O Brasil e a experiência em emergências sanitárias

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“O que estamos aprendendo efetivamente com a nossa experiência em dengue, zika, chikungunya e febre amarela? Atualmente, estamos mais bem preparados para encarar uma nova emergência sanitária? Estamos, efetivamente, preparados para colocar em prática os planos de ação em termos de massa de população e sistemas de saúde? Eu vejo com muito ceticismo”, disse o pesquisador da ENSP, Sergio Rego, durante a mesa Emergências Sanitárias: um debate para a saúde coletiva e para as ciências sociais, no primeiro dia do 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – Abrascão 2018
 
Além de Sergio, que também é coordenador-geral do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva (PPGBIOS), a mesa contou com as presenças da pesquisadora da ENSP, Vera Pepe, e da historiadora da Ciência e pesquisadora do Centre de Recherche, Médecine, Sciences, Santé et Societé (Cermes) de Paris, Ilana Löwy. O debate foi mediado pelo coordenador das Ações de Prospecção da Fiocruz, Carlos Gadelha. 
 
Ilana Löwy alertou que a epidemia da zika acabou apenas temporariamente. “Ainda não sabemos muita coisa sobre a doença, e a epidemia deixou questões; a maioria delas porque não temos um bom diagnóstico da zika: Por que foi maior no Nordeste? Por quanto tempo dura o vírus nas relações sexuais? O quanto o vírus afeta o bebê no útero da mãe?”, disse ela ressaltando que temos que usar a epidemia como possibilidade de melhorar o tratamento e acompanhamento de mulheres grávidas, das crianças afetadas e desenvolver boas práticas para tal.
 
Sergio Rego ressaltou que o conceito de emergência sanitária que temos hoje vem da tradição médica em que se faz distinção entre emergência e urgência. No entanto, ele questiona se essa é a melhor forma de se entender o que é uma urgência no campo sanitário. “Com esse questionamento, foco basicamente na perspectiva da população envolvida, ou seja, na enorme dificuldade que temos de comunicação com a população para compreender efetivamente o que significa uma emergência sanitária. A compreensão popular é muito aquém da realidade, o que provoca problemas na hora de contarmos com a população em momentos de tomada de decisões”, comentou. 
 
O dilema da lagosta
 
Tradicionalmente, explicou Sergio, as emergências sanitárias são relacionadas a doenças infecciosas. Para tanto, ele apresentou o dilema da lagosta: “ Diz-se que, se você pegar uma lagosta e tentar cozinhá-la colocando em água fervente, ela lutará e tentará se agarrar nas bordas da panela até não aguentar mais e morrer. No entanto, se você a colocar em uma panela com água fria e aquecer aos poucos, a lagosta morre lentamente sem apresentar resistência. Então, a minha questão é: Por que devemos considerar o problema dos refugiados uma  emergência sanitária, mas consideramos nossas populações - pessoas que vivem em condições de miséria cada vez mais crescente, que sofrem com a falta de acesso a serviços de saúde, e têm que lidar com a incapacidade dos sistemas de saúde de responderem às necessidades que elas têm – um problema crônico e não de emergência? Quando reconheceremos essas questões como um problema de emergência sanitária? Porque seguimos deixando nossa população morrer lentamente”, expôs Sergio.
 
A zika é um iceberg
 
“A zika, para nós, é um iceberg”, disse Vera Pepe, explicando que sabemos pouquíssimo sobre a doença, ainda há muito a descobrir, e não temos a menor noção do quanto. “Não estamos nem vendo. Imagina sabendo”, ressaltou ela. Segundo Vera, em contextos de crises e incertezas, a vulnerabilidade dos vulneráveis, como comentou Sergio Rego, só aumenta. Inclusive essa questão está trazendo impactos demográficos, pois o número de nascimentos diminuiu em algumas regiões, apontou Vera. 
 
Infelizmente, destacou a pesquisadora, interesses comerciais também vêm a reboque das crises. “O plano nacional de enfrentamento à dengue, chikungunya e zika, desenvolvido em meio a uma crise, acabou facilitando a aprovação da pulverização de agrotóxicos, fazendo assim o controle de vetores sem atuar nas iniquidades, por exemplo. O Plano Nacional prevê diferentes eixos de enfrentamento, e as principais respostas do SUS foram parcerias e iniciativas intersetoriais, capacitação profissional, investimento em pesquisa e inovação tecnológica, criação de redes de atenção à saúde materno-infantil e de cuidado às pessoas com deficiência, ações educacionais, de inclusão e direitos das crianças e familiares, fortalecimento dos serviços assistenciais de referência para atendimento das crianças e gestantes afetadas, entre outros. 
 
O subfinanciamento, a produção de informações e a comunicação clara com a população, o monitoramento de novas arboviroses, dificuldade de integração das ações e serviços setoriais e intersetoriais, atendimento às novas demandas relacionadas a síndromes neurológicas, assim como desigualdade e precarização das condições de vida e saúde decorrentes da situação urbana, econômica e social foram apontadas como fragilidades a serem superadas. 

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