Indignação generosa: as lutas do século XXI em debate nos 30 anos do Cesteh

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Pedro Leal David

Há, no mundo, quem acredite que produtividade capitalista e saúde são compatíveis. Existem os que creem que uma tragédia como o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco-Vale-BHP se resolva com declarações oficiais, dadas de dentro da própria empresa que cometeu o crime.  Há, ainda, gente disposta a produzir relatórios por encomenda, afirmando que a extração de urânio em Caetité, na Bahia, não provoca câncer. Porém, e por sorte, existem vozes que não estão dispostas a engrossar esse coro dos contentes. Algumas delas puderam ser ouvidas nas mesas que marcaram o segundo dia (10/12) de eventos que comemoraram os 30 anos do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ambiente (Cesteh/ENSP).

Permitir que o conhecimento nasça da interação entre os saberes populares e acadêmicos, aliar militância ao rigor científico, olhar para um mundo que se fragmenta e buscar formas novas de interpretá-lo: essas são algumas das estratégias de luta de pesquisadores como Rudá Ricci, Giovanni Alves, Eduardo Stotz, Jandira Maciel, Fernando Carneiro e Marcelo Firpo, todos palestrantes do evento.

A primeira mesa do dia discutiu Lutas sociais, atuação sindical e saúde do trabalhador. O primeiro a falar foi Rudá Ricci, do Instituto Cultiva, de Minas Gerais. O sociólogo iniciou sua palestra fazendo uma análise falando das mudanças pelas quais vem passando a sociedade brasileira. 

- Vivemos um momento de transição em todo o mundo moderno. As formas de relação social estão sendo refeitas. Cria-se uma profunda instabilidade na confiança entre os indivíduos, o que que arrasta junto as instituições.  A primeira delas que entra em transição fortíssima, em um processo que vem dos últimos 20 anos, é a família. No Brasil a família tradicional entrou em colapso. O modelo familiar que mais cresce em nosso país, numa velocidade vertiginosa, é o monoparental. Em 90% dos casos, são as mães sozinhas que cuidam dos filhos. Isso ocorre em função de uma cultura machista muito profunda que, como o racismo brasileiro, fica a margem de uma compreensão consciente.

Para Rudá, essa conjuntura, aliada a outros fatores como a diminuição do tempo de convívio familiar, tem consequências na educação e no processo de socialização. O fenômeno das redes sociais, para o sociólogo, também advém desse processo.

- As redes viraram uma família virtual, um sistema de apoio imediato. O aceso vem crescendo. São 58 milhões de brasileiros ativos no Facebook. Isso coloca em questão a ideia de sociedade. Nas redes sociais a organização se dá em comunidades pouco afeitas à diferença. Quando, nas manifestações de 2013, vimos cartazes que diziam “saímos do Facebook” foi um ótimo ensaio sociológico, porque as pessoas saíram da rede, mas em comunidades fechadas. O tema central das manifestações era a da falta de representatividade. Os jornalistas procuraram uma agenda única, mas o que estava posto era a questão da representação.

Segundo o sociólogo, nesse contexto até mesmo a noção de direito se fragiliza. Uma vez que a organização dos indivíduos que chegam a vida adulta é atomizada, as demandas passam a ser por interesses individuais.

- Não conseguimos viver, nas sociedades de massa, sem mito, sem utopia. E é isso que está acabando. Os estudos arqueológicos indicam que o homo sapiens, há 70 mil anos, só conseguiu dar um salto para viver em grupos sociais maiores do que de 150 indivíduos com a criação dos mitos.

A atomização social diagnosticada por Rudá Ricci traz consigo, também, impactos para a saúde. No que diz respeito às doenças relacionadas ao trabalho, há uma mudança de padrão.

- Se as doenças profissionais do século XX eram todas relacionadas à repetição, problemas musculares, as do século XXI seriam da ordem da desorganização mental, do sofrimento psíquico, como a Síndrome de Burnout, esgotamento físico e mental causado por desvios de função, sobrecarga de trabalho, etc.

Encerrando sua fala, Rudá deixou uma pergunta em aberto sobre as novas formas de organização e luta nessa sociedade em intensa mudança.

- Será que as bases das nossas organizações sociais não têm que ser cada vez mais móveis? Será que não estamos forçando uma forma de luta, de organização, que está caducando?

Giovanni Alves, da Unesp de Marília, iniciou sua palestra falando sobre a atual fase do capitalismo, marcada pela perversidade e ataque aos fundos públicos, não só no Brasil, mas no mundo todo. 

- Nós vivemos uma fase histórica de desenvolvimento do capitalismo global que tem uma característica predominantemente financeirizada. Isso, nas últimas três décadas. Primeiro, foram os chamados 30 anos gloriosos do capitalismo. Agora, são os 30 anos perversos. Os ataques aos fundos públicos não se dão somente no Brasil. É também o que acontece na União Europeia, com as políticas de austeridade. Nos limites do neo-desenvolvimentismo da América do Sul, entramos em um novo ciclo em que essa será a questão em disputa.

Tanto quanto Rudá Ricci, Giovanni Alves também vê uma crise na organização dos trabalhadores, não somente na iniciativa privada.

- Eu tenho participado de palestras de várias categorias. Estive recentemente na Bahia, conversando com servidores públicos estaduais, em Florianópolis falando com servidores federais e o que constato é que os trabalhadores públicos não conhecem o Estado, porque ele é um complexo de complexos, com uma falta de transparência terrível. Quando falamos de sindicalismo, o que predomina é o egoísmo de fração.

Esse desconhecimento sobre o Estado, predominante também entre estudantes e a sociedade em geral, cria, segundo Giovanni, um grande obstáculo para a redemocratização do Brasil.

- Eu cito o pensador marxista húngaro István Mészáros, que certa vez disse que para irmos além do capital era necessário que se conquistássemos a montanha. A montanha é o Estado.

Entre os desafios que devem recrudescer as lutas sociais já complexas do nosso tempo, estão, segundo o sociólogo, o envelhecimento da população e a precarização do trabalho.

- Eu brinco e costumo chamar como a questão do ‘gerontariado’ e do ‘precariado’. Mas precisamos pensar como será esse processo. A população brasileira vai envelhecer mais e mais e temos que nos questionar sobre a qualidade de vida que essas pessoas terão. Sobre os jovens, há também um crescente número com ocupações precárias, muitos deles com diploma universitário.

Encerrando a mesa de discussões da parte da manhã, o pesquisador Eduardo Stotz, da ENSP, abriu sua fala com uma questão geral:

- Pode haver compatibilidade entre capitalismo e saúde?

Segundo Stotz, a resposta dada pelo movimento sindical a essa pergunta, na atualidade, é positiva, o que tem gerado despolitização e enfraquecimento das lutas dos trabalhadores.

- O movimento sindical adotou, frente aos conflitos entre capital e trabalho, uma posição na qual ninguém perde. É um jogo de soma zero. Isso se traduz na busca de preservar empregos com benefícios nos contratos de trabalho. Em decorrência, a resposta a questão proposta é a de que produtividade e saúde são compatíveis. Isso oculta e defende a aceitação, por parte dos sindicatos, da dominação de classes e da exploração da força de trabalho pelo capital. Além disso, expressa o enraizamento da ideologia burguesa no movimento sindical em nossa história. Saúde e produtividade são compatíveis em uma perspectiva radical em que a exploração do trabalho pelo capital é algo dado, não se admitindo mais o enfrentamento.

Um momento importante nessa aceitação, por parte dos sindicatos, de uma lógica de conciliação, pode ser visto no 4° Congresso dos Metalúrgicos do ABC, em 2003.

- A relação entre produtividade e saúde foi um dos temas desse encontro e os textos do congresso resumem a linha geral da ação sindical no Brasil, hoje, com as exceções da Intersindical e da Conlutas. Ao recuperar a história podemos nos situar politicamente. Quem ler os textos do 4º congresso dos metalúrgicos do ABC verá que o governo Lula está lá representado.

Diálogos entre saúde do trabalhador e saúde ambiental

A proposta da mesa da tarde, no segundo dia de eventos do aniversário de 30 anos do Cesteh, era discutir as relações entre o campo da Saúde do Trabalhador e o da Saúde Ambiental. Primeira a falar, Jussara Maciel, pesquisadora da UFMG, pediu licença para tratar do tema, mas dentro do contexto da tragédia crime da Samarco-Vale-BHP, nome que ela mesma havia sugerido, um dia antes, para que se retirasse da cidade de Mariana o estigma do desastre e se buscasse identificar os verdadeiros responsáveis por ele.

-  Eu sou uma mineirona. Não poderia ignorar a tragédia crime da Samarco-Vale-BHP. Eu gostaria, inclusive, como foi falado ontem, no debate, que parássemos de chamar esse desastre como a tragédia de Mariana. Devemos lembrar que se trata de uma empresa assentada no modelo capitalista. É desse lugar que temos que falar. E é este o primeiro ponto de diálogo que tem que haver entre o campo da saúde do trabalhador e a saúde e ambiente. Quem são as populações atingidas? Eles estão no campo da saúde do trabalhador ou da saúde e ambiente?

Em seguida, a pesquisadora traçou um breve retrato dos povos atingidos pela tragédia, que vão desde trabalhadores das empresas envolvidas no crime (entre terceirizados e contratos diretos são cerca de 5 mil funcionários) até artesãos que vivem da venda de doces, compotas e geleias, e que da noite para o dia viram arruinada sua fonte de sobrevivência.

- Sobre os trabalhadores das empresas, foi feito um acordo de que os empregos serão mantidos até o dia 1º de março. Eu estive presente no momento em que se faziam negociações com os sindicatos e o que eu vi é bastante significativo do que estamos vivendo hoje, com relação a organização dos trabalhadores. Os líderes sindicais, a despeito de estarem brigando por temas afins, não tinham uma agenda comum, então de um lado via-se alguém tentando falar com um promotor para tentar algum benefício, de outro, um sindicalista falando com um político, sempre na lógica de tentar obter o maior ganho para sua categoria. 

Sobre o trabalho dos artesãos, entretanto, Jandira acredita haverá ainda mais dificuldades de se entender os impactos da tragédia.

- Como vou mapear os fabricantes da geleia de pimenta biquinho? É uma das populações atingidas, mas que num primeiro momento podem passar despercebidas para nós. E temos ainda os trabalhadores do turismo, os pescadores artesanais, os artesãos.

Com o olhar de quem tem acompanhado de perto os desdobramentos da tragédia em Minas, Jandira falou ainda da inoperância com que o estado tem lidado com caso, gerada, em parte, por conta do comprometimento político com as empresas e com o modelo exploratório das megaminerações.

- O estado tem tido uma ação fragmentada, em que se mostra parcial e despreparado. Devemos lembrar que o primeiro pronunciamento do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, do PT, foi feito de dentro das instalações da Samarco.

Fernando Carneiro, da Fiocruz Ceará, foi o segundo a falar no debate e trouxe números para dimensionar a importância de se discutir o modelo de exploração dos recursos naturais brasileiros.

- Não podemos nos esquecer que 50% das nossas exportações é de produtos agrícolas. Saiu um balanço recente em que se viu que desses 50%, basicamente o que exportamos foi soja in natura. Mas o boom das commodities acabou, disse o pesquisador, lembrando das consequências que o Brasil vem enfrentando por ter investido ostensivamente no modelo do agronegócio.

O mesmo Estado que para Jandira Maciel é inoperante para agir diante da tragédia em Minas tem sido benevolente com esse modelo, segundo Fernando.

- Trata-se de um estado forte para apoiar o agronegócio e fraco para fazer a reforma agrária ou lutar contra os agrotóxicos. O Brasil não ganhou a Copa do mundo de 2014, mas já somos heptacampeões mundiais de consumo de agrotóxicos. O agrotóxico é símbolo desse modelo onde a base de primarização da economia é o carro-chefe.

Se de um lado o estado se mostra inoperante para barrar o veneno que chega às mesas dos brasileiros, os pesquisadores e movimentos sociais não estão parados. Uma das ações que tem gerado bons frutos, com o perdão do trocadilho, é a criação do Dossiê Abrasco sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Lançado em 2014, o documento foi construído a partir de uma metodologia de conhecimento compartilhado.

- O dossiê tenta romper com a separação entre sujeito e objeto de pesquisa. Nós inventamos uma metodologia que é inspirada em Paulo freire, mas sem repeteco. Recebemos cartas do Brasil inteiro. A elaboração das cartas tinha que ter a participação da comunidade mais um pesquisador. É o que chamamos de ecologia de saberes, um diálogo compartilhado do conhecimento científico com o popular. E nos inspiramos também no pessoal da agroecologia, que faze painéis. Então, o dossiê funciona também como uma cartilha, pois esses painéis fazem uma síntese gráfica do tema. Os movimentos sociais já declararam diversas vezes para nós que o dossiê é um instrumento de luta. Quando ouço isso, penso: já ganhamos.

Fechando o debate, o pesquisador Marcelo Firpo, do Cesteh/ENSP, falou sobre a complexidade dos problemas socioambientais e a necessidade de se produzir um aprofundamento de natureza epistemológica a respeito das inter-relações dos campos de conhecimento que eles envolvem.

- São questões que ultrapassam os muros de um processo de trabalho mais clássico.

Um problema socioambiental envolve poluição do ar, da água ou do solo, diferentes acidentes, desastres, populações, territórios, lutas, formas organização social. Quais as epistemologias que fundam a análise dos problemas? De que maneira o tema da complexidade passa a ser incorporado? Devemos lembrar que ele é tão necessário quanto problemático, porque muitas vezes é apresentado numa perspectiva funcionalista, sem dialogar com a perspectiva crítica.

Além de uma abordagem integradora e nova, em diálogo com os saberes populares, Marcelo Firpo acredita que os temas atuais requerem ainda uma boa dose de militância. Nesse sentido, o pesquisador vê também necessidade de se enfrentar ações que, para ele, se caracterizam como uma mercantilização do trabalho dentro as instituições públicas.

- Temos que ter serenidade e crítica, uma capacidade de se indignar profundamente, mas sem perder uma certa generosidade e delicadeza diante da forma como companheiros do passado estão, neste momento, a serviço de lógica de mercado e de produções que são, para o campo da saúde coletiva, vergonhosas. Acho devemos iniciar uma campanha mais radical dentro da Abrasco contra a mercantilização do trabalho dentro das instituições públicas. Estamos diante de temas candentes e estratégicos, como os agrotóxicos e a megamineração. Temos muita coisa para produzir e articular, mas é preciso que se dê uma injeção de militância e paixão. Quem está na militância está porque celebra a vida e luta para que ela seja celebrada não apenas por aqueles privilégios que eu ou qualquer um de nós possa ter, mas que a aventura humana do trabalho e da construção de um mundo mais livre possa se efetivar a partir de pesquisas e ações sérias, acadêmicas, engajadas, institucionais e articuladas com os movimentos sociais.

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