Museu Nacional: ruínas precoces, fiapos de esperança

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*Por Ricardo Ventura Santos
 
Exatamente neste ano de 2018, quando se comemora os 200 anos da fundação do Museu Nacional, também completo 25 anos como professor na instituição. Esse quarto de século de minha vida se transformou completamente após ler, num piscar de olhos, uma mensagem de celular de uma colega no domingo à noite indicando que o chamado Palácio estava em chamas. Os dois segundos da leitura da mensagem, que ficarão eternamente registrados na minha vida, foram acompanhados por duas horas de fogo que transformaram uma instituição de dois séculos em escombros. Macabra coincidência de temporalidades múltiplas.
 
Como milhões de outras pessoas, passei infindáveis horas daquela noite de domingo assistindo a um horripilante ballet de chamas. Iniciada na parte frontal direita do edifício, presenciei estarrecidos o caminhar da tragédia. Nós, professores, técnicos, alunos e estagiários, mesmo que fisicamente distantes, cada um em sua casa aterrorizado na frente de suas TVs, experimentou um cinema pessoal interno de angustiante sincronia.
 
No meu caso, quando as chamas chegaram à área que corresponde ao Departamento de Antropologia, as lágrimas já corriam desde muito, mas se intensificaram. Flashes passavam a todo momento em minha mente: aquela enorme labareda é a fogueira de livros que se transformou a biblioteca de antropologia social; o fogo daquela janela do canto emana dos documentos do Setor de Linguística ardendo; deus meu, as línguas de fogo que se projetam agora da terceira e quarta janelas do terceiro andar do lado oeste vem do espaço onde está a coleção de 10 mil documentos sobre a história da antropologia biológica que eu e dezenas de pessoas nos dedicamos a curar ao longo das últimas décadas; o fogo agora domina o primeiro andar do lado oeste, onde se situa parte da coleção óssea de remanescentes humanos, inclusive o crânio de Luzia.
 
O acervo da antropologia biológica do Museu Nacional, minha área de especialidade, era enorme, precioso, único. Certamente o maior do Brasil e um dos mais importantes do mundo. Diante das imagens, a sensação era se como eu pudesse ver a onda de calor se aproximando e calcinando cada uma das peças que nos últimos 25 anos cheguei a tocar, de algum modo, com minhas mãos. Um senhor fogo que, no transe causado pelas imagens, para mim caminhava de corredor em corredor, derrubava as portas, como se sabendo onde estava indo, até dar o arremate final na torre frontal esquerda, onde ficava a Direção.
 
Cedo na segunda-feira pela manhã, um dia belo, de sol radiante e céu azul, como centenas de colegas do Museu e centenas de cariocas indignados, estava diante do portão de entrada principal da Quinta da Boa Vista. A polícia continha a entrada das pessoas que buscavam chegar mais próximas do Palácio, muitas vestidas de preto e que choravam, em grupo ou simplesmente caminhando sozinhas, perambulando e buscando de algum modo entrar na Quinta.
 
Com meu crachá de professor, tive acesso por uma das entradas laterais. Cada vez que me aproximava mais do prédio, e ele surgia pomposo por entre as árvores, com as estátuas da fachada como que olhando sem entender aquela multidão no entorno, o nó na garganta ia aumentando. Foram muitos abraços e olhares profundos, olhos nos olhos, de colegas. Era difícil dizer o “indizível”. A comunicação predominante era aquela dos movimentos faciais: olhos vermelhos e bocas trêmulas de onde mal saíam alguns poucos sons. Na etiqueta acadêmica em geral pouco tocamos os corpos uns dos outros, usualmente não mais do que através de rápidos apertos de mão ou no máximo abraços protocolares, que se desfazem rápido. Na frente do Museu, foram abraços longos, quentes (ironicamente) e, na medida do possível dadas as condições, reconfortantes. Mais que nunca, a comunicação parecia mais completa e plena entre nós, que tão bem conhecíamos o que estava destroçado a nossa frente.
 
Sempre guardei em mim uma sensação particular de meu primeiro dia de trabalho no Museu Nacional em 1993. Havia feito concurso em 1992, quando fui contratado para ser professor e curador do Setor de Antropologia Biológica, que naquela altura não contava com docente responsável. A antiga professora havia se aposentado e uma das tarefas do novo docente era de dar atenção especializada à enorme coleção bioantropológica. Desde então, tem sido um processo de reconstrução e hoje contamos com uma sólida equipe de docentes e técnicos, além de dezenas de alunos e estagiários, que já passaram ou estão em atividades em nossos laboratórios. Com apoio dos demais colegas do Departamento, do Museu e da UFRJ, trabalhamos muito ao longo desses anos. Além das atividades de pesquisa em si, nos dedicamos a atrair recursos para realocar as coleções de remanescentes ósseos humanos, escrevemos projetos para a compra de novos armários e equipamentos e fizemos parcerias interinstitucionais para curadoria dos instrumentos históricos e dos milhares de documentos.
 
Nesses anos, trabalhamos nos limites de nossas possibilidades, mas também sabíamos dos limites que se colocavam. Compartilhávamos da perspectiva de que era absolutamente necessário descolar as coleções para prédios modernos e com estrutura adequada. O Palácio não reunia essas condições. Esse era um ponto amplamente conhecido (e reconhecido) e todos os bravos diretores e gestores do Museu Nacional que se sucederam ao longo dos anos defendiam e buscavam implementar com afinco.
 
Na segunda-feira pela manhã, diante do prédio com pontos de fumaça continuando a subir aqui e ali, chegou um dado momento quando optei por ficar sozinho por algum tempo. Decidi caminhar, arejar minha mente, se em alguma medida possível. Me distanciei do burburinho da multidão, dos bombeiros e do congestionamento de carros-pipa e fui dar uma caminhada no entorno do Palácio. Por ser um prédio imenso, o trajeto deve chegar a uns dois quilômetros. Nos meus 25 anos de Museu nunca tinha feito isso, mas dessa vez era como se fosse a única maneira de chegar o mais perto de minhas próprias memórias daquele lugar, já que não era possível passar pelas portas, corredores e salas internas do palácio que constituíam meu trajeto mais comum.
 
Foi uma caminhada longa e solitária, quando minha atenção se voltou cada vez mais para o conjunto das molduras em pedra das janelas da face oeste do Museu, onde estava boa parte do Departamento de Antropologia. Mesmo na tragédia, é incrível como pequenas coisas levantam esperanças dentro de nós. Podia ver que todas as janelas haviam sido destruídas, mas passei a reparar que algumas molduras tinham marcas de fuligem e outras não. Talvez ingenuamente, pensei comigo: será que o fogo passou rápido ali e não destruiu o que estava naquele espaço? Fiquei um bom tempo contando as janelas com e sem marcas de fuligem, querendo crer que o que estava ali dentro poderia ter sobrevivido.
 
Entre uma e outra janela, com menos ou mais fuligem, em minha mente brotavam também retalhos de acontecimentos que eu havia vivido dentro daquele espaço que, agora, só olhava de fora, estranhamento emoldurado. Num dado momento me recordei de minhas pesquisas sobre as relações entre o antropólogo Roquette-Pinto, que trabalhou no Museu Nacional entre 1905 e 1935, e o famoso escritor Euclides da Cunha. Um dos documentos que sempre me impactou nos Arquivos de Antropologia Física (perdido no incêndio) era o recibo original de entrada do cérebro de Euclides da Cunha no Museu Nacional, trazido para a instituição após a necropsia que se seguiu à sua morte em 1909. O cérebro permaneceu no Museu até os anos 1980. Prática comum na ciência do início do século XX, se imaginava que através da análise do tamanho, peso, circunvoluções e sulcos cerebrais seria possível compreender aspectos da genialidade humana (e também dos crimes e taras, a propósito).
 
Roquette-Pinto era um fervoroso admirador de “Os Sertões”, a obra mais conhecida de Euclides da Cunha. Nos anos 1990, quando passei a me interessar pela história da antropologia física/biológica no Museu Nacional, li praticamente toda a produção de Euclides, pois era central para compreender a antropologia de Roquette-Pinto. “Os Sertões” foi um dos poucos livros que o antropólogo do Museu Nacional levou em sua viagem de 1912, quando percorreu milhares de quilômetros da chamada Serra do Norte, no que atualmente Mato Grosso e Rondônia, e que resultaram em um dos mais importantes livros da história da antropologia do Brasil da primeira metade do século XX: “Rondonia: Anthropologia – Ethnografia”, de 1917. Toda a coleção etnográfica, linguística e de registros de antropologia física feita por Roquette-Pinto no âmbito da Comissão Rondon foi destruída no fogo de domingo.
 
De algum modo, Roquette-Pinto e Euclides caminharam ao meu lado naquele trajeto solitário no entorno do Museu na triste mas radiante manhã de segunda-feira. Como escreveu o crítico Francisco Foot Hardman sobre a obra de Euclides: “A história, nele… constitui essencialmente uma construção de ruínas; a obra civilizatória, dado o eterno drama do choque de temporalidades culturais, significa, também, um processo irrefreável de fabricação de desertos. A história desenha-se, afinal, nesse suceder de ruínas precoces…” (Estudos Avançados, volume 10, número 26, 1996, página 294). Difícil pensar em palavras transmitam melhor o que estava e estou sentindo. Da noite de domingo para segunda-feira nós, enquanto país, que em larga medida nos sentimos atualmente como parte de uma sociedade fracassada, violenta e desrespeitosa (ao mesmo tempo que desrespeitada), construímos em duas horas ruínas de 200 anos de história. De uma dor infindável e irreparável.
 
Por menores que sejam, eu e meus colegas temos esperanças. Bravamente, com capacete na cabeça, e com marcas de fuligem nos rostos, mãos e braços, já na segunda-feira alguns poucos de nós tiveram a permissão de entrar em alguns espaços do Palácio em companhia dos bombeiros. Avidamente, os que ficaram de fora queriam ver as fotos tiradas nos celulares dos colegas. Dominadas pelo preto da fuligem e em larga medida irreconhecíveis, eram imagens de espaços que antes conhecíamos tão bem, a ponto que poderíamos até caminhar por eles no escuro. Muitos dedos apontando para detalhes nas imagens. Aquele armário retorcido no canto da foto pode ser aquele que estava no terceiro andar e que guardava tal e tal material? Aquele outro ainda está fechado, pode ser que o fogo não tenha destruído o que estava no interior devido à menor concentração de oxigênio, como nos mencionou um bombeiro… Aquele importante crânio da coleção estava em uma caixa de metal lacrada nesse canto e talvez possamos localizá-la sob o entulho.
 
Não tenho ilusão acerca da escala e irreversibilidade da destruição do acervo do Museu Nacional. Mas há alguns fiapos de esperança aos quais iremos irremediavelmente nos apegar nas próximas semanas e meses, quando pudermos acessar as salas e, literalmente, escavar as várias camadas da precoce ruína que se tornou o nosso precioso Museu.
 
* Ricardo Ventura Santos é Professor Titular do Setor de Antropologia Biológica, Departamento de Antropologia do Museu Nacional. É também Pesquisador Titular na Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. Esse texto foi escrito em mais uma noite insone, dois dias após o trágico incêndio que que destruiu a instituição.

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