ENSP lamenta tragédia com o Museu Nacional

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A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, unidade técnico-científica da Fundação Oswaldo Cruz, lamenta profundamente a tragédia ocorrida, na noite de domingo (2/9), com o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Ao sentimento de tristeza, somam-se as sensações de revolta e indignação geradas pelo descaso e a negligência com os quais a cultura, a história e o patrimônio científico brasileiro vêm sendo tratados, em especial pela política de desfinanciamento das universidades federais e centros de pesquisa - em pauta nos últimos anos.
 
Além da destruição material de um acervo composto de mais de 20 milhões de itens de valor histórico incalculável, o incêndio arruinou projetos de vida, dissolveu o presente, extinguiu o passado e dizimou o futuro de alunos, professores, pesquisadores e profissionais, que, ao longo de décadas, dedicaram e dedicam integralmente suas trajetórias de vida a essa portentosa instituição. 
 
Ligada ao Museu desde 1976 e desenvolvendo trabalhos de pesquisa com os Sambaqui Cabeçuda e a equipe de Alena Ignez, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), a respeito dos aspectos paleogenéticos dos Guajajara do Maranhão, cujos ossos estavam resguardados no acervo perdido, Sheila Ferraz, vice-diretora de Pesquisa da ENSP, desabafou em carta à instituição. “Não é fácil lidar com perdas. Mas como lidar com perdas inestimáveis, irreparáveis, que levam partes de nós que não podemos restituir? Como lidar, ao mesmo tempo, com a perda de nosso passado, presente e futuro? Como podem tantos que ali trabalham enfrentar a realidade de que nada resta das suas salas, materiais e acervos formados, cuidados, estudados e organizados por uma vida inteira?” (confira abaixo).

Réquiem por nós mesmos
 
Trabalhamos toda nossa vida com museus e coleções científicas e bens culturais a serem preservados. Mas, principalmente, fez parte indissociável de nossas vidas e realizações profissionais o mais antigo deles, o mais contraditório e importante pela história e acervo, pelo que simbolizava e transmitia. O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. 
 
Cada dia das nossas vidas ligadas inexoravelmente àquele Museu, convivíamos com o pesadelo, todas as noites revisitado, do Museu em chamas.
 
Hoje, tantas décadas depois, esse pesadelo concretizou-se da maneira mais terrível. O incêndio que destruiu a maior parte dos acervos, do prédio e das almas de tantos que se dedicaram com desvelo àquela instituição levou pedaços de cada uma de nossas vidas, trabalho e alma...
 
Não é fácil lidar com perdas. Mas como lidar com aquelas inestimáveis, irreparáveis, que levam partes de nós que não podemos restituir? Como enfrentar, ao mesmo tempo, a perda de nosso passado, presente e futuro? De que maneira tantos que ali trabalham enfrentarão a realidade de que nada resta das suas salas, materiais e acervos formados, cuidados, estudados e organizados durante suas vidas inteiras. Acervos com que avançariam trabalhando com discípulos, seguidores, formandos...Como suportar a realidade de que todo o seu futuro foi destruído pelo mesmo pesadelo que destruiu seu passado?
 
Como resistir a esse vácuo imenso e aterrorizante de um pesadelo que tememos, dia após dia, querendo acreditar que não seria possível acontecer? Como superar agora, se, no futuro, só vemos o negro fumo do incêndio?
 
A perda de acervos, história e ciência aqui é coroada com uma inimaginável perda de pessoas. 
Cada um de nós, os que ainda estávamos lá, e os que estiveram de diferentes maneiras e por diferentes tempos, não temos ainda resposta. Imersos estamos em luto e incredulidade. 


 
Ao longo dos anos, temos acompanhado a luta de cada gestor e equipe fazendo o impossível para suportar, melhorar, sobreviver, realizar num Museu que morreu e ressuscitou incontáveis vezes. Que superou limites de desfinanciamento, desrespeito, incompreensão de governos sucessivos pouco atentos à cultura. Que sobreviveu a visões preconceituosas e distorcidas, explorado e apontado, pouco apoiado em tantas ocasiões, apesar de responder pelo Museu mais conhecido e amado pelo povo simples do Rio de Janeiro, referência de memórias infantis indeléveis, dos muitos milhares de visitantes que chegavam para o lugar de referência de todas as infâncias cariocas.
 
Como compensar a perda dos que toda a sua vida acompanharam os esforços para sobreviver, para recolher migalhas de um orçamento público que não considerava a relevância mundial do que o Museu guardava. Pelo menos isso, uma vez que seu significado, para a história do nosso Brasil, parece ter sido tão pouco relevante.
 
Como aceitar que os cortes públicos, reduzindo ainda mais nos últimos anos os recursos para esse Museu, últimos golpes de misericórdia na instituição, criariam as condições para esse desastre tão temido? Como aceitar que nos hidrantes, e nos outros aspectos que dependiam de distintas esferas de administração pública, tudo seria tão precário a ponto de não poder minimizar sequer o que todos assistimos desesperados?
 
Fazendo malabarismos improváveis, vimos as últimas gestões do Museu avançarem lentamente tentando manter a dignidade institucional e sua missão pública, como quem veste um casaco esfarrapado e, ainda assim, caminha altivo, com a cabeça erguida, do jeito que podiam. Dignos como nosso Imperador o foi uma vez no cenário da Exposição Internacional, em seu modesto pavilhão. Imperador Tropical, Museu Tropical. De todas as maneiras, fizeram muito mais que gerações de políticos com suas falas distantes de suas ações, raramente olhando, de fato, para este país. 
 
É preciso amar para cuidar, é preciso estar convencido de que é importante. É preciso ter clara a missão a cada passo da gestão. No Museu, testemunhei muito amor, dedicação e garra, como daqueles servidores que foram capazes de entrar no incêndio para salvar o que era possível. Nem todos tivemos chance de correr antes do fogo. Nem todos tivemos a sorte de ter acervos em outros locais. Nem todos teremos coragem de recomeçar.
 
Este é um réquiem por nós mesmos, e um réquiem por um país que cada vez mais parece que terá de começar do zero. 
 
Sempre há lições a serem aprendidas. Certamente, algumas delas são resistência e resiliência. Estão todos convocados a aprender a não esmorecer. 
 
De todo o Mundo chegam energia e solidariedade pela perda cultural, pela perversidade econômica e política, pelo sofrimento desnecessário e pela falta de rumos neste país chamado Brasil.
 

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