ENSP lança Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde em Encontro de Saberes

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A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) realizará, de 26 a 28 de novembro, o Encontro de Saberes: Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória. O encontro marcará o lançamento do Núcleo de Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde (NEEPES), criado no âmbito da ENSP e que reúne pesquisadores de diversos departamentos e unidades da Fiocruz. Segundo o coordenador do Núcleo, Marcelo Firpo, o principal objetivo do NEEPES é o desenvolvimento conceitual e metodológico na articulação de três campos de conhecimento - a saúde coletiva, a ecologia política e as epistemologias do Sul - em torno das lutas sociais por saúde e justiça (social, ambiental, sanitária e cognitiva) das populações excluídas das cidades, campos e florestas. As inscrições para participar do Encontro devem ser feitas até 22/11, através do link: https://eventos.fiocruz.br/evento/encontro-de-saberes-ecologias-epistemologias-e-promocao-emancipatoria-da-saude

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O Encontro de Saberes: Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde marca não apenas o lançamento do Núcleo, mas a continuidade de uma trajetória de possibilidades ou emergências. De acordo com o coordenador do NEEPES, a ideia é avançar em experimentos sociais e epistemológicos emergentes que forneçam luzes ao desenvolvimento teórico e na construção de práticas sociais que apontem para sociedades mais justas e democráticas e que coloquem mais próximos sábios indígenas, quilombolas e camponeses como movimentos sociais urbanos e intelectuais engajados em resistências e transformações.

O NEEPES foi criado no âmbito da ENSP/Fiocruz em maio de 2018 e aprovado em seu Conselho Deliberativo. Trata-se de um núcleo com características interdepartamentais que reúne pesquisadores de três departamentos da Escola (Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana; Departamento de Endemias e, Departamento de Ciências Sociais), além de outras unidades da Fiocruz (Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fiocruz Ceará e Fiocruz Pernambuco). Há também uma forte parceria com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, dirigido por Boaventura de Sousa Santos.


O objetivo principal do NEEPES, de acordo com Marcelo Firpo, é desenvolver conhecimentos interdisciplinares, metodologias colaborativas e diálogos interculturais por meio de diversas linguagens (científicas, artísticas e populares) que apoiem lutas sociais por saúde, dignidade e direitos territoriais das populações excluídas das cidades, campos, florestas e águas.

“Um dos conceitos centrais do NEEPES é o de promoção emancipatória da saúde. Sua construção foi inicialmente cunhada para fortalecer as lutas por cidadania e dignidade das populações moradoras em favelas, e nos últimos anos ampliamos essa concepção para as lutas das populações dos campos, florestas e águas. A proposta de promoção emancipatória busca articular quatro dimensões de justiça: social, sanitária, ambiental e cognitiva. Além das justiças social (enfrentamento das desigualdades econômicas e políticas excludentes) e por saúde (vinculada ao movimento sanitário e à construção do SUS no Brasil), a novidade do Núcleo é incorporar as justiças ambiental (desigualdades espaciais frente aos direitos territoriais e aos riscos e vulnerabilidades impostos pelo modelo de desenvolvimento econômico) e cognitiva. Esta se refere ao reconhecimento e validação dos saberes não científicos de diferentes populações que lutam por existência e dignidade, como indígenas, camponesas, quilombolas, além das populações que vivem nas periferias urbanas do Sul Global”, explicou Marcelo. Ainda de acordo com o coordenador do NEEPES, por isso o trabalho interdisciplinar não é suficiente. Para ele, é preciso uma tradução intercultural com o uso de diferentes linguagens para que o diálogo entre academia e movimentos sociais seja efetivo para a transformação social.

As quatros justiças: social, sanitária, ambiental e cognitiva

Ao articular as quatro justiças, o Núcleo de Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde incorpora as contribuições de três campos do conhecimento: a saúde coletiva, a ecologia política e as abordagens pós-coloniais, em especial as epistemologias do Sul. Segundo Marcelo, o aprofundamento e articulação desses campos pelo NEEPES resulta de uma longa trajetória de pesquisas engajadas desde as décadas de 1980 e 1990, inicialmente voltadas à construção no SUS da área de saúde do trabalhador na temática da vigilância de ambientes e processos de trabalho. “Posteriormente, atuamos na construção da área de saúde e ambiente a partir de temáticas como a avaliação e gestão participativa de riscos ambientais, os acidentes ampliados e os desastres, vulnerabilidade social, justiça ambiental, conflitos ambientais, racismo ambiental e promoção da saúde nas favelas. Dessa forma, também dialogamos com várias áreas da saúde coletiva, como a promoção da saúde, a educação popular em saúde, a vigilância em (ou da) saúde”, citou ele.

De acordo com o coordenador, os últimos anos foram marcados pelos avanços dos dois programas de pesquisa e extensão que forneceram bases empíricas que culminaram na proposição do NEEPES. São eles o LTM (Laboratório Territórios em Movimento) e o Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil. Eles foram construídos paralelamente com diversos pesquisadores, ativistas, organizações comunitárias e movimentos sociais que vêm pautando os trabalhos acadêmicos no contexto de lutas sociais nos campos e cidades. Com a criação do NEEPES o principal desafio consiste justamente em como articular as lutas sociais por saúde e dignidade entre ambos os espaços, os campos e as cidades.

Cooperação Internacional

Recentemente o principal desenvolvimento teórico-metodológico que propiciou o amadurecimento necessário para a criação do Núcleo foi a aproximação com os referenciais das abordagens pós-coloniais e das epistemologias do Sul, concretizada com a cooperação desde 2006 com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Trata-se de uma proposta epistemológica e política para entender como a modernidade, em sua tríplice forma de dominação (capitalismo, colonialismo e patriarcado), mais que excluir trabalhadores explorados amplamente estudados pela teoria crítica no clássico conflito capital-trabalho, exclui radicalmente pessoas da condição de humanos e sujeitos portadores de direitos e saberes.

Outra questão, de especial relevância para o NEEPES, diz respeito a como realizar essa ecologia de saberes e o diálogo intercultural, dado que as linguagens científicas logocêntricas e eruditas não se aproximam das muitas formas de conhecer e sentir o mundo presentes no Sul Global por diferentes populações e culturas. “Para avançar nesse ponto as epistemologias do Sul propõem a construção de metodologias, mais que participativas, colaborativas e não extrativas, no sentido que os saberes científicos e não científicos possam produzir sinergias. Ambos compõem a ecologia de saberes, sendo considerados igualmente legítimos e articulados em contextos de luta por dignidade, validados pragmaticamente pelo poder de compreensão, diálogo, sentidos e resultados obtidos pela articulação entre tais saberes”, descreveu Marcelo. O principal problema da ciência e do mundo acadêmico, que um dos problemas da modernidade eurocêntrica, é se considerar superior aos outros saberes e, com isso, contribuir para os epistemicídios e o isolamento da academia das lutas por dignidade.

Por fim, Marcelo Firpo destacou que o NEEPES aposta em experimentos metodológicos e linguagens criativas no diálogo entre a academia, os movimentos sociais e comunitários. São exemplos as interfaces que envolvem simultaneamente saberes científicos e populares e expressos não apenas por textos formais do campo acadêmico, mas também por relatos gráficos e poético-musicais que serão exercitados no Encontro.

 

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