Seminário debate violência e saúde em periferias urbanas

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Luiza Gomes (Cooperação Social da Fiocruz)
 
"Minha terra tem horrores que não encontro em outro lugar / A falta de segurança é tão grande que mal posso relaxar" - foram os versos de alunos de uma escola da rede pública da Penha que oficializaram a abertura do seminário Impacto da violência armada na saúde dos moradores de periferias urbanas, promovido pela Cooperação Social da Presidência da Fiocruz na terça-feira (27), no campus Manguinhos. O evento contou com apoio do Programa Institucional de Violência e Saúde, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) e do Museu da Vida da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). As pesquisadoras Adalgisa Peixoto e Fernanda Serpeloni, do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), da ENSP, participaram da primeira mesa do encontro.

 
O seminário recebeu pesquisadores, Agentes Comunitários de Saúde (ACS), especialistas da área de saúde mental e movimentos sociais para discutir os modos pelos quais o contexto de permanente insegurança em territórios vulnerabilizados influencia na saúde dos que moram e trabalham. Outros dois eventos sobre temas análogos estão previstos ainda para esse ano. 
 
Na mesa 1, com o tema A violência armada como determinação social da saúde de moradores das periferias urbanas, fizeram exposições os ACS Anastácia Santos e Jorge Nadais, e as pesquisadoras do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Adalgisa Peixoto e Fernanda Serpeloni.
 
Anastácia Santos começou sua exposição com um dado: em março, de 23 dias úteis, em apenas oito não foram notificadas ocorrências por incursões policiais na região. Em sua fala, Anastácia também questionou a formação dada aos agentes. “A maioria dos ACS têm hipertensão, muitos são diabéticos, têm problemas psicológicos, síndrome do pânico. Temos que problematizar que tipo de capacitação está sendo feita com esses trabalhadores que moram, trabalham e vivem essa realidade tão intensamente”, questionou. 
 
O estado de suspensão de direitos dos que moram em favelas e periferias urbanas foi o assunto que comoveu a fala de Jorge Nadais, uma das lideranças dos ACS. Em sua opinião, as políticas públicas tratam a favela como um “não-lugar” e a vida dos moradores como sem valor.  “Pode ter valor no discurso político de um populista, na academia, mas quando morre alguém, é mais um na estatística. Só a mãe que vai chorar”, exemplificou.
 
Ele destacou que “com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), a dinâmica mudou, a operação tinha horário para acontecer, hoje não tem mais. Você é surpreendido. Trabalha sempre estressado, olhando para o lado”.
 
A hipervigilância é um dos sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Síndrome de pânico, dificuldade de concentração, insônia, dores de cabeça e alcoolismo são outras alterações metabólicas e comportamentais associadas à exposição contínua à violência ou a situações que representem ameaças reais à vida.
 
“As consequências não fatais da violência costumam ser ainda maiores. As marcas invisíveis não são tão invisíveis assim. Afeta as relações familiares, o desempenho escolar, as relações sociais, e de trabalho”, explicou Fernanda Serpeloni. 
 
Antes de chegar ao Claves e ao Instituto Nacional de Saúde da Mullher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Fernanda trabalhou com refugiados de guerra, vitimas de torturas e perseguições políticas. Segundo suas pesquisas mais recentes, o impacto da violência armada em famílias residentes em territórios periféricos é semelhante ao sofrido por aqueles grupos sociais.  


Enfocando os aspectos da violência com uso de armas de fogo, Adalgisa Peixoto, também do departamento, apresentou dados preliminares de sua pesquisa, que investiga as redes formais e informais existentes de apoio às vítimas indiretas (familiares e amigos) desse tipo de violência, que deve ser publicada em outubro da Revista Ciência e Saúde Coletiva. Entre outras bases de dados, foi consultado o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), do Ministério da Saúde. Como desdobramento da pesquisa, é prevista a produção de material de apoio ao trabalho de profissionais da saúde e assistência social na atenção a esse público. 
 
Educação, Cultura e Luta Social contra a violência armada na favela
 
Membro da Equipe Clínico-Jurídica do Grupo Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro e professor e pesquisador da EPSJV, Marco Aurélio Soares Jorge narrou sua experiência com um grupo de pacientes encaminhadas pelo serviço de saúde na Fiocruz. Segundo ele, o grupo, constituído ocasionalmente apenas por mulheres, tornou palpável o quanto a violência, sob as mais variadas formas, “deixam histórias escritas no corpo”. 
 
“Eram queixas de alergias diversas, insônia, algumas tinham diarreia... Traziam história de violência intrafamiliar, violência policial; de parceiros que se envolviam com o narcotráfico e se tornavam agressivos”, contou. A experiência foi refletida em sua tese de doutorado pela Ensp, intitulada Produção de sintomas como silenciamento de doença. 
 
Sobre as violências sofridas por moradores de um território em contexto de permanente insegurança, Edilano Cavalcante, coordenador do jornal Fala Manguinhos e morador da região, foi categórico: “Moro em um lugar que é feito e pensado para se viver o luto”. De acordo com ele, mais de um terço das postagens do jornal nas mídias sociais, de janeiro a junho, foram informando sobre incursões policiais e aviso de tiroteio nas 15 comunidades do Complexo. Ele também questionou o silêncio dos grandes veículos de comunicação acerca dessa realidade. 
 
O depoimento de Daiana de Oliveira, diretora social do projeto social Ballet Manguinhos, corrobora a fala do comunicador popular. Aos 18 anos, saindo para a faculdade, deparou-se com o corpo sem vida de um senhor em frente à sua casa. O impacto que o fato teve em sua vida a direcionou para atuar criticamente em relação à violência. O projeto de dança possui a proposta pedagógica de promover a cidadania e hoje atende 211 meninas, com uma lista de espera de 500 interessadas.
 
André Lima, conselheiro de saúde, membro do Conselho Comunitário de Manguinhos e colaborador da Cooperação Social da Presidência, fez um resgate histórico sobre momentos da história da interação entre Fiocruz e território desde a década de 1990.
 
Como parte das atividades do Programa de Promoção de Territórios Urbanos Saudáveis (PTUS), da Cooperação Social da Presidência, serão organizados mais dois seminários, oficinas com moradores e estudantes de Manguinhos e uma pesquisa sobre a percepção social dos moradores e trabalhadores da região acerca dos impactos da violência armada na saúde está em andamento desde o começo do ano. O programa tem como uma de suas metas a prevenção às violências em territórios urbanos. 

Foto: Peter Ilicciev

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