'A gente vive em cima da corda bamba': experiência de profissionais especializados em HIV/Aids é tema de pesquisa

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A epidemia de HIV/Aids continua sendo um desafio para a saúde pública mundial mesmo depois de quase 40 anos de epidemia. Um artigo publicado pelo Cadernos de Saúde Pública objetivou compreender a experiência de profissionais da saúde que trabalham em um Serviço de Atenção Especializada em HIV/Aids no nordeste brasileiro. O artigo "A gente vive em cima da corda bamba”: experiência de profissionais da saúde que trabalham com o HIV/aids em uma área remota do Nordeste brasileiro, de Thais Raquel Pires Tavares e Lucas Pereira de Melo, derivou de um estudo que apreendeu as fragilidades de uma equipe “emprestada”, sem experiências anteriores com a assistência em HIV/aids, que precisou e precisa aprender com e na prática como se deve manejar os conflitos decorrentes do lugar de invisibilidade que o serviço ocupa nas políticas de saúde locorregionais. “Esses aspectos ganharam relevo quando foram consideradas as características de ‘cidade do interior’ que modelavam a experiência de profissionais e usuários.” 
 
Para os pesquisadores, destacou-se também a questão da organização dos processos de trabalho que ainda operava numa lógica médica centrada, evidenciando a necessidade de estimular a construção e institucionalização de espaços dialógicos que permitam refletir sobre as questões que emergem no trabalho em saúde com pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA).
 
Além disso, o artigo ressalta que a oferta de apoio institucional e de educação permanente em saúde pareceram ser as estratégias mais eficazes na produção das reflexões necessárias para se repensar a prática e se produzirem novas configurações na dinâmica assistencial. “É preciso estabelecer uma maior aproximação com a gestão para a resolução de conflitos e demandas de forma participativa e dialógica.” De acordo com a pesquisa, esse é um movimento de reconhecimento, fortalecimento e valorização do profissional que contribui não só para a motivação no trabalho, mas para a produção de um profissional crítico e reflexivo, capaz de reorganizar seus processos de trabalho e contribuir para a prestação de uma assistência qualificada.
 
Conforme diz o artigo, espera-se que os resultados deste estudo possam estimular reflexões em torno da prática profissional nos serviços especializados em HIV/aids em contextos de área remota e da formulação de políticas públicas que tenham em conta as peculiaridades desses contextos, considerando, inclusive, a experiência brasileira acumulada por meio das ações como telemedicina, telessaúde, educação a distância, equipes de matriciamento, programas de tutoria e de supervisão. 
 
Por fim, os pesquisadores apontam que ações dessa natureza poderão contribuir para a mitigação das desigualdades sociais em saúde, notadamente quando o foco se volta a esses muitos brasis profundos, conforme se quis evidenciar nesta investigação.
Sobre HIV/Aids.
 
Sobre HIV/Aids 
 
Segundo o artigo A gente vive em cima da corda bamba”: experiência de profissionais da saúde que trabalham com o HIV/aids em uma área área remota do Nordeste brasileiro, desde os anos 1980, a epidemia provocada pelo vírus da imunodeficiência humana/síndrome de imunodeficiência adquirida (HIV/aids) tem envolvido uma ampla mobilização da sociedade civil e de pesquisadores, trabalhadores e gestores da área da saúde na perspectiva de produzirem respostas efetivas e eficientes ao quadro geral de adoecimento, morte e estigmatização das populações afetadas pelo vírus. Nesse contexto, as respostas das políticas públicas nas arenas da saúde e social têm se constituído como um desafio para a saúde pública mundial mesmo depois de quase 40 anos de epidemia.
 
No Brasil, o perfil epidemiológico da epidemia de HIV/aids se caracteriza como multifacetado e em constantes transformações entre os diferentes grupos sociais e regiões, com destaque para o processo de interiorização da infecção. Diante desse panorama, o presente estudo busca problematizar a experiência de profissionais da saúde que trabalham em um Serviço de Assistência Especializada em HIV/aids (SAE) num contexto de área remota no Nordeste brasileiro. No país, as questões relativas à atenção à saúde de populações que vivem em áreas remotas (incluindo os trabalhadores do setor) ganharam maior relevo com a implantação do Programa Mais Médicos, em 2013.
 
Um dos desafios postos ao Sistema Único de Saúde (SUS) é a necessidade de uma abordagem sensível aos contextos locais nos quais se produzem o cuidado das PVHA, uma vez que é ali onde as diretrizes e os princípios da política de saúde são performados por profissionais, gestores e usuários a compor materialidades diversas. Dessa forma, para além dos aspectos epidemiológicos, clínicos e organizacionais que permeiam o trabalho desses profissionais, observam-se lacunas na literatura especializada quanto às experiências construídas, compartilhadas e significadas por esses sujeitos no processo de trabalho, mediante uma perspectiva socioantropológica.
 
Tais aspectos mostram-se relevantes, pois as necessidades e preocupações específicas dos contextos de áreas remotas tendem a permanecer inauditas ou desconhecidas no nível macro ou nacional dos sistemas e políticas de saúde. Além disso, a literatura tem chamado a atenção para os índices de estresse ocupacional entre profissionais que atuam nesses cenários e as peculiaridades do manejo do sigilo e da confidencialidade sobre a soropositividade em áreas remotas. 
 
Para acessar o artigo na íntegra, publicado no Cadernos de Saúde Pública de novembro de 2018, clique aqui
 

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