Homenagem à Marielle reuniu familiares, amigos, artistas e ativistas no aniversário da ENSP

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A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) encerrou as comemorações do seu 64º aniversário, na quinta-feira, 6/9, com uma homenagem à Marielle Franco. A atividade teve início com a exibição do vídeo realizado pela ENSP na época da execução da vereadora; logo após, houve uma mesa que contou com a participação dos pais de Marielle, Marinete da Silva e Antonio Francisco Neto; o diretor da ENSP, Hermano Castro; o vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB), Rodrigo Correa; o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) Marco Menezes; e o presidente da Asfoc, Paulo Garrido.


Na solenidade, Marinete Silva agradeceu à ENSP pela homenagem e por levar o nome e o legado de sua filha cada vez mais longe. “A minha filha, além de ser um mito, vai para história como uma mulher de enfrentamento, de luta, de transparência, que fez uma política diferente, de muito amor”, afirmou. Antonio Francisco Neto comentou não ter o mesmo brilhantismo com as palavras como tinha Marielle, mas lembrou da trajetória de sua filha desde o pré-vestibular comunitário ao ativismo pelos Direitos Humanos. “Eu jamais imaginei ocupar uma mesa dentro da Fundação Oswaldo Cruz para falar para essas pessoas, porque, como eu disse no início, minha oratória é frágil, mas Marielle não; se ela estivesse aqui ocupando essa mesa, direito que lhe foi tirado pelo assassinato brutal e covarde, teria palavras mais diretas e contundentes”, disse Antonio Francisco. O presidente da Asfoc, Paulo Garrido, disse que o Sindicato fará uma homenagem à luta de Marielle contra a violência e lembrou o assassinato de Jorge Carelli, “também fruto da violência de Estado”, ressaltou Garrido.

O diretor da ENSP, Hermano Castro, enfatizou a falta que Marielle faz, ao mesmo tempo que nos serve de inspiração. Lamentou o episódio trágico com o Museu Nacional e relembrou os momentos em que Marielle participava de rodas de conversa com alunos da ENSP. “A penumbra que aparece na fumaça que queimou o museu representa aqueles que estão lá em Brasília, votando para reduzir os investimentos na saúde, na educação e passar para os banqueiros. Precisamos tirar essa penumbra do Planalto, uma vez que tem caminho e tem direção, e Marielle, certamente, vai nos esperar todo o tempo nesse caminho e nessa direção”, evidenciou Castro.

O vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas, Rodrigo Correa, fez uma saudação a todos os presentes e lamentou ter conhecido pouco Marielle pela importância que ela teve para nosso país. “Mas a luta dela vai estar comigo a vida toda, principalmente nesses últimos anos em que a gente vem sendo atingido de maneira brutal por todos os desmontes das nossas instituições”, afirmou. 

Para Correa, trabalhar no território de Manguinhos deu a dimensão do que é a violência no Brasil: “A violência ao negro é uma coisa absurda, a violência contra a população das comunidades é inaceitável, principalmente a violência contra as mulheres. As mulheres têm sofrido muito em nossa sociedade, e nós temos que, cada vez mais, lutar pelos direitos delas”, afirmou Correa. Ele também chamou a atenção para esse ano, que pode ser decisivo em nossas vidas: “Que a gente lute por tudo que nós conquistamos e para que nossos direitos sejam preservados em qualquer governo que a gente consiga eleger. Então, é importante que a gente exerça nosso direito de voto para fazer mudanças profundas e necessárias em nosso país”, finalizou.

Encerrando a mesa, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, Marco Menezes, evocou os 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos num momento em que “Vivemos em um mundo de grandes retrocessos oriundos da concentração de renda, da desigualdade crescente, e a luta da Marielle, como já foi colocado aqui, vai na contramão disso”. Menezes também parabenizou à ENSP pelas discussões realizadas, nesta semana de atividade, sobre os caminhos que podem ser percorridos para mudanças estruturais e ressaltou que a Fiocruz tem refletido sobre a questão da violência: “Sobre o que fazer, nós discutimos, desde segunda-feira, vários caminhos que passam por posicionamento institucional. A Fiocruz tem colocado a violência como uma questão de saúde pública, e queria também aproveitar esse momento e deixar um abraço solidário, caloroso para nossa presidente Nísia, que desde o primeiro momento está nessa luta”, destacou Menezes.

A parte cultural e artística contou com a recitação da letra da música “Pesadelo”, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, pelo artista e médico homeopata Pedro Jonathas, e as apresentações da Banda Filhas de Maria e do Coral da Fiocruz. O repertório escolhido pelos artistas combinou com toda a trajetória tanto de Marielle, como de muitos ativistas e cientistas na plateia, que resistiram e resistem aos descaminhos e retrocessos que se repetem como farsa nesse país.

Em uma época cinzenta, de queima de museus, história e memória em nosso país, essa reunião em torno do nome e do legado de Marielle nos traz – como disse o diretor da ENSP, Hermano Castro – inspiração para trilhar os caminhos necessários para as mudanças estruturais, que sejam socialmente mais justas e equânimes.
 

Filhas de Maria e o Sarau Abayomi de Mulheres

Se há um grupo que tem se fortalecido, apesar de toda a violência a que são submetidas, são as mulheres. Mesmo com todo o retrocesso que estamos passando, no Brasil, e em vários países, esse agrupamento identitário está em ascensão. Se nos anos 1990, as passeatas feministas contavam com poucas mulheres, a partir de 2011, esse número vem crescendo no mundo inteiro. Além de toda a luta das feministas, esse crescimento também se deve à maior articulação nas redes sociais digitais, como a luta das argentinas pela legalização do aborto, que virou a luta das mulheres de vários países, que acompanharam toda a movimentação e votação no Senado pelas redes sociais digitais.

Um dos frutos dessa ascensão e visibilidade se aproximou das feministas, um agrupamento de jovens mulheres negras, que são chamadas de Geração Tombamento. Elas vieram ocupar espaços sem pedir licença: academia, teatro, poesia, cinema, futebol, tudo o que quiserem e como quiserem. Para falar um pouco dessa geração, deixemos que elas façam suas narrativas.

Informe ENSP: Falem um pouco de vocês, das suas histórias.

Evelyn Boaventura:
Minha vida na música começou há uns três anos. Eu fazia parte de um grupo de percussão feminina, e lá foram abrindo os caminhos, as pessoas foram me descobrindo, minha amiga botou a boca no mundo falando que eu canto – minha amiga Luísa, que faz parte da banda. E estou aí nessa caminhada, lutando, amando, estou muito feliz.

Kassandra Verônica: Minha história na música começou com uma vontade louca que eu sentia de fazer alguma coisa acontecer. Então eu conheci o Sarau Abayomi, na casa do Nando, por intermédio de uma menina. O Sarau existe desde dezembro de 2017. Há uma casa na Praça Mauá, e, nessa casa, vários músicos se reuniam na época para fazer um som, cada um chegava e pegava seu instrumento e, de repente, a gente via que havia muitas mulheres fazendo isso. E tinha um momento que era só nosso, os homens acabavam saindo, e a gente ficava ocupando aquele lugar; daí surgiu essa ideia de a gente montar um sarau de mulheres para mulheres, produzido por mulheres, para que a gente tivesse todos os espaços, tanto dentro da música como da produção, e que cada uma pudesse mostrar seu trabalho, e não precisar de convites ou de homens, ou que a sociedade fizesse isso por nós; seria mesmo aquela situação de nós por nós. Foi assim que cheguei com elas preparando esse terreno para o Sarau Abayomi, e me senti à vontade para tocar. Eu tinha muita vergonha, desci o morro, desci o Complexo do Alemão e fui lá tocar.

Informe ENSP: Onde acontece o Sarau?

Kassandra:
Geralmente no Centro, mas a gente quer que seja itinerante. Fui ao Sarau e estavam Gabi e Luísa, elas eram tipo a banda do Sarau. Cheguei tímida tocando violão. Um dia, fui me apresentar, falei: “Será que a gente poderia marcar um ensaio?” A Luísa super fortaleceu, a Gabi também estava super animada para ter uma banda de mulheres, aí foi nascendo. Na casa da Gabi, a gente fazia os ensaios, foi aí que eu entrei na música, mas elas me deram essa força, porque eu era bastante tímida, e elas estão me dando força cada vez mais para entrar nessa e falar do que a gente passa diariamente. Também faço parte de um projeto chamado Casa Viva, em Manguinhos, e foi lá que comecei, estou há uns três anos, toco sax, violão. Também é um espaço muito incrível.

Informe ENSP: Foi lá que você aprendeu a tocar violão?

Kassandra:
Foi lá que aprendi, também com toda essa vontade. Lá, eles dão aula de graça para quem é da favela; então, me senti à vontade. Agora, a gente está estudando cada vez mais.

Gabi: Fala de onde você veio

Kassandra: Venho de Pernambuco, só que sou “acariocada”. Vim para cá com 3 anos, dezesseis anos aqui; dizem que sou carioca, mas não me considero não, porque a influência é muito grande dentro de casa, minha mãe pernambucana, meu padrasto cearense, meu pai está lá, e a favela é feita de negros e nordestinos, né?! Eu tento trazer essas influências para as minhas músicas, porque eu componho, e a gente vai chegar com novidade aí futuramente.

Gabi Assis: A minha história efetivamente com a música começou nessa casa, que nós, eu, Luísa Melo e Evelyn Boaventura frequentávamos. E comecei fazendo música com outras mulheres que também estavam lá; e efetivamente começou no Sarau Abayomi, porque, apesar de sermos pioneiras, abrindo espaço para as mulheres se apresentar, não havia mulheres acompanhando mulheres, e aí dessa necessidade, como nós já tocávamos, começamos a acompanhar as artistas que iam lá se apresentar. Eu tinha isso muito dentro de mim, de querer montar uma banda. Então comecei a botar pilha nas meninas (risos) e falar: Vamos! Temos que ensaiar, precisamos ficar juntas. Isso porque eu tinha percebido que tocar juntas, ali no improviso, casou muito, então falei: Cara, a gente precisa ensaiar e começar a levar isso a sério. E aí aconteceu infelizmente uma fatalidade com a morte da Marielle. Como ela faria uma participação no Sarau, decidimos prestar essa homenagem a ela e nos unimos, ensaiamos umas músicas que escolhemos a dedo, porque achamos que tinha a ver com o momento, e foi aí que a Banda Filhas de Maria surgiu lá em casa. Na época, não tinha nome, era a banda do Sarau Abayomi de Mulheres e, hoje, virou Banda Filhas de Maria.

Informe ENSP: O Sarau sempre teve esse nome?

Gabi:
Ele já se chamava Abayomi, porque Abayomi quer dizer um encontro precioso, e nós acrescentamos mulheres para ser um encontro precioso entre mulheres, para compartilhar mesmo e demarcar um território imaginário, para que os homens pudessem entender que aquele espaço era nosso, o protagonismo era nosso, e que, para chegar, eles teriam que pedir licença. Geralmente, acontece o contrário na sociedade em que a gente vive, dentro do patriarcado. Fizemos uma inversão, um lugar onde as mulheres se sintam à vontade e donas do seu espaço, era mais ou menos essa a ideia.

Informe ENSP: A primeira vez foi no Complexo do Alemão?

Gabi:
Não, o Sarau não chegou a ir ao Complexo, ainda.  Ele sempre aconteceu no Largo do São Francisco da Prainha, dentro das casas que têm ali. A intenção era fazer um sarau itinerante, mas a gente ainda não conseguiu essa organização.

Informe ENSP: Ele nasceu com a participação de homens e mulheres?

Luísa:
Ele já nasceu assim, só com mulheres. Nos encontros de mulheres, a gente teve essa ideia de oficializar e fazer um evento uma vez por semana, que a gente não precisasse pedir licença para chegar às rodas dos homens, para nada, que a gente tivesse um momento nosso, um espaço nosso.

Informe ENSP: Onde vocês moram?

Gabi:
Eu moro no Morro da Conceição, no Valongo.
Kassandra: Eu no Complexo do Alemão.
Luísa Melo: Benfica, Arará.
Evelyn: Santa Teresa.
 
Luísa Melo: Eu comecei na música profissionalmente com a banda, eu venho de blocos de Carnaval; Gabi também, né?!
Gabi: Esqueci de falar.
Luísa Melo: Semente de bloco, de rua, do Carnaval do Rio. Não posso deixar de citar o Baque de Mulher, porque foi onde comecei a conhecer um pouco do feminismo, do que realmente a gente estava vivendo dentro da sociedade. E, por meio do Baque de Mulher, eu tive essa força, por intermédio da nossa regente Tenilly, de mostrar o poder feminino.

Informe ENSP: Vocês se reivindicam feministas?

Evelyn: Não.
Kassandra: Não, depende, sei lá.
Luísa: Nem todas. Eu sim, eu me reivindico com propriedade.
Gabi: Ah, eu sou também!
 
Luísa: Eu nasci profissionalmente na música junto com a banda; eu cresci, e toda a minha evolução musical como percussionista foi com elas, e é isso. Minha vida já acabou aqui (ri).

Informe ENSP: Por que um Sarau só com mulheres?

Luísa: A ideia do Sarau foi para que nós mulheres pudéssemos sair de casa, montar essa rede pra gente se conhecer fora das redes sociais e conhecer o trabalho umas das outras: artista de poesia, de performance. Um lugar para gente sair de casa e não ser violentada, onde a gente vai se sentir à vontade para mostrar nosso trabalho.

Informe ENSP: Quem são as fundadoras do Sarau?

Luísa:
Gabi Assis, Evelyn Boaventura, Raquel Albuquerque, eu e Juliane Gamboa. Juliane Gamboa não faz mais parte do Sarau, mas como produtora, ajudou a idealizar. Por conta da carreira solo, ela é musicista e cantora, teve que acabar se desviando, mas ela também se apresenta no Sarau.

Informe ENSP: Então, o Sarau tem música, poesia.

Luísa:
Música, poesia, performance, e a gente abre um espaço também para expositoras, para as mulheres venderem seus trabalhos, artesanatos e outras atividades. O Sarau não tem fins lucrativos, a gente passa um chapéu durante as apresentações para ajudar a custear o Sarau, equipamentos, e para trazer mulheres de outros lugares, que não tenham condições financeiras para isso. Então, a gente se organiza nessa função também, para que a mulherada não fique longe das ruas e nem sem lugar para mostrar sua arte por conta do financeiro. A gente faz como se fosse uma roda viva.
 
Informe ENSP: Ele acontece uma vez por mês?
 
Luísa: Uma vez por mês, geralmente na segunda quarta-feira do mês, no Largo da Prainha. Começa às 19 horas e termina meia-noite. Acontecem as apresentações, que geralmente são das 20 às 22 horas, e, logo depois, vem o MIC aberto, o microfone aberto. É um momento em que o público, as outras mulheres que não estão na programação podem mostrar seu trabalho também, seja de poesia, de performance, de tudo. Esse também é o momento em que a gente permite “que os homens possam estar ali”. Nossa intenção não é excluir, é mostrar que a gente pode andar um do lado do outro, tem espaço para todo mundo; mas, naquele momento, o protagonismo é nosso. Então, eles vão poder entrar só naquele momento, depois com todo aquele respeito, pisar em ovos mesmo, saber o que vai falar, saber como agir, porque o lugar é nosso.

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