Cesteh 30 anos: último debate discute as perspectivas da formação em Saúde do Trabalhador

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*Pedro Leal David

Foram três dias (9, 10 e 11/12) de discussões sobre pontos de vista teóricos, propostas de intervenção prática, além de boas lembranças e homenagens. Os 30 anos do Centro de Estudos do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) trouxeram alento e novas ideias para um debate que se faz a cada dia mais urgente, com os desastres ambientais e a precarização das condições de trabalho se agravando. A mesa que encerrou a festividade discutiu formação em saúde do trabalhador: políticas e perspectivas e contou com a presença de Elisabeth Costa Dias, da UFMG, Frederico Peres, atual vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP e Jorge Machado, um dos fundadores do Cesteh e coordenador geral de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde.

Em comum à fala dos três debatedores, a ideia de se combinar a valorização do conhecimento acumulado ao longo dos 30 anos de trabalho no Cesteh com novos olhares para a saúde do trabalhador, sempre orientados pelo diálogo com a parte mais importante e desse processo: os próprios trabalhadores. Como lembrou, muitas vezes Anamaria Tambellini ao longo dos debates, o ímpeto inicial do campo da Saúde do Trabalhador era de que ela fosse a espinha dorsal, a organizadora do SUS. Passadas algumas décadas desde que essa área do conhecimento começou a se configurar, processo em que o surgimento do Cesteh é um dos marcos, esse continua sendo o desejo dos que lidam com o tema, seja em sala de aula, na prática conjunta com profissionais de saúde ou em cargos de gestão.  

A professora Elisabeth Costa Dias, ao abrir o último debate (11/12), lembrou que a temática da discussão extrapola a Saúde do Trabalhador.

-  É um compromisso com a vida e com outra sociedade. Se não educarmos pessoas e conectarmos saberes vamos perder o bonde da história.

Em seguida, Beth, como é conhecida entre seus pares, enumerou uma série de fenômenos que indicam um mundo do trabalho em transformação, exigindo dos pesquisadores uma constante revigoração de teorias e práticas. Entre esses fenômenos, estaria a precarização, as políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo, o trabalho remoto, virtual e desterritorializado.

- Nós estamos diante de tantos desconhecidos que temos que valorizar o que está acumulado, mas também fazer trocas e nos capacitar para lidar com as incertezas. Estamos diante de uma avalanche de precarização no mundo trabalho e ainda não temos, de uma forma organizada e sistemática, ideia dos impactos que isso terá na saúde do trabalhador e no ambiente.

Entre tantas incertezas, há algo que permanece: a iniquidade, que hoje, segundo Beth, se expressa, sobretudo, na precarização. Para lidar com esse e outros desafios a pesquisadora acredita que é preciso um investimento maior na educação compartilhada.

- Nós temos que preparar os profissionais do Cerest, os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador, que são uma usina de força dentro do SUS. Precisamos evitar os guetos e investir nos princípios da educação permanente e no conceito de espiral de aprendizagem, com estratégias de ensino e aprendizagem significativas. Prefiro ter oito horas com os profissionais da saúde dentro do processo de trabalho deles do que 40 horas numa sala de aula em que o conteúdo entre e saia da cabeça deles.

Jorge Machado, ao iniciar sua fala, concordou com Elisabeth e fez ainda uma observação.

-  Essas oito horas na prática têm que ser sobre o trabalho da atenção básica e não sobre a nossa perspectiva.

Para Machado, a ideia de se ter a saúde do trabalhador como uma ordenadora do SUS é ainda o norte das ações dos que atuam nesse campo, mas há um grande distanciamento entre teorias e práticas.

- Embora isso esteja formulado em nossos escritos básicos, não é trabalhado hoje. Temos que sair das nossas unidades e olhar para o território e para os determinantes atrás dos elementos que trazem a participação social para dentro da atenção básica. É preciso, também, que a necessidade de saúde da população seja a ordenadora das ações e não a demanda ambulatorial. Isso só vai ser feito com um SUS público.

Encerrando a discussão, Frederico Peres fez uma breve análise da formação em Saúde do Trabalhador nos últimos vinte anos.

- Lembro que quando eu fiz a minha especialização, nós tínhamos aulas com todos os professores do Cesteh. O engajamento é, de certa forma, fruto disso, do fato de termos todos os professores participando e valorizando a formação.

A formação profissional, entretanto, a partir de meados dos anos 2000, passou a se dar em uma escala maior, sob demanda do Ministério da Saúde. Para Frederico, esse fato trouxe consequências positivas e negativas.

- Uma dessas consequências negativas é a dificuldade que temos em analisar essa formação. Será que ela se dá em sintonia com os atores da prática e com as políticas setoriais? Será que conseguimos nos articular com outras escolas e centros formadores? Será que ainda temos aquele mesmo engajamento e aquele fôlego? São perguntas que devemos fazer.

Frederico lembrou que hoje, no Brasil, existem 48 escolas de Saúde Pública, a maior parte delas com formação em saúde do trabalhador. Para o pesquisador, entretanto, não bastam os números. É preciso uma inserção maior na política de formação permanente e discutir os métodos propostos.

- Essa é a reflexão: o que precisamos desenvolver para seguir sendo um ator chave no processo de formação e qualificação profissional? Todos esses desafios do qual falamos ao longo desses três dias de debate são uma oportunidade para avançarmos em propostas que incluam a organização dos conhecimentos que tivemos competência de acumular ao longo desses anos, mas dialogando, sempre, com as necessidades dos atores das práticas.

Aberto o debate, a recém-eleita chefe do Cesteh, Kátia Reis, fez uma intervenção lembrando de preceitos orientadores do campo da saúde do trabalhador que, para ela, estão sendo deixados de lado. 

- Acredito que devamos reafirmar a ideia de que temos uma teoria própria, no campo do materialismo histórico, da qual não lançamos mão, que é a do trabalho como princípio educativo. Essa é uma formulação gramsciana e uma visão do trabalho pela perspectiva marxista, ou seja, o trabalho como princípio formativo. É pelo trabalho que se tem o estimulo à criatividade e às múltiplas potencialidades humanas. Sob a égide do capitalismo você é degradado. O campo da saúde do trabalhador tem que lançar mão desses preceitos para pensar a promoção da saúde. Temos uma relação dialética entre teoria e prática. Não fazemos bem uma ação que não seja interpretada pela teoria e é pela prática que vamos realimentar e construir uma teoria própria. Algo que ficou mais claro nesses três dias de debate é o processo de trabalho compreendido na perspectiva da emancipação humana. Outro ponto é a questão da participação dos trabalhadores como sujeitos ativos do conhecimento. Não é algo trivial e dado, é construído. É práxis. O fato da gente não ter um conselho de trabalhadores aqui dentro, por exemplo, é algo que precisa ser pensado. Precisamos encarar essas questões daqui para a frente.

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