Abuso digital em relacionamentos afetivo-sexuais é foco de artigo do 'Cadernos de Saúde Pública'

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Abuso digital ou prova de amor? Essa questão pontua um estudo que analisa como a expansão do acesso ao uso da Internet contribuiu para a promoção de novas formas de sociabilidade online, bem como para a banalização de práticas abusivas por meio do uso dessas mesmas mídias digitais, sendo justificadas por argumentos retóricos que enaltecem a perspectiva do “quem ama cuida”, logo, controla, monitora, rastreia, espiona.
 
A pesquisa resultou no artigo Abuso digital ou prova de amor? O uso de aplicativos de controle/monitoramento nos relacionamentos afetivo-sexuais, de Roberta Matassoli Duran Flach, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro; e Suely Ferreira Deslandes, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira/Fiocruz, publicado no Cadernos de Saúde Pública.
 
Segundo o artigo, a disseminação do uso da Internet levou a relações sociais mediadas pelas tecnologias digitais de comunicação em níveis nunca alcançados outrora, potencializando a criação de vínculos associativos e comunitários, a socialidade digital. “Essa socialidade é caracterizada por um conjunto de práticas cotidianas e experiências coletivas baseado num politeísmo de valores, mediado pela arquitetura em rede, que ampliará exponencialmente e contribuirá para um processo chamado de retribalização do mundo, isto é, as agregações passarão a acontecer via interesses comuns, independentes de fronteiras ou demarcações territoriais fixas.”
 
Para os autores da pesquisa, a cultura digital permitiu potencializar a pulsão gregária e retribalizada, agindo como vetor de comunhão e compartilhamento de sentimentos e religações comunitárias de toda ordem ideológica ou de valores, sejam os de defesa de direitos e respeito à alteridade, sejam os de segregação e violência.
 
Dentre os muitos elementos de sustentação da cultura digital, o artigo destaca a hipervalorização à exposição pública ou “hipervisibilidade”, em que as fronteiras entre o que se considerava público e privado há décadas, se entrelaçam e diluem, e fazem do ato de “bisbilhotar” algo fundamental na sociabilidade digital.
 
De acordo com os pesquisadores, “estaríamos vivendo a ‘Era do Exibicionismo’, ou seja, submetidos a um constante apelo de ‘publicalidade’ coletiva, estimulados a anunciar espontânea e voluntariamente tudo o que se refere à vida privada, transformando os segredos pessoais em um livro aberto de promoção pessoal”. Há, portanto, relatam eles, um embaralhamento entre as fronteiras do controle e da visibilidade, do público e do privado, que se retroalimentam e constituem simultaneamente uma “estética da vigilância”, convidando todos a serem ao mesmo tempo controladores e controlados.
 
O artigo observa que a vida privada é exteriorizada em busca de um olhar que reconheça e ateste a sua visibilidade, um eu-imagem num mundo onde para existir é preciso ser visto e testemunhado por milhões de expectadores, num processo constante e intermitente de “negociação de identidades” ou, melhor dizendo, de constantes afirmações identitárias.
 
“As comunidades virtuais, tais como Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e Messenger, por exemplo, são espaços simbólicos de partilha e pertencimento. Através das redes sociais digitais esse voyeurismo simulado e a ‘hiperexposição da imagem’ são facilmente exercidos, constituindo a base de relacionamentos que vão desde a busca por novas amizades até relações afetivo-sexuais com distintos graus de comprometimento”, acrescenta o artigo.
 
Conforme relata o artigo, essas relações e expressões afetivo-sexuais mediadas pelas redes sociais digitais também se apresentaram como um terreno fértil ao desenvolvimento de novas práticas de violência entre parceiros, o chamado abuso online ou digital. “O abuso digital ocorrido nas relações afetivo-sexuais inclui humilhação, insultos, ameaças, controle, isolamento, características similares em muitos aspectos aos abusos ocorridos fora (offline) do ambiente digital”. Contudo, alerta a pesquisa, apresenta maior potencialidade de propagação, dada a natureza do compartilhamento e disseminação proporcionada pela Internet. “O abuso digital é tipificado de diversas maneiras, sendo o sexting não consentido, o revenge porn e o controle/monitoramento são as modalidades principais que compõem a empiria desta categorização.”
 
O artigo esclarece que o sexting consensual não é designado como um abuso, sua prática é relacionada às dinâmicas e gramáticas de sedução amorosa-sexual, e acontece por meio do envio de mensagens de texto, fotos e vídeos sensuais, com ou sem nudez, para uma determinada pessoa ou grupo. Contudo, ”sua exposição não consentida a terceiros constitui um tipo de revenge porn e, portanto, uma forma de abuso digital. Geralmente praticado no término do relacionamento afetivo-sexual como uma forma de retaliação, o revenge porn é o compartilhamento sem consentimento de fotos e vídeos íntimos na Internet, com o objetivo de degradar a imagem e se vingar do(a) ex-parceiro(a)”.
 
Segundo os autores, devido ao potencial risco de degradação e humilhação pública de quem a sofre, o abuso online no relacionamento afetivo-sexual é reconhecido pelas disciplinas ligadas à saúde e suas enunciações discursivas como um tipo de abuso psicológico e emocional. “Tais práticas são apontadas pela literatura como capazes de provocar danos à identidade, à autoestima, à integridade, à privacidade e à imagem pública, deixando marcas psíquicas.”
 
Portanto, concluem os pesquisadores, dada a natureza dessa nova sociabilidade digital, na qual somos convidados à superexposição e a sermos ao mesmo tempo controladores e controlados, a alta reciprocidade desses atos de abuso digital indicam a necessidade de um aprofundamento teórico e ampliação de estudos que procurem entender como essas dinâmicas interagem entre si, produzem e reproduzem práticas de violência comumente conhecidas, agora potencializadas, neste novo espaço de interação social, a Internet.
 

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