ACS fala sobre a situação dos profissionais de Saúde

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Em tempos de congelamento de recursos, sucateamento de hospitais públicos e intervenção militar, viver para as populações periféricas e faveladas é uma via crucis diária, porque é da morte que elas fogem o tempo todo. Morte por bala, nas filas do hospital, pela violência no trânsito, pelo abandono. Viver para a população mais pobre é artigo de luxo. 
 
Como sobreviver em um cenário de aposta no capital especulativo e na informatização dos serviços, onde a mão de obra barata não é tão necessária assim? Eis a questão. Viver não é preciso, nem necessário mais nesse projeto político atual, pelo menos para alguns. Esse é o dilema primordial das camadas populares: sobreviver em meio ao sucateamento da vida. 
 
Dentro desse contexto temeroso, o agente comunitário de saúde (ACS) Fabio Monteiro analisa sua realidade, que é a mesma de quem ele cuida. Ansiedade, medo, transtornos psíquicos, doenças adquiridas pelo profissional de saúde são potencializadas pelo ACS, que mora e trabalha em áreas de conflitos. 
 
Além das políticas econômicas e de segurança do governo federal, o município do Rio de Janeiro enfrenta o descaso com o serviço público de saúde. Cortes de recursos, de pessoal, privatização da saúde e da vaga para realizar exames. Mas o espaço está assegurado para quem fala em línguas e com a Márcia. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
 
 
Informe ENSP:Como anda a saúde dos agentes comunitários de saúde que moram e atuam em áreas de conflitos? Com a intervenção militar, a violência diminuiu ou aumentou?
 
Fabio Monteiro: A saúde dos agentes está muito ruim, a maioria está adoecendo, desenvolvendo doenças crônicas como hipertensão, diabetes devido à ansiedade, devido a transtornos psicológicos, devido a presenciar muitas coisas e não poder verdadeiramente fazer nada. Isso tudo gera uma angústia, porque o ACS constrói um vínculo muito forte com a maioria das famílias da sua área. Então quando você vê determinadas situações, e não consegue ajudar ou mudar aquela realidade somente com o SUS; isso realmente gera uma angústia muito grande. Somente a Clínica da Família não resolve problemas como saneamento básico, violência contra mulheres; então isso angustia muito. Sobre a questão da intervenção, ela em nada diminuiu a violência, ela veio para confrontar, e o confronto está mais do que comprovado que não traz resultados eficazes. Há pouco tempo, tivemos um ACS que precisou se jogar no chão para não ser baleado; várias casas são perfuradas, crianças que perdem as aulas, pessoas que perdem consulta no tiroteio não conseguem ir ao Posto de Saúde. Isso tudo devido a essa Política de Segurança, uma política que não resolve o problema na raiz; pelo contrário, vai ampliando. Temos crianças que perdem as aulas e não são repostas, muitas desenvolvem trauma psicológico por causa de toda essa violência. Como vai ser o futuro dela, como ela vai desenvolver, como vai competir nas universidades se a base dela aqui não foi boa? Essa política intervencionista colabora para aprofundar a desigualdade social.   
 
Informe ENSP:Com as mudanças no Plano Nacional de Atenção Básica e a possibilidade de flexibilização e precarização da categoria, como os agentes comunitários pretendem se organizar?
 
Fabio Monteiro: Então, com essas mudanças ficou muito difícil. O ministro da Saúde veio à Fiocruz, e nós fizemos uma grande mobilização com agentes de saúde, com a classe trabalhadora da Saúde, com o movimento Nenhum Serviço de Saúde a Menos, e, mesmo assim, não respeitaram a opinião do Ministério da Saúde. Nós estamos nos organizando, mas a categoria fica muito dividida, fica procurando novos caminhos, novos tipos de formação, e isso dificulta para gente poder se organizar. No curso técnico desie ano, os agentes se inscreveram menos. É um curso que capacita o agente de saúde para ele ser técnico, e esse curso tem algo muito forte na sua ampliação, porque ele traz um saber, faz com que o agente se apodere da sua categoria. Tem ACS que se formou, que deu declaração que sua perspectiva de vida mudou só por fazer um curso técnico. Tem pessoa que, quando entrou como agente de saúde há alguns anos, não tinha nem segundo grau. Então, elas passaram a estudar, se formaram e, logo depois, fizeram curso técnico de ACS.  Outras pessoas, vizinhas desses agentes, acabaram se espelhando: “Poxa, se ela conseguiu, se hoje é uma técnica de agente de saúde, eu também posso conseguir”, ou seja, o curso técnico ainda ajuda no desenvolvimento social dos moradores de territórios vulnerabilizados. Então, o curso técnico ainda ajuda no desenvolvimento social dos moradores de áreas de favela, de áreas mais vulneráveis, onde estão localizados esses agentes de saúde. 
 
Informe ENSP: Fale um pouco da capacitação dos ACS, quais são as instituições que apoiam e quais mudanças vocês proporiam para esses cursos?
 
Fabio Monteiro: A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) promove esse curso de capacitação, o Curso Técnico de Agente Comunitário de Saúde (CTACS). Este ano, abriram novas inscrições, e, por causa da luta da Comacs e do corpo docente, a gente conseguiu que, no edital, fossem colocadas algumas vagas exclusivas para os agentes de Manguinhos. A última turma com ACS aqui de Manguinhos foi praticamente há dez anos e foi muito boa. 
 
Informe ENSP: Faça um balanço da categoria nesses últimos anos.
 
Fabio Monteiro: Lutamos contra as Portarias 958 e 959, fomos até Brasília e conseguimos revogar as portarias. Nós fizemos aqui em Manguinhos duas caminhadas dos agentes de saúde em Manguinhos, como protesto pelos direitos da saúde, direitos dos ACS, contra o descaso do Crivella, contra os cortes, contra o atraso de salário de funcionários contratados pelas Organizações Sociais (OSs). Em Manguinhos, não fomos afetados com salários atrasados, mas permanecemos nessa luta por solidariedade a todos os nossos colegas. Isso deu origem ao movimento Nenhum Serviço de Saúde a Menos, e, consequentemente, Nenhuma Clínica a Menos e Nenhum ACS a Menos.  Todas as clínicas se uniram contra os cortes e criaram uma hashtag Mexeu com Um, Mexeu com Todos. Então, nós já tivemos vários momentos bons de luta e momentos de baixa. Este momento eleitoral é um deles. A categoria está muito dividida, está muito manipulada e, realmente, fica muito difícil nos organizarmos politicamente, mas, mesmo assim, estaremos juntos até o fim, não desistiremos. 
 
 
Informe ENSP: Faça um balanço da Semana do ACS 2018.
 
Fabio Monteiro: Nós tivemos uma baixa adesão de agentes de saúde aqui de Manguinhos. Nós pretendemos conversar, dialogar cada vez mais com a categoria para ver o motivo real da ausência, assim como no evento do campo da Varginha, onde nós corremos atrás, fizemos parceria com a Asfoc, com o Balé Manguinhos, com a Casa Viva, que levou o grupo Música na Calçada, com Recriando Manguinhos, com a Associação de Moradores da Varginha. Foi uma coisa muito espantosa – não sei qual seria a palavra exata para descrever –, porque reivindicávamos, por meio de uma faixa estendida sobre o palanque, para não tirar a saúde da favela, mas não foi nenhum médico da Clínica da Família, nenhum enfermeiro, nenhum técnico de enfermagem, não tinha ninguém que pudesse aferir uma pressão, não tinha promoção da saúde, que era a nossa intenção. Mas tivemos oficinas com o projeto arteirinhas, oficina de pintura com o Recriando Manguinhos, música e alguns agentes comunitários da Clínica Victor Valla e do Centro de Saúde. Fizemos algumas atividades de recreação com as crianças que estavam lá, mas nossa intenção mesmo era fazer uma ação que pudesse envolver toda a saúde. Mas nós vamos conversar com a categoria. Não desistimos, isso só foi um incentivo para que a gente continue a bater nessa tecla. Agora, é pensar nas estratégias, dialogar com a categoria e a gestão para que definitivamente a saúde não saia da favela. 
 
Informe ENSP: Crivella prometeu em campanha aumento nos investimentos da saúde, mas, como prefeito, tem feito vários cortes que afetaram a atenção básica. Como isso atingiu os agentes de saúde?
 
Fabio Monteiro: É importante falar sobre esses cortes na atenção básica, justamente nas Clínicas da Família, perto de 400 milhões de reais previstos. No início, falaram que só nas áreas menos vulneráveis como a Tijuca, mas eles estão esquecendo que o morador daquela área não vai deixar de ser hipertenso, diabético porque a clínica saiu de lá. Então, como esses idosos vão fazer o acompanhamento deles? Vão ficar à mercê da sua própria sorte, e isso é complicado demais, sem falar que outras clínicas de áreas vulneráveis já estão sofrendo cortes pelas suas OSs, e não estão sendo colocados como cortes por causa desse baixo repasse. O que nós estamos presenciando são agentes comunitários de saúde que estão sendo mandados embora e não estão sendo repostos. Aqui em Manguinhos, nós temos várias equipes sem agentes comunitários de saúde, e os que ficaram estão sobrecarregados, tentando cobrir essas áreas. Uma dessas áreas é a minha, equipe Harmonia. E a gente fica se perguntando: “Quando vai ser reposto?”. Isso não é divulgado abertamente na grande mídia, mas é o que nós estamos vivenciando, estamos vendo de perto aqui o sofrimento dos moradores. E a Semana do ACS vem para valorizar o agente comunitário de saúde, porque é ele que está ali dentro da favela vendo essas situações, esse sofrimento, a dificuldade para as pessoas terem acesso por falta de agentes. Seria ótimo, é um desejo nosso, se a Fiocruz abraçasse a Semana do ACS. A instituição está sempre nos apoiando, ajuda imprimir cartazes, ajuda em divulgações, mas a gente gostaria que assim como tem o Fiocruz para Você, eles pudessem abraçar essa Semana do ACS, e a gente pudesse fazer verdadeiramente um evento de promoção e prevenção da saúde aqui em Manguinhos, fora dos muros da Fiocruz. A gente já foi convidado várias vezes para fazer esse evento na Fiocruz, mas esse evento que a gente fez na Varginha, a gente faz questão de todo ano fazer, porque é lá que os moradores estão. Enquanto não acontece um grande movimento da Fiocruz no território, nós vamos construindo aqui na base, na nossa correria, no amor e na compaixão que a gente tem pela nossa comunidade, que a gente mora e trabalha.
 

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