Pesquisadora da ENSP participa de evento global sobre clima e seus impactos na saúde

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No momento em que líderes mundiais se reúnem em Katowise, na Polônia, para discutir as mudanças climáticas, na Conferência das Partes sobre o Clima (COP 24), cientistas, organizações e pessoas em todo mundo se mobilizaram para alertar sobre os impactos do aquecimento global na saúde durante as “24 horas de realidade”. “A crise climática é uma crise de saúde. Onde há população humana, os impactos das mudanças climáticas são sentidos na vida e na saúde das pessoas”, explica Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), que participou do encontro do Rio de Janeiro durante a 18ª hora, dedicada ao Brasil e à América do Sul. O evento do Rio aconteceu na sede da Sociedade do Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (SEAERJ).

Transmitido ao vivo durante 24 horas, sendo uma hora dedicada a cada país ou região do mundo, o evento é organizado pelo ex-vice-presidente americano Al Gore e conta com participação de artistas e alto engajamento nas redes. Em sua oitava edição, o "24 horas de realidade" abordou a temática da saúde e contou com a participação da Fiocruz, no dia 4 de dezembro.

As mudanças climáticas estão relacionadas ao aumento das doenças cardiovasculares e respiratórias e também ao aumento da propagação de doenças provocadas por vetores e pela água. O Brasil viveu recentemente uma crise de zika e enfrenta agora o maior surto de febre amarela das últimas décadas. Estes eventos estão ligados ao aumento da incidência de mosquitos devido ao aumento da temperatura. No Brasil, estima-se que 4% de todas as entradas nos hospitais decorrem de mudanças bruscas de temperatura, que atingem especialmente crianças e idosos, que são mais vulneráveis a essas mudanças.

Além disso, o país já sente os efeitos das mudanças climáticas, que devem se aprofundar, em eventos como a intensificação de inundações e secas e o aumento do nível dos oceanos. Cidades como Paraty (RJ) viveram episódios recentes de aumento dos níveis das cheias. A expectativa é de que o nível dos oceanos suba 40 centímetros até 2050. Segundo o projeto Realidade do Clima, um aumento de 2ºC na temperatura, em relação aos níveis pré-industriais, pode ocasionar 9 milhões de deslocados no Brasil. O número dobraria caso o aumento chegue aos 4ºC.

A poluição do ar é outro problema a ser enfrentado. No Rio de Janeiro, por exemplo, o nível de partículas minúsculas da poluição responsáveis por graves enfermidades excede o máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 80% dos dias do ano. A qualidade do ar é pior que o recomendado em todas as capitais do Brasil, exceto Recife. Na média, uma pessoa que vive em São Paulo inala o equivalente a cinco cigarros por dia. Isto gera um custo econômico para o país. Estima-se que 1% da renda do país seja consumida em problemas de saúde causados pela poluição. Segundo o Ministério da Saúde, 49 mil brasileiros morrem anualmente devido à qualidade do ar.

Esses efeitos são mais sentidos por populações vulneráveis como gestantes, recém-nascidos, crianças e idosos. Nas áreas com alto índice de poluição, o risco de aborto espontâneo é maior e no Norte e Nordeste do Brasil a chance de uma criança morrer de diarreia aumenta em quatro vezes durantes as ondas de calor. Deste modo, uma população que não tem acesso à saneamento, por exemplo, está muito mais vulnerável aos efeitos de uma inundação na saúde.

"Os impactos das mudanças climáticas na saúde ocorrem de forma desigual e acentuam o que conhecemos como determinantes sociais da saúde", explica Sandra Hacon, referindo a fatores ambientais, econômicos e sociais que influem na saúde de uma população, como saneamento, renda e idade. “A adaptação às mudanças climáticas é possível, mas ela tem ocorrido dentro de uma classe social que tem condições”, afirma a pesquisadora da Rede Clima.

"Se a temperatura subir até 1,5ºC ainda conseguimos ainda controlar no setor de saúde, mas acima de 2ºC de aumento é bem mais difícil. O setor de saúde já tem muitos problemas", destaca Hacon, ressaltando que esses efeitos serão mais sentidos no semiárido do Nordeste, no Norte do país e na região do Cerrado, onde alguns municípios já atingiram a marca de 2ºC de aquecimento. Esta previsão não inclui, no entanto, os riscos de desastres naturais, que também é aumentado pelas mudanças climáticas.

"Toda vez que você tem um desastre, você tem surtos epidemiológicos na sequência, como dengue, por exemplo. Além disso, a infraestrutura e o acesso à saúde muitas vezes também são atingidos", afirma Carlos Machado Freitas, pesquisador da ENSP e coordenador do Centro de Estudos para Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Fiocruz), que também participou do evento no Rio de Janeiro.

Para Carlos Machado, a evolução em saúde alcançada no século 20, como a melhoria nos índices de mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida, pode ser afetada pelo aumento da frequência e a intensidade dos desastres. Dados demonstram que cerca de 25% do século 19 é considerado como seco. Esse índice aumenta para 30% no século 20 e, se considerarmos os primeiros anos do século 21, a projeção é de que 40% do século poderá ser considerado seco.

Os efeitos de desastres e eventos climáticos também podem gerar sequelas que são sentidas pelas gerações futuras. Holmes Antônio Martins é médico-perito na Justiça Federal do Rio de Janeiro e especialista em epigenética, área da medicina que estuda como situações vividas por uma geração pode deixar como herança uma memória não-genética para seus descentes. “Já se sabe que fenômenos como exposição à fome ou a agrotóxicos podem ter impactos na saúde de gerações futuras”, explica Martins, que completou a roda de conversa na Seaerj.

"A medicina conseguiu provar, de maneira objetiva, que as mudanças climáticas provocam modificações no organismo desta e das próximas gerações. O conceito por trás dessa descoberta se chama epigenética", definiu o médico. “Não nos relacionamos com o ambiente, o ambiente está dentro de nós. Esta não é uma alegoria, mas uma metonímia. É a parte pelo todo”, completa.

Brasil lidera esforços para adaptação

“O Brasil é um exemplo dos impactos das mudanças climáticas, mas também é exemplo de soluções”, destacou o apresentador do evento mundial, Al Gore, em vídeo transmitido ao vivo para todo mundo. A capacidade brasileira para liderar uma transição energética para fontes mais sustentáveis, como eólica e solar, é algo a ser comemorado. O país ampliou sua capacidade de geração solar em 577% entre junho de 2017 e junho de 2018 e a energia eólica é que mais cresce no Brasil. O setor de energia renovável gera cerca de 893 mil empregos.

A Amazônia é outra força que pode guiar o Brasil para uma economia de baixo carbono. “Claro que o que acontece na Amazônia depende do Brasil e nenhuma outra nação vai dizer o que o Brasil tem que fazer”, ressaltou Al Gore. No entanto, reforça o ex-vice-presidente americano, a própria sustentabilidade econômica da agricultura na região depende de uma mudança da utilização dos solos, uma vez que os modelos intensivos já demonstraram ser de curto prazo.

O Brasil figura entre os dez países que mais emitem gases do efeito estufa e o desmatamento é responsável por 46% da emissão desses gases, segundo o secretário executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. Neste sentido, pesquisas científicas tem o potencial de orientar políticas mais adequadas para a saúde da população. A pesquisa conduzida por Nelzair Vianna, da Fiocruz Bahia, é destaque neste sentido. Ela mediu os índices de poluição de Salvador durante o carnaval e concluiu que os trios elétricos movidos a diesel estavam afetando a saúde da população local. A cidade então substitui a matriz energética dos trios para biodiesel. “Ainda não é o ideal. O ideal seria que esses trios elétricos fossem de fato veículos elétricos”, afirma Nelzair, que é uma líder para o clima.

Iniciativas que promovam o transporte público de massa ou uso de bicicletas são destaque nessa área. Al Gore relembra, por exemplo, o plano de transportes de Curitiba, considerado uma referência inovadora no transporte urbano. “A boa notícia é que se melhorarmos a qualidade no ar, a saúde se recupera rapidamente”, afirma o professor da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva, que também é membro do conselho consultivo da OMS e foi entrevistado durante o evento mundial.

*Por Júlia Dias, jornalista da Agência Fiocruz de Notícias.

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