais de 2.800 amostras de materiais pré-históricos e cerca de 6 mil amostras de fezes recentes, que servem como bases comparativas para os estudos e, também, entender como esses mesmos processos avançam com a aceleração das mudanças no presente.

“Em quatenta anos de estudos, encontramos numerosas coisas, o grupo cresceu. Formamos muitos alunos, estabelecemos diversas parcerias nacionais e internacionais, e um livro síntese foi ganhador do Prêmio Jabuti, em 2012, na categoria Ciências Naturais. Avançamos em novas metodologias de identificação para diferenciar os coprólitos humanos dos animais, encontramos ancilostomídeos que apoiaram as teorias transpacíficas das migrações humanas para as Américas, e avançamos na microscopia ótica, eletrônica e na identificação do DNA de parasitos, como os de Trypanosoma cruzi, e muitos outros”, comemorou ela.

Marcia Chame e Natalina Jordão, secretária de Luiz Fernando nas últimas quatro décadas, descerraram a placa da inauguração da Coleção Paleoparasitológica e de Fezes Recentes de Animais (CPFERA); Subcoleção de Coprólitos e Material Paleoparasitológico Luiz Fernando Ferreira; e Subcoleção de Fezes Recentes de Animais.

Sobre a coleção de coprólitos e material paleoparasitológico

A coleção, criada em 1978 por Luiz Fernando Ferreira, objetiva preservar os materiais biológicos, arqueológicos, paleontológicos e sedimentológicos, testemunhos de épocas antigas; apoiar estudos, pesquisas, eventos científicos e a formação de pessoas que utilizam o acervo da coleção, além de divulgar e difundir conhecimento e informações da Paleoparasitologia e áreas correlatas.

Atualmente, ela possui 2.977 lotes, sendo 57% das amostras de coprólitos, 24% de sedimentos de sítios arqueológicos, 3% de sedimentos de urnas funerárias e latrinas, 3% de cabelos e pelos, 3% de ossos e dentes, 3% de múmias e tecidos mumificados, além de material têxtil como tecidos e adornos de corpos mumificados e penas. Há, também, fragmentos vegetais, resina, entre outros, e amostras de origem humana, animal e vegetal. As mais antigas são do Triássico Médio, originárias de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. A coleção está localizada no Departamento de Endemias da ENSP, em uma sala exclusiva com temperatura e umidade adequadas para evitar proliferação de fungos e insetos.

Cerimônia de Abertura

A cerimônia de abertura contou com a participação do vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa, representando a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade; do diretor da ENSP, Hermano Castro; do coordenador da Estratégia Fiocruz 2030, Paulo Gadelha; do coordenador do Canal Saúde, Arlindo Fábio; e da pesquisadora Marcia Chame. Durante o evento, Arlindo Fábio fez um emocionante discurso em homenagem ao amigo Luiz Fernando Ferreira, patrono da Paleoparasitologia, refletindo sobre a falta que nos faz o professor e sempre contando suas belas histórias. Paulo Gadelha, discípulo número um de Luiz Fernando, segundo ele, ressaltou que o professor foi quem mais encarnou a alma de Manguinhos para os tempos contemporâneos. “A Paleoparasitologia e essa coleção são suas maiores histórias”, celebrou ele.

O diretor da ENSP, Hermano Castro, parabenizou a todos pela realização do evento e lembrou que Luiz Fernando e Adalto Araújo, pesquisador que esteve ao lado do "mestre" nas descobertas das últimas quatro décadas, foram diretores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca e o quanto sua gestão contribuiu para o crescimento da Escola. “No contexto em que estamos vivendo, apresentar algo positivo e tão significante para a saúde pública é o que representa a Fiocruz”, destacou Hermano Castro. Por fim, o diretor da ENSP ressaltou a grande missão no trabalho dos últimos quarenta anos e o esforço da Escola para isso.

O vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa, mencionou a satisfação em celebrar os 40 anos da Paleoparasitologia com o recém reconhecimento institucional da Coleção Paleoparasitológica e de Fezes Recentes de Animais, inédita no Brasil. “Há um valor inestimável nessas coleções pela importância de manter a história da saúde pública e de tudo o que a Fiocruz desenvolve nos acervos institucionais. Hoje, a Paleoparasitogia é uma das grandes áreas de investigação no mundo, e a única coleção bem-estruturada que existe no Brasil e na América Latina é da Fiocruz.”

Um vídeo, produzido pelo Grupo de Paleoparasitologia da ENSP, foi exibido durante a comemoração e emocionou a todos ao lembrar a trajetória do professor Luiz Fernando Ferreira.

Veja, a seguir, o vídeo com o descerramento da placa de inauguração e a cerimônia de abertura do Seminário Comemorativo.
 


A trajetória da Paleoparasitologia

Dando continuidade ao evento, foi formada a Roda de Conversa ‘A Trajetória da Paleoparasitologia’, mediada pela pesquisadora Marcia Chame, que contou com a participação da vice-diretora de Pesquisa da ENSP, Sheila Mendonça de Souza, da pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Alena Mayo Iñiguez, e da pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano, Niéde Guidon, que enviou um vídeo.

A vide-diretora da ENSP, Sheila Mendonça, refletiu sobre a trajetória da Paleoparasitologia e lembrou que ela e outros colegas são parte de uma história viva. Segundo ela, com a expansão do campo, saímos da condição de periferia e nos afirmamos no cenário internacional. “A Paleoparasitologia, como grupo, se reforça dentro e fora do Brasil. A ENSP se tornou, ao longo desses quarenta anos, um Centro de Referência Internacional no tema”, reforçou ela.

A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Alena Mayo Iñiguez contou que, com ela, foi paixão a primeira vista em 1995. “Eu, imigrante cubana, estava fascinada pela possibilidade de trabalhar com o pai da Paleoparasitologia e professor ilustre Luiz Fernando Ferreira”, lembrou. De lá para cá, Alena continuou sua trajetória e deu grandes contribuições na área da Paleoparasitologia Molecular Patogenética para Doença de Chagas.

Confira, no vídeo abaixo, a mesa na íntegra.


O legado da Coleção de Paleoparasitologia

Encerrando o seminário comemorativo, foi realizada a Roda de Conversa ‘A Coleção de Paleoparasitologia: o legado’, cuja mediação esteve a cargo da assessora da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), Manuela da Silva, e contou com a participação da pesquisadora do IOC/Fiocruz Delir Corrêa; da pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Daniela Leles; e da curadora da Coleção Paleoparasitológica e de Fezes de Animais Recentes, Marcia Chame.

A pesquisadora Delir Corrêa contou que Luiz Fernando criou o curso de pós-graduação na área e deu força para que o trabalho continuasse. “A continuidade é muito importante, e o reconhecimento da Fiocruz é fundamental para isso. A instituição é um suporte fundamental”, afirmou. A pesquisadora da UFF Daniela Leles falou brevemente sobre a utilidade da coleção e contou que, pessoalmente, vem usufruindo dela há quinze anos. Daniela destacou que, atualmente, a coleção está na sua melhor forma. “Com a institucionalização da coleção, todos saem ganhando”, frisou ela.

Ao mediar a Roda de Conversa, a assessora da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas e coordenadora da Gestão das Coleções na Fiocruz, Manuela da Silva,  afirmou que, na estrutura organizacional das Coleções Biológicas da Fiocruz, essa  trigésima quinta coleção se encaixou como zoológica, pois é constituída por derivados de animais.

“É uma coleção que atendeu muito bem aos critérios de reconhecimento institucional e reforça a importância do depósito de material biológico. Nossos pesquisadores precisam saber que têm à disposição essa coleção e outras coleções biológicas que garantem a guarda do material que estudam e, portanto, podem depositá-los a fim de que, posteriormente, seja possível estudá-los em outras pesquisas”, concluiu Manuela.

Confira, no vídeo abaixo, a mesa na íntegra.


*Por Tatiane Vargas, com colaboração de Kath Lousada e Cristiane Boar,  ambas da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz).

 

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