Aniversário da ENSP celebra 30 anos da Oitava Conferência Nacional de Saúde

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Como costuma acontecer nos aniversários, bastava um olhar para o Auditório térreo da ENSP na segunda-feira, 12 de setembro, para perceber que o clima era de reencontro entre velhos amigos. Abraços efusivos, apertos de mão, risadas. Todos estavam ali para celebrar os 62 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, que escolheu como tema dos festejos os 30 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde.  Em uma Escola marcada pelo pensamento crítico e ação transformadora na vida pública do país, nada mais natural, porém, que, em meio à festa, nascessem reflexões importantes para se pensar a conturbada conjuntura política atual.


Conforme Hermano Castro, diretor da ENSP, lembrou, durante a mesa de abertura, embora cenários políticos adversos não sejam incomuns na trajetória da Escola, não imaginava que os 62 anos fossem celebrados em um panorama como o atual. 
 
- A ENSP passou por muitos momentos difíceis ao longo desses anos. Momentos em que a nossa república foi subtraída. Parece que é o que está acontecendo novamente. Que, ao longo dessa celebração, a gente faça um percurso pela história da saúde pública deste país, para nos lembrarmos que a história é feita com homens, mulheres, índios, negros, as comunidades do nosso entorno, que estão abandonadas. Os cumpleanos são sempre bem-vindos, mas é uma felicidade conquistada a cada dia, desse lado da trincheira onde temos que estar. Quando propusemos o tema da "Oitava", queríamos resgatar seus princípios e valores, mas não imaginávamos que estaríamos vivendo esse golpe jurídico/parlamentar. 
 
Desfeita a mesa de abertura, foi exibido o vídeo "Oitava, a conferência que auscultou o Brasil", produzido pela equipe de jornalismo da ENSP.

 

Seguido ao vídeo, foi feita homenagem ao professor Hésio Cordeiro, um dos nomes de destaque na construção da Oitava Conferência e na luta pela saúde como um direito de todos. Tanto quanto a escolha de Sergio Arouca para a Presidência da Fiocruz em 1985, a chegada de Hésio à Presidência do Inamps foi um marco na redemocratização das instituições de saúde nos anos 1980, que resultou nas conquistas da Constituição de 1988. Ao receber a homenagem, Hésio lembrou da importância de se manter acesa a chama das lutas sociais.

- Hoje relembramos alguns dos princípios do SUS que nos empolgaram. É preciso dizer que esses mesmos princípios continuam nos empolgando.

Além de Hésio, também foram homenageados Ana Maria Costa, Ana Maria Meirelles Palma, Arlindo Fábio de Souza, Ary Miranda,  Francisco Braga, Jaime Antonio Oliveira, Karla Cristina Chrispim, Manuel Caetano Mayrink, Mario Roberto Dalpoz, Paulo Gutierrez, Paulo Marchiori Buss, Sarah Escorel, Silvia Disitzer, ChristinaTavares e Ziadir Coutinho.

Paulo Buss aborda importância histórica da Oitava 

Encerrando a parte da manhã do primeiro dia de comemorações, Paulo Buss, atual diretor do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz) e um dos integrantes do comitê assessor da Oitava Conferência Nacional de Saúde, fez uma palestra sobre a importância histórica da conferência. Em sua fala, traçou um panorama das lutas pelo direito à saúde lembrando as sete primeiras conferências. Com exceção da terceira, realizada no próprio Auditório térreo da ENSP, em 1963, tendo João Goulart como presidente em seu último ano antes de ser deposto pelo golpe militar de 1964, todas as outras conferências tinham sido bastante restritas no que diz respeito às propostas que caminhassem na direção de uma saúde voltada para os problemas da população brasileira. 



Falando sobre a Oitava Conferência, Buss lembrou da força dos debates que ela provocou, embasados em pelo menos uma década de construção de massa crítica nas escolas de saúde pública e em organizações da sociedade civil, como o Centro de Estudos Brasileiros em Saúde (Cebes) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). O documento produzido na conferência, para Paulo Buss, sintetiza com clareza esse pensamento e suas proposições. 
 
- Esse relatório faz um corte na saúde pública brasileira, que vai desde muitas décadas antes de sua elaboração e chega aos dias de hoje. Montou-se ali o que se chamou, mais tarde, de constituinte da saúde. Alguém escreveria algo melhor do que isso 30 anos depois? Esse relatório deveria ser leitura obrigatória para quem entra na Fiocruz.
 
Ao fim de sua fala, Buss trouxe à tona um dos temas críticos da trajetória que leva à construção do Sistema Único de Saúde: seu desfinanciamento. O diretor do Cris tocou num ponto chave do problema ao falar da dívida pública brasileira, discussão que volta à tona quando o atual governo fala em ajuste fiscal, mudanças na Previdência e privatização de setores da saúde.
 
- Boa parte do dinheiro que poderia ser dirigido para a saúde pública, não tenham dúvida, é usado para pagar uma dívida que jamais foi auditada. Onde estão os economistas da saúde? Onde estão nossos epidemiologistas para mostrar que o dinheiro que poderia ir para as vítimas do Zica vírus vai para pagar uma dívida que o Brasil sequer auditou uma única vez? Onde estão os grupos de estudo para mostrar a consequência da falta de vacinação, tudo para que se pague uma dívida impagável e facilitar tributos de empresas que interessam ao governo?
 

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