Estudo da ENSP aborda fatores associados à morte por tuberculose

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A tuberculose resistente a medicamentos (DR-TB) representa uma séria ameaça ao controle da tuberculose (TB) no Brasil e no mundo. Um estudo da ENSP, publicado no Cadernos de Saúde Pública de maio de 2018, investigou fatores associados ao abandono e óbito no curso do tratamento para DR-TB, em um centro de referência terciária na cidade do Rio de Janeiro. Os autores da pesquisa levantaram 257 casos notificados no Sistema de Informações sobre Tratamentos Especiais para Tuberculose (SITETB) de 1º de janeiro de 2012 a 31 de dezembro de 2013 e iniciaram o tratamento para DR-TB . Desse total, 139 (54,1%) alcançaram sucesso no tratamento, 54 (21%) perderam o seguimento e 21 (8,2%) faleceram. Segundo eles, a faixa etária acima de 50 anos foi o único fator protetor contra a perda de seguimento, enquanto menos de oito anos de escolaridade e reentrada após perda de seguimento foram considerados fatores de risco. Os dados do estudo reforçam o conceito de que a perda de seguimento na tuberculose resistente a medicamentos é um grave problema de saúde pública, e que um seguimento adequado do tratamento é necessário em pacientes com essa história e baixa escolaridade. Os pesquisadores observam que uma rede de apoio social para pacientes também é indispensável para evitar resultados desfavoráveis. 
 
O estudo também constatou que a idade de 50 anos ou mais está associada a menor risco de perda de seguimento e morte no decorrer do tratamento quando comparado com casos de 15-29 anos de idade, reentrada após a perda de acompanhamento no tratamento anterior e menos de oito anos de escolaridade foram associados com maior risco de perda de acompanhamento, e reentrada após a perda de acompanhamento no tratamento anterior e fracasso do tratamento foram independentemente associados com maior mortalidade no decorrer do tratamento entre os casos de DR-TB.
 
Durante o período do estudo, 21% dos casos foram perdidos para acompanhamento do tratamento para DR-TB, de acordo com os pesquisadores. Essa porcentagem é semelhante às taxas registradas em outros países, como Taiwan (29%), Uzbequistão (20%) e Argentina (20%). No entanto, as taxas são mais altas do que em outros países, por exemplo, Lituânia (13%), Rússia (12%) e Peru (10%). Os achados do estudo não são atípicos, dizem os pesquisadores, uma vez que uma meta-análise de mais de 9 mil pacientes encontrou 23% de perda total no seguimento. “Essas taxas ressaltam a necessidade urgente de entender melhor os fatores associados à perda de acompanhamento no tratamento da TB-DR."
 
Conforme o artigo Fatores associados ao abandono e ao óbito de casos de tuberculose drogarresistente (TBDR) atendidos em um centro de referência no Rio de Janeiro, Brasil, de Paulo Victor de Sousa Viana, Paulo Redner e Jesus Pais Ramos, em vários estudos, a educação tem sido associada à melhor adesão ao tratamento de drogas suscetíveis, uma vez que aumenta a conscientização sobre a doença. Assim, alerta o artigo, a baixa escolaridade geralmente está associada a um conjunto de condições socioeconômicas precárias, como falta de recursos, condições de vida insalubres e moradia superlotada. “Mesmo com apoio social e financeiro, tais condições aumentam a vulnerabilidade à tuberculose e estão diretamente associadas à baixa adesão ao tratamento.”
 
Os pesquisadores acreditam que qualquer associação subjacente entre pobreza e perda de acompanhamento nesta coorte poderia ser atenuada por esforços sistemáticos de programas para aliviar as barreiras socioeconômicas aos cuidados de saúde. 
 
A associação entre falha no tratamento e óbito, como demonstrado no estudo, ressalta as dificuldades no manejo clínico desses pacientes, uma vez que a falha do tratamento prévio sugere que esses pacientes tenham mais drogas resistentes em seu regime de tratamento. Assim, explicam os autores da pesquisa, os regimes de tratamento alternativo e individualizado devem ser considerados com base nos resultados dos testes de sensibilidade à droga no regime, para diminuir a probabilidade de esses doentes evoluírem para óbito.
 
Os investigadores recomendam estudos qualitativos para avaliar outros fatores que levam ao aumento do risco de perda de seguimento e como eles podem ser abordados diretamente com os pacientes, a fim de evitar novas perdas no seguimento e até a morte. “Apesar dessas limitações, o estudo fornece informações valiosas sobre os fatores associados à perda de seguimento e morte no curso do tratamento para DR-TB. Tal informação está disponível para uso, podendo ser utilizada pelos gestores do programa de controle da TB para otimizar o uso de recursos no SUS”, concluem.
 
De acordo com o Ministério da Saúde, a tuberculose tem cura, e o tratamento, que dura no mínimo seis meses, é gratuito e disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No tratamento, é preciso obedecer aos princípios básicos da terapia medicamentosa. O Tratamento Diretamente Observado (TDO) da tuberculose consiste na ingestão diária dos medicamentos da tuberculose pelo paciente, sob a observação de um profissional da equipe de saúde. O estabelecimento de vínculo entre profissional de saúde e usuário é fundamental para que haja adesão do paciente ao tratamento, e, assim, as chances de abandono sejam reduzidas. O paciente deve ser orientado, de forma clara, quanto às características da tuberculose e do tratamento a que será submetido: medicamentos, duração e regime de tratamento, benefícios do uso regular dos medicamentos, possíveis consequências do uso irregular dos mesmos e eventos adversos. Logo nas primeiras semanas de tratamento, o paciente se sente melhor e, por isso, precisa ser orientado pelo profissional de saúde a realizar o tratamento até o final, independente da melhora dos sintomas. É importante lembrar que o tratamento irregular pode complicar a doença e resultar no desenvolvimento de cepas resistentes aos medicamentos.
 

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