'Dia Mundial da Água' mobiliza a comunidade científica e a sociedade

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No próximo dia 22 comemora-se o Dia Mundial da Água. Em Brasília, até 23/3, ocorrem o 8° Fórum Mundial da Água, maior evento global sobre o tema  organizado pelo Conselho Mundial da Água, e o Fórum Alternativo Mundial da Água, promovido pela sociedade civil, que visam contribuir para o diálogo do processo decisório sobre o tema em nível global, e para o uso racional e sustentável desse recurso hídrico. A preocupação com a água vem de longe e afeta a saúde, além do clima, saneamento, desenvolvimento sustentável, entre outros problemas. De acordo com a pesquisa de autoria de Roberta Fernanda da Paz de Souza Paiva, da  Universidade Federal Fluminense; e Marcela Fernanda da Paz de Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, “a contaminação hídrica é um dos principais problemas ambientais enfrentados pela população, estando diretamente ligada a perda das condições de saúde dos indivíduos, especialmente nos grupos mais vulneráveis e regiões mais pobres.” Várias ações acontecem em alusão à data comemorativa. 
 
Segundo o artigo delas Associação entre condições socioeconômicas, sanitárias e de atenção básica e a morbidade hospitalar por doenças de veiculação hídrica no Brasil, os elevados níveis de poluição ambiental observados, atualmente, vêm acarretando perdas econômicas e de bem-estar da população, que se torna cada vez mais exposta ao acometimento de doenças relacionadas a variações na quantidade e na qualidade dos recursos naturais disponíveis. “A falta de saneamento ambiental adequado é tida como uma das principais causas da poluição e da contaminação das águas para o abastecimento humano e está, portanto, contribuindo para os casos de doenças de veiculação hídrica.”
 
As cientistas destacam que, no Brasil, as condições de saneamento ambiental, apesar de apresentarem melhoras nos últimos anos, ainda são deficientes. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, apenas 55% dos municípios brasileiros possuíam, em 2008, rede coletora de esgoto e, do total do esgoto coletado, apenas 68,8% passavam por algum tipo de tratamento antes de ser depositados nos corpos dos rios. Outros dados importantes da pesquisa indicam que até o referido ano o destino dos resíduos sólidos em 50,8% dos municípios eram os “lixões” e que em 12,8% dos municípios a água fornecida era apenas parcialmente tratada ou não passava por nenhum tipo de tratamento (6,6%).
 
Tal realidade não se verifica apenas no Brasil. Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2011, 64% da população mundial não contavam com instalações sanitárias melhoradas e 89% usavam água potável proveniente de uma fonte adequada, além de outras deficiências no sistema de saneamento.
 
O artigo aponta que melhorias na qualidade da água, no saneamento básico e nas condições de higiene da população poderiam reduzir os casos de doenças, sobretudo em grupos etários mais vulneráveis, como crianças e idosos. Estudos já realizados comprovaram a associação entre saneamento inadequado e casos de diarreia no Brasil e em outros países, como a África do Sul e países da América Latina, tendo em conta, na maioria dos casos, crianças e idosos.
 
Outro fator importante a ser considerado na ocorrência dessas internações, de acordo com a pesquisa, é a atenção básica, já que algumas doenças de veiculação hídrica encontram-se na lista brasileira de Condições Sensíveis à Atenção Primária (CSAP). Diversos estudos já encontraram associação entre a atenção primária e internações infantis no Brasil por CSAP e internações por CSAP em outros grupos etários no Brasil e por localidades específica.
 
Segundo dados do Datasus , em 2013, as taxas de internação (número de casos por 10 mil habitantes) por casos de gastroenterites infecciosas e complicações (grupo 2 das CSAP) nas regiões Norte (37,17) e Nordeste (35,44) foram maiores que os demais grupos da CSAP nessas regiões e superiores à média nacional (19,94). Os casos representaram ainda grande parte das internações totais por CSAP nas regiões Norte e Nordeste, sendo iguais a 26,6% e 28,15%, respectivamente.
 
O estudo conclui que as internações por doenças veiculadas pela água estão associadas às condições de saneamento básico, escolaridade e cobertura por serviços de atenção básica. As pesquisadoras sugerem que a adoção integrada de políticas de saneamento, a educação e a assistência à saúde, que considerem as desigualdades regionais, contribuirão para a melhoria das condições de saúde da população e dos indicadores de saúde para as referidas doenças.
 
Evento na ENSP discute participação social e uso dos recursos hídricos
 
A Cooperação Social da Fiocruz e o Observatório da Sub-Bacia do Canal do Cunha, em parceria com o Fórum Alternativo da Água (Fama) e o Comitê de Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara, promovem o seminário Da Nascente à Foz: Participação social e uso de recursos hídricos. O evento acontece nessa quarta-feira (21/3), das 9h às 17h, no auditório térreo da ENSP.  A mesa da manhã tratará dos espaços de construção e deliberação sobre água, e contará com a presença José Miguel da Silva, membro do Comitê de Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara (CBH-BG). Na parte da tarde, o foco do debate será o saneamento básico e a gestão de recursos hídricos. Serão apresentados os resultados da análise de amostras de água coletadas em casas de Manguinhos, trabalho da pesquisadora da ENSP, Adriana Sotero. Comporão a mesa Sandro Guedes, da Associação Pró-Gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap), e o engenheiro sanitarista Alexandre Pessoa, professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV). As inscrições serão feitas no local e haverá emissão de certificados de participação. Mais informações na página https://www.facebook.com/events/281770355691227/.

 
Mulheres ocupam Nestlé contra a privatização das águas
 
A sede da Nestlé em São Lourenço, Sul de Minas Gerais, foi ocupada por 600 mulheres sem terra nesta terça-feira (20/3). Elas denunciam a entrega das águas às corporações internacionais, conduzida pelo Governo Federal. Também alertam para as negociações que ocorrem no Fórum Mundial das Águas, em Brasília.
 
Conforme a denúncia de Maria Gomes de Oliveira, da direção do Movimento Sem Terra, a empresa, que controla 10,5% do mercado mundial de água, está instalada na cidade mineira desde 1994, quando comprou as fontes e o Parque das Águas de São Lourenço. Desde 1997, a população local denuncia a exploração das águas minerais que, antes de serem privatizadas, eram amplamente utilizadas para tratamentos medicinais. Além da redução da vazão, nota-se a mudança no sabor da água, ou seja, a exploração está fazendo com que ela perca seus sais minerais.
 
“A Nestlé se instaurou aqui há décadas e por décadas faz a exploração predatória e até irregular. A água é um bem comum da humanidade, defendê-la é uma questão de soberania”, explica Maria. “Apesar do presidente da Nestlé afirmar que não há superexploração, duas das fontes do parque já secaram. Segundo os dados oficiais da própria empresa, diz Maria, são sacados 19 milhões de litros de água por ano.”
 
Deputados lançam frente parlamentar para discutir políticas públicas sobre a água
 
Foi lançada no dia 16/3, na Câmara dos Deputados, a Frente Parlamentar dos Rios Brasileiros com o objetivo de discutir políticas públicas ligadas à oferta e ao tratamento de água, bem como alertar a população sobre o consumo sustentável desse recurso. A criação da frente, que reúne mais de 200 parlamentares, é uma resposta da Casa à crise da água no Brasil.  Durante a sessão, deputados pediram mais recursos para a aplicação da lei que estabelece diretrizes para o saneamento básico (Lei 11.445/07).
 

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