Vidas e direitos importam: ‘Radis’ de abril fala das experiências de resistência dentro das favelas

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Na reportagem de capa da revista Radis n° 187, de abril de 2018, o repórter Luiz Felipe Stevanim mostra "uma pulsante vida cultural nas favelas, que a violência diária insiste mas não consegue apagar. Jovens nascidos e criados nesses territórios dedicam seu talento na poesia, publicidade, arte de colorir paredes e nas mais diversas formas de criação musical para desconstruir a ideia de favela apenas como 'área de risco' e 'espaço do crime' e lutar para que as comunidades tenham acesso à educação, saúde, cultura, moradia, transporte, ao direito de viver". Segundo a matéria, muitos desses jovens dedicam também a sua formação profissional e acadêmica para lutar contra estigmas e preconceitos e abrir caminho nas universidades para os mais novos. "A favela simbólica ou concreta resiste criativa e vive rica em transformações, humanidade e solidariedade.” A Radis dedica essa matéria à socióloga Marielle Franco, criada na favela da Maré e eleita vereadora do Rio de Janeiro com a bandeira do respeito a todos os direitos humanos, que foi brutalmente executada na noite de 14 de março, dias após denunciar casos de violência policial.
 
De acordo com a Radis, são vários nomes que constroem experiências de luta por direitos e resistência dentro das favelas. Sabrina - conhecida como MC Martina - pede licença no busão para recitar uma poesia: “Você conhece a raiz do gueto?” É dela a voz que ecoa no silêncio do trem: “Ataque!” Não é tiro que vem por aí, nem assalto. Como num eco, outros respondem: “Poético!” De repente, surgem cinco ou seis jovens, a maioria negros, e uma delas recita os versos: “Em nome do amor, se oprime, reprime e ilude. / Em nome da paz instaurada, a guerra que mata um preto, dentro e fora da favela, a cada 23 minutos.” Ao terminar, ela se apresenta: MC Martina, 20 anos, poeta, rapper e produtora cultural do morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Alguns reclamam daquela voz que vem perturbar o silêncio, mas a maioria aplaude. Depois é no BRT. 
 
E a matéria continua o relato da apresentação no transporte público. Outra jovem negra dá o papo: “Apressado, a poesia podia estar ao seu lado/ Tenho o destino traçado pelas vozes do Estado / Boné afundado na cara / Mó cara de bolado”. Quem fala é Brenda Lima, 19 anos; e como ela mesma afirma, seus versos, carregados de gírias e expressões do morro, das favelas e das quebradas - diferentes nomes como a periferia é chamada -, refletem a luta e a resistência de seus antepassados.
 
Segundo a revista, os Ataques Poéticos nas praças, no transporte público e nas escolas são realizados pelo coletivo Poetas Favelados, um grupo de artistas da poesia e da música formados por jovens de diferentes favelas do Rio de Janeiro. Dentre eles, estão Sabrina Martina, Brenda Lima e o rapper Al Neg. “Nosso objetivo principal é levar a arte favelada, nossa cultura, informação e realidade para a galera que mora em periferia, mas que não tem acesso a esse tipo de literatura”, conta Sabrina. Para ela, as pessoas não acessam a arte, pois precisam trabalhar para sobreviver. “O Ataque Poético é um sarau itinerante, que vai ao encontro dessas pessoas. É muito interessante ver a reação delas. Muitas estão com um semblante abatido, a fisionomia cansada, e durante o ‘Ataque’, a gente vê a mudança”, relata.
 
Sabrina é nascida e criada no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, e Brenda mora em Petrópolis, na região serrana do estado. Ela e Brenda chegaram ao Ensino Médio sem perspectivas para o futuro. “Eu comecei a escrever poesia quando larguei a escola no segundo ano do Ensino Médio. Não me encaixava no modelo de ensino aplicado pelo Estado, que não estimula a pensar”, narra Brenda. Ela então conheceu a literatura de outras mulheres negras, como as escritoras Carolina Maria de Jesus e Elisa Lucinda, e decidiu que poderia fazer de sua própria poesia “uma forma de comunicação com o mundo”. “Eu sinto que, ao recitar, posso curar, alertar, denunciar, lutar”. Questões como racismo e violência aparecem em seus textos, segundo ela, como relato de “vivência própria”: “Não é sempre que falo, pois é algo que exige muita força, mas além de tudo aparece num tom de denúncia sobre o que meu povo sofre”.
 
Brenda lembra à Radis que, em sua poesia, não surge apenas a sua história, mas a expressão de “muitos de nós”. “Eu sou pelo que nós somos. Os meus irmãos interferem na minha arte e eu penso que posso e devo fazer por eles, intervir e trocar conhecimentos ancestrais que nos foram dados, tomados e que agora estamos retomando aos poucos”, afirma, lembrando um provérbio africano. Em um de seus versos, ela ressalta: “Eu sou a sombra dos meus ancestrais escravizados, sou poesia a chibatas, sou a música e dança que quase apagaram...” Em outra performance, ela se serve de um ponto de Umbanda para representar a orixá Oxum lavando os corpos dos meninos mortos. “Falo de todos nós, negros e negras vivos, fazendo sua arte, seu trampo, lutando contra o sistema que quer desde muito tempo nos ver mortos”, enfatiza.
 
A história de Sabrina não é diferente da vivida por Brenda, explica a matéria: ao terminar o Ensino Médio, ela se viu sem emprego e nenhuma fonte de renda. Depois de participar de um projeto organizado por um coletivo de comunicação na favela, o “Gato Mídia”, abriu os olhos para algo que nunca tinha notado: o que havia de bom dentro da própria comunidade. “Eu não sabia que existiam tantos favelados universitários e tanta coisa acontecendo dentro da favela”, conta. Daí foi um passo para se descobrir produtora cultural e participar da organização de eventos nas favelas do Alemão e da Maré.
 
Histórias como as de Brenda e Sabrina, que fazem poesia na favela, foram tema do filme “Meu fuzil é a poesia” (Grito Filmes), dirigido por Fernando Salinas e Victor Hugo Liporage e produzido por Cinthia Martins. O curta reuniu performances de diversos coletivos e poetas nas ruas, favelas e escolas do Rio de Janeiro. “A Suburbana estava marcada com sangue de João. / Quem dera fosse com migalhas de pão?”, sentenciam os versos do rapper Dyonnás Sykeira. Em conversa com Radis, Brenda afirmou que existe sim espaço para cultura na favela, mas esse enfoque não interessa ao Estado. “O que vende é a guerra e o massacre, a desigualdade, a falta desse olhar para a educação e para o resgate da nossa cultura”, avalia. Para ela, as pessoas querem cada vez mais se armar, mas o armamento “nunca foi garantia de paz e sim do caos”. “Cabe a gente fazer uma reflexão sobre nós que fomos afastados da nossa própria cultura e tivemos acesso negado ao direito de ser e estar, com um único objetivo: pretos contra pretos, pobres contra pobres se matando a mando do Estado, enquanto ele aplaude e fica com todo o lucro”, constata.
 
Leia na íntegra a matéria de capa da Radis. Acesse outras matérias da edição de nº 187 da Radis, de abril de 2018.

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