Cuidado aos pacientes com suspeita de morte encefálica propicia doação de órgãos e continuidade da vida

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Uma pesquisa publicada no Cadernos de Saúde Pública buscou compreender como os médicos do maior pronto-atendimento de uma metrópole brasileira orientam o cuidado aos pacientes graves com suspeita de morte encefálica e potenciais doadores de órgãos. “Essa nova condição de morte propiciou a doação de órgãos e a continuidade da vida.”
 
Essa pesquisa resultou no artigo A morte que salva vidas: complexidades do cuidado médico ao paciente com suspeita de morte encefálica, de autoria de Janaína de Souza Aredes, Josélia Oliveira Araújo Firmo e Karla Cristina Giacomin.
 
De acordo com o artigo, doenças provocadas por causas externas, especialmente oriundas de trauma, assumem expressiva relevância no âmbito das internações hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS). O aumento da violência urbana repercute na morbimortalidade da população brasileira e configura grave problema de saúde pública. Somam-se ao trauma, as doenças crônicas não transmissíveis que também concorrem para um número crescente de hospitalizações na urgência.
 
Nesse contexto, explica o artigo, para evitar a morte, desfecho que contraria e desafia os ditames biomédicos, adotam-se diferentes dispositivos médicos e institucionais a serviço da manutenção da vida. Nesse sentido, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e os Centros de Terapia Intensiva (CTI) assumem um importante papel: o primeiro assegura maior agilidade no processo de atendimento, e os segundos oferecem condições para a sustentação da vida.
 
A pesquisa observa que o cuidado médico pré- e per-hospitalar tem postergado a possibilidade da morte para o hospital, incluindo a morte encefálica, cujas causas mais frequentes são o traumatismo cranioencefálico e o acidente vascular encefálico. Todavia essas condições graves permitem a preservação da vida de outras pessoas por meio da doação de órgãos.
 
Os pesquisadores dizem que assume-se cuidado médico como um modo de reconstruir a atenção integral à saúde dos indivíduos, com base nos problemas e tensões identificados na prática profissional. “Para tanto, sua compreensão deve estar relacionada ao encontro alteritário de quem cuida e de quem é cuidado, resultante das experiências de ambos.”
 
Segundo a pesquisa, o processo de cuidado médico ao paciente em suspeita de morte encefálica ultrapassa questões normativas e envolve, sobretudo, o papel do profissional como mediador de uma miríade de elementos e tensões imbricados. Embora seja um conceito definido e legitimado, acrescentam os pesquisadores, na prática ele adquire interpretações controversas: a definição, a constatação e a comunicação da morte encefálica envolvem percepções ambivalentes dos profissionais e dos familiares.
 
Conforme relata o artigo, dada a complexidade da questão, sem desmerecer os limites e angústias do cuidado ao paciente vítima de morte encefálica, na formulação de políticas públicas na área da saúde a capacitação das equipes médicas quanto à morte encefálica não deve se restringir à legitimação do óbito e às melhorias nos índices de doação. “Ela precisa estar associada às concepções dos indivíduos acerca dos significados de vida e de morte, no seu contexto sociocultural. Isso inclui compreender os sentidos elaborados pelo próprio médico, que repercutem no cuidado ao paciente/potencial doador e aos familiares.”
 
O estudo verificou que o hospital pesquisado, de modo pioneiro no Brasil, tem dois leitos destinados à realização do protocolo para a confirmação ou não da morte cerebral e à definição da viabilidade de pacientes doadores de órgãos. Contudo, foi possível compreender que tais funções, legitimadas e delegadas ao médico, extrapolam objetivos meramente técnicos e burocráticos.
 
Segundo trabalho de campo da pesquisa, esse hospital é um dos maiores serviços públicos de pronto-atendimento ao politrauma e a queimados da América Latina, situado no hipercentro de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, estado brasileiro que tem a maior malha viária do país e grande prevalência de acidentes de trânsito.
 
 

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