Entrevista: Aluna da ENSP fala sobre a criação do Coletivo Negro

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Joyce Enzler
 
Mayra da Cruz Honorato, estudante do primeiro ano do mestrado acadêmico em Saúde Pública na ENSP, formada em psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e integrante do Grupo Preto de Psicologia Ìmárale fala sobre a criação do Coletivo Negro na Fiocruz, por um grupo de estudantes, e a participação da população negra na academia. O Coletivo participou da organização do Ceensp Vidas Negras – Saúde e Resistência, na ENSP. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
 
Informe ENSP: Conte um pouco da história da criação do Coletivo Negro na Fiocruz e o seu objetivo.
 
Mayra Honorato: A ideia do coletivo surgiu de uma disciplina de inverno que aconteceu na ENSP, em 2018, Expressões do Racismo e Saúde. Essa foi a primeira disciplina que teve o racismo como debate central. Foi um curso muito intenso, produtivo e potente, então os alunos que participaram da disciplina resolveram criar o coletivo. É um consenso que a Fiocruz, como qualquer espaço acadêmico, é um espaço branco, mas nesta disciplina conseguimos ver 70 pessoas, 95% negras, ocupando uma sala na instituição e se propondo a aprender e trocar sobre os efeitos do racismo na saúde da população negra. Isso teve um impacto enorme em quem pôde participar e se reconhecer nesse espaço.
 
É daí que parte nosso principal objetivo: reconhecimento e acolhimento. Entendendo que somos pessoas que se reconhecem como negras e nossa vivência é atravessada por um fator comum, ter esse espaço de troca e construção das nossas práticas entre nós, sem distinção de cargos ou função institucional, levando-se em conta que somos afetados de formas diferentes, pensando também nos trabalhadores com vínculo trabalhista mais fragilizado.
 
 
Informe ENSP: Na Fiocruz, existe o Comitê Pró-equidade de Gênero e Raça, qual o motivo de se criar outro agrupamento com o mesmo tema e qual o diferencial do Coletivo? Ele tem alguma interlocução com o Comitê?
 
Mayra Honorato: O Coletivo ainda não tem interlocução formal com o Comitê, existe o diálogo e o Comitê tem a ciência da formação do Coletivo. Mas nada impede que no futuro haja alguma parceria eventual, não estamos fechados a isso.
 
O diferencial do Coletivo é o fato de não ter um vínculo com a agenda institucional, como o Comitê, que funciona no fortalecimento da temática dentro da Fundação. 
 
Como disse anteriormente, nossos objetivos principais são o reconhecimento e o acolhimento. Somos um grupo de gestão coletiva que decidiu construir um espaço de troca sobre a nossa vivência e produção dentro da Fiocruz. Nosso foco principal é o diálogo e a troca de experiências entre nós. Não está dentro dos nossos objetivos principais a agenda institucional.
 
 
Informe ENSP: Na ENSP, como andam as discussões sobre cotas raciais?
 
Mayra Honorato: As discussões sobre cotas raciais, na ENSP, iniciaram com o objetivo de atender a Portaria Normativa Nº 13, de 11 de maio de 2016 do Ministério da Educação, que dispõe sobre a indução de Ações Afirmativas na Pós-Graduação. A Escola discutiu nas reuniões da Comissão Geral de Pós Graduação (CGPG) e aderiu à reserva de vagas, no lançamento do edital 2018, para ingresso dos alunos nos programas de stricto sensu.
 
Já no nível de lato sensu, a primeira iniciativa foi através do Curso de Especialização em Saúde Pública 2018, onde foram oferecidas 33 vagas, sendo 27 para candidatos nacionais de ampla concorrência, três para ações afirmativas e três para candidatos estrangeiros.
 
Na Residência Multiprofissional em Saúde da Família, foi definida, no edital 2019, a reserva de uma vaga para cada uma das 7 categorias profissionais oferecidas. Outra iniciativa foi a criação do Grupo de Trabalho destinado à discussão de políticas para implementação das ações afirmativas cotas raciais e para pessoas com deficiência física. O trabalho deste grupo ainda encontra-se em fase inicial.
Cabe ressaltar que as iniciativas da ENSP visam à discussão de cotas étnico-raciais concomitantemente a cotas destinadas a pessoas com deficiência física.
 
Informe ENSP: Este Coletivo percebe avanço nas discussões sobre população negra e serviços de saúde nas instituições públicas de ensino?
 
Mayra Honorato: O fato de conseguirmos colocar o evento do Ceensp e de termos a disciplina Expressões do Racismo e Saúde, em 2018, é um ponto de avanço nas discussões sobre saúde e a população negra. No mês de novembro, tivemos diversos eventos sobre a temática, mas, ainda assim, temos um caminho enorme pela frente. Estamos no século XXI, na mais importante instituição de ensino de saúde pública do Brasil, e ainda precisamos dizer que essa foi a primeira disciplina que abordava o racismo como temática central. Ter a sala de aula cheia só mostra o quanto faltam espaços com essa proposta. Tivemos também o Ceensp, mas precisamos de outros momentos e eventos fora do mês de novembro: a população negra é maioria no sistema público de saúde o ano inteiro.
 
Para produzir um ensino de qualidade, no diálogo sobre a saúde da população negra, é essencial espaços de construção que tenham o racismo como eixo central, com bibliografias que reflitam sobre a nossa conjuntura, e não como mais uma iniquidade. Se o maior público do SUS é negro, não faz sentido tratar isso apenas como mais um detalhe.
 

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