Violência e Saúde: tema pautou sessão técnico-científica do Centro de Saúde

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O Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP) realizou, na quinta-feira (29/9), no auditório térreo da ENSP, a sessão técnico-científica Violência e Saúde na Estratégia de Saúde da Família. A atividade apresentou a pesquisa coordenada pelo Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Carelli (Claves/ENSP), produzida em dois serviços de saúde que atendem à região de Manguinhos. A pesquisadora e coordenadora científica do Claves/ENSP, Cecília Minayo, iniciou o debate a respeito dos dados do estudo apresentados por Fernanda Mendes, pesquisadora desse Departamento. O evento contou, ainda, com Eliane Vianna, chefe do CSEGSF, Simone Peres, da Coordenação de Área Programática da Saúde - CAP 3.1, Cíntia Gouveia, diretora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS Nelson Carneiro, e Sandra Guedes, Conselheira Tutelar de Ramos, que atuaram como debatedoras.
 
Como estratégia de sensibilização acerca das violências e, principalmente, para chamar a atenção sobre a campanha mundial #setembro amarelo, de prevenção ao suicídio, os profissionais da residência multiprofissional da ENSP realizaram esquete e leitura de texto abordando o tema. 
 
Fernanda Mendes apresentou o estudo cujo objetivo é compreender o modo pelo qual as violências têm afetado o desenvolvimento da estratégia de saúde da família em Manguinhos, quais expressões percebidas e ações têm sido efetuadas para seu enfrentamento. Pretende-se ainda estimular a sensibilização sobre o tema e o fortalecimento das redes de proteção às violências. 
 
Cecília Minayo destacou que a violência é uma forma de comunicação com múltiplas causalidades. No que diz respeito ao trabalho de visita domiciliar, realizado em grande parte pelo agente comunitário de saúde, a pesquisadora descreveu: “Quando você observar, por exemplo, que a mãe bate na criança ou o pai grita muito com os filhos, prestem bastante atenção, pois, com certeza, naquela casa, não apenas a criança que é violenta, nem só o pai violento, nem a mãe: todos são. Quer dizer, existe ali um ambiente, uma cultura, em outras palavras, a transmissão da violência como forma de comunicação, de vida. Portanto, ao estar presente na família, ela transcende a essa família. Os estudos feitos por nós sobre essa questão da violência familiar mostra sua transmissão como uma cultura.” 
 
Minayo completou. “Outra questão da violência como forma de comunicação é quando nós mesmos naturalizamos a violência no cotidiano. Tratar de qualquer maneira, silenciar e não colocar a violência em voga é uma forma de comunicação. Portanto, é importante falar sobre a violência para que ela seja visibilizada, e não tratada como tabu. Muitas vezes, o sofrimento está muito além do que chega ao serviço. O usuário não chega ao atendimento com demanda por conta da violência, e sim por problema de saúde. Por isso, é importante destacar que a Organização Mundial da Saúde, desde 2002, colocou a violência como grande problema de saúde pública. Nossa tarefa, na pesquisa, é descobrir não só o que precisa ser feito, mas também da riqueza do que já é feito, do que se pode aportar disso ao trabalho. 
 
Eliana Vianna enfatizou a relevância das estratégias das quais os profissionais lançam mão para que o cuidado aconteça, além da importância de entendê-las dentro da cultura de cada um. A violência não é um tema fácil de lidar, não há fórmulas, mas a construção deve ser coletiva. “É no diálogo que teremos a oportunidade de construir alg,o e essa troca é importante”, alertou.
 
Simone Peres pontuou o trabalho realizado nas 38 Unidades de Saúde acompanhadas pela CAP 3.1. “Fiquei feliz com os resultados da pesquisa, porque demonstrou que a violência está sendo percebida, e vocês estão pensando em estratégias. Nas capacitações, sempre pergunto às equipes o que elas mais notificam. A violência nunca vem como primeira resposta. Vale ressaltar que a saúde não tem papel policialesco, e sim papel na Política Nacional de Atenção Básica, na Política Nacional de Promoção da Saúde. Essa informação sobre violências é importante para a vigilância. Tenho visto essa questão, mas não tenho observado estratégias de promoção da saúde. A abordagem tem que ser pela promoção da saúde, e a CAP tem fortalecido as equipes nesse sentido. Desde 2013, temos desenvolvido projeto de prevenção à violência com a produção do Guia de Recursos Sociais para enfrentamento à Violência Doméstica da AP 3.1, fluxograma para atendimentos dos casos de violência, cursos de enfrentamento à violência, workshops e oficinas. Este ano, estamos mais juntos das equipes, com projeto piloto para capacitação em serviço. Trabalhar com a violência, pensando na promoção da saúde, é o melhor caminho hoje.”
 
Segundo relato de Sandra Guedes, há seis meses, ela vem desenvolvendo trabalho como conselheira de Ramos. O papel do órgão é lidar diretamente com os direitos de crianças e adolescentes, principalmente a partir de denúncias. Não tem caráter punitivo, nem de polícia. Reforçou que não é atribuição do Conselho a realização de visitas domiciliares, mas é importante lançar mão de diferentes estratégias para acessar as famílias. Neste contexto de violência desenfreada dentro das comunidades, a família é a principal violadora dos direitos das crianças. Todos os tipos de violência estão presentes no dia a dia dos conselheiros, e muitas dificuldades são enfrentadas na realização desse trabalho.
 
Cíntia Gouveia pontuou, pelas falas, a não realização de muitos encaminhamentos para o Creas, e há certa confusão entre esse serviço e o Cras. De acordo com sua explicação, o Creas é um serviço especializado para crianças e adolescentes, com necessidades especiais, egressos do sistema penitenciário e vítimas de violências em geral. “Recebemos muito mais encaminhamentos que demandas espontâneas. Atuamos sempre com as Unidades de Saúde. Em Manguinhos, é muito latente pela questão das drogas e violência urbana. A gente não faz recolhimentos. Não trabalha com essa perspectiva. Aqui a população de rua muito grande. Temos trabalho de abordagem oferecendo os serviços disponíveis, como programas sociais e acolhimento institucional. Também não há caráter nem punitivo, nem policialesco.”
 
Durante o debate, foram apresentados comentários sobre o contexto local e as violências, dúvidas acerca das estratégias de enfrentamento à violência, críticas sobre o papel do poder público e sugestões para os serviços no fortalecimento de atividades educativas e de promocionais da saúde. Ao final do debate, Eliane Viana, chefe do CSEGSF, encaminhou proposta de reunião entre os órgãos que atendem à população local e trabalham a questão das violências. A ideia é realizar, no espaço do Conselho Gestor intersetorial – CGI, o qual funciona na forma de Conselho Territorial de Saúde de Manguinhos. Esse espaço coletivo tem reuniões mensais e já conta com a participação de instituições da assistência social e educação. A perspectiva é que outros órgãos possam participar de uma discussão ampliada sobre estratégias de enfrentamento às violências, para fomento de uma rede de proteção local. 

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