‘Precisamos falar sobre suicídio’: Radis debate formas de prevenção

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A Radis de outubro fala sobre o sucídio. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o estigma em relação ao tema impede a procura de ajuda, que pode evitar mortes. Entre as recomendações estão não atribuir culpas, não informar detalhes específicos sobre métodos, não usar estereótipos religiosos ou culturais e não fornecer explicações simplistas.
 
A matéria de capa da Radis, do repórter Luiz Felipe Stevanim, esclarece que o assunto já foi considerado um “interdito” nos jornais: quando a causa da morte era o suicídio, em geral recomendava-se omitir a informação. Porém, desde 2000, a OMS oferece um manual de orientações para os profissionais da mídia sobre como abordar o tema. Segundo a organização, a abordagem de forma apropriada e cuidadosa pode prevenir outras mortes. Uma das preocupações é com o chamado efeito de imitação, em que um suicídio pode servir de estímulo para outros.
 
Entre 2007 e 2016, o Brasil registrou 106.374 mortes por suicídio, de acordo com os dados mais recentes divulgados em 20/9 pelo Ministério da Saúde. Em 2016, a taxa brasileira de suicídio chegou a 5,8 por 100 mil habitantes e representou uma alta em relação ao ano anterior (5,7), tendência observada desde 2011. Segundo a OMS, o suicídio provoca a morte de uma pessoa a cada 40 segundos no mundo, o que exige que seja encarado como um grave problema de saúde pública. Mesmo que o assunto seja complexo e nem todas as mortes possam ser prevenidas, ações de prevenção e de cuidado com aqueles que ficam têm um papel estratégico para evitar novos casos.
 
Stevanim relatou na matéria o caso de Júlia, que se matou no dia 24 de fevereiro de 2018, aos 27 anos. Sua mãe, Lígia Mastrangelo, moradora da zona oeste do Rio de Janeiro, entendeu, desde o início, que falar sobre o assunto iria ajudá-la a “sobreviver”. “Parece realmente que as pessoas têm medo de falar, como se fosse contagioso, como se fosse ‘atrair’”, desabafa. Segundo ela, fingir que nada aconteceu é deixar a filha “morrer de novo”. “Eu não tenho vergonha do que ela fez e nem vergonha de falar sobre isso. Ela tinha tratamento, amor, religião, atividade. Ela trabalhava, saía, surfava. Ela era linda, inteligente, competente. E eu não consigo imaginar qual foi a dor que ela sentiu naquele momento para ela tomar aquela decisão. Deve ter sido alguma coisa absurda, desesperadora”, considera.
 
Lígia conta que sua filha se tratava desde os 15 anos de idade. “Dos 15 aos 27, ela tentou o suicídio três vezes. A terceira tentativa ela fez aqui dentro de casa”, narra. A mãe costuma usar a expressão “morrência” para descrever esse processo de dor e sofrimento mental pelo qual a filha passou. “O ato, o momento em que é tirado a vida, é só uma continuação de toda uma morte que a pessoa vai tendo durante anos”, afirma.
 
Lígia é considerada uma sobrevivente ao suicídio, expressão que se refere tanto a quem sobreviveu a uma tentativa quanto a familiares, amigos ou pessoas próximas de quem se matou. As ações de saúde, cuidado e apoio voltadas para essas pessoas estão no campo chamado de “pósvenção”. “Passar por isso não é fácil, nem o que ela passou, nem o que eu estou passando. E sei que, assim como eu e ela, milhares de pessoas estão passando por isso nesse mesmo instante”, reflete.
 
A mãe de Júlia alerta que se alguém disser ‘Eu vou morrer, eu quero me matar’, não pense que ele está falando para chamar a atenção. Minha filha falou, pediu, eu fiz tudo que podia”, afirma Lígia. Para ela não existe culpado, nem raiva — apenas amor. “Eu como mãe de uma suicida só posso respeitar e me esforçar muito para tentar entender. Com muita dor. Com muita saudade, mas sempre tentando entender e aceitar”.
 
O repórter também ouviu psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras e pesquisadores sobre a questão. O suicídio deve ser encarado como questão de saúde pública, defende Carlos Felipe d’Oliveira, médico psicoterapeuta que trabalha há mais de 20 anos com o assunto. Carlos ressalta que é preciso romper com uma visão simplista sobre o fenômeno e lembra que ele é determinado por múltiplas causas. “O suicídio depende da interação de um conjunto de fatores de risco e de proteção. Nós estamos lidando com um fenômeno complexo que tem ações previsíveis e ao acaso também”, explica. Segundo ele, é uma questão que fala do sofrimento humano.
 
Para Mariana Bteshe, psicóloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a morte pelo suicídio é um ato violento que causa comoção e toca as pessoas. “O suicídio traz muitas interrogações sobre a vida e a existência humana. Faz você questionar seus valores, o modo como você lida com as pessoas, se você presta atenção quando alguém está triste e some da sua vida”, analisa.
 
Informação correta sobre o assunto é também um caminho que leva as pessoas a procurar ajuda. “O primeiro passo é que as pessoas percebam que, no momento de dificuldade, elas devem sim buscar ajuda e isso não é um sinal de fraqueza e sim de força”, destaca Patrícia Fanteza, porta-voz e voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização que trabalha há 55 anos com prevenção ao suicídio. A instituição oferece um serviço de telefone (pelo número 188), em que as pessoas podem ligar para conversar e desabafar sobre suicídio. A ligação é gratuita e respeita o sigilo e o anonimato. “Quando se expõe o assunto de maneira responsável e consciente, tem-se a possibilidade de trabalhar a prevenção e trazer informações para uma pessoa precisando de ajuda”, completa.
 
Patrícia ressalta que é preciso entender o sofrimento que leva uma pessoa a não querer mais viver. “Para chegar a ponto de dizer que nada mais faz sentido, a pessoa passou por um processo de sofrimento. Ninguém quer morrer, as pessoas querem matar a dor”, conta. Ela também pontua que é necessário superar alguns estigmas relacionados ao tema.
 
A Radis também traz uma entrevista com Carlos Felipe D’Oliveira, médico psicoterapeuta que atua há mais de 20 anos com o tema. Ele foi coordenador do Grupo de Trabalho que formulou a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, lançada pelo Ministério da Saúde em 2006. 
 
Para pedir ajuda
Ligue 188
O Centro de Valorização da Vida — CVV oferece um serviço gratuito de ligação telefônica para conversar. É anônimo e sigiloso.
Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio (GASS): goo.gl/TvKjzf
 
Livros
“Comportamento suicida”, de Neury J. Botega e Blanca G. Werlang
“Trocando Seis por Meia-Dúzia: O suicídio como emergência do Rio de Janeiro”, de Carlos Estellita-Lins (org.)
 
Internet
Ministério da Saúde: goo.gl/Vzi5FY
Centro de Valorização da Vida (CVV): www.cvv.org.br
Fiocruz: goo.gl/FFYHEF
“Prevenção ao suicídio — Um manual para profissionais da mídia”: goo.gl/gCPYPd
 
Em vídeo
“Suicídio no Brasil” (Videosaúde): goo.gl/7bhty8


 

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