Demografia e sua interface com a saúde: tema foi debatido no Abrascão

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Compreender a interface entre a demografia e a saúde pública foi objetivo da mesa-redonda que reuniu o pesquisador do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da ENSP, Iuri da Costa Leite, o presidente da Associação de Estudos Populacionais (Abep), Jair Lício Ferreira dos Santos e a pesquisadora da Universidade Federal de Brasília, Ana Maria Nogales. Com vasta experiência em estudos populacionais, os três palestrantes ressaltaram a enorme e importante participação da demografia na saúde. 
 
Segundo Iuri, a estreita relação entre a demografia e a saúde pública surgiu possivelmente em 1662 com o autor Jonh Graunt que contribuiu imensamente para o conhecimento humano. Coordenador do projeto Carga de Doença no Brasil, Iuri leite apresentou algumas questões sobre o papel da informação na interface entre a demografia e a saúde púbica. De acordo com ele, para medir é necessária a elaboração de indicadores, o desenvolvimento de métodos e, principalmente, a coleta de informações. Desta forma, a epidemiologia, a demografia e a bioestatística se constituem como disciplinas fundamentais para a saúde pública. 
 
Citando o autor Jonh Graunt, o pesquisador lembrou que o autor foi o pioneiro ao mostrar que em sua época nasciam mais meninos do que meninas. “Graunt foi responsável pelas primeiras tábuas de mortalidade, mostrando tendências na ocorrência de doenças, 
levando em consideração a variação no tamanho da população”. Com seu pioneirismo, Jonh Graunt detectou a ocorrência de novas doenças e alertou para o erro de classificação de doenças. Além disso, ressaltou que o principal componente do crescimento populacional em Londres era a imigração e que a população possuía um mecanismo de compensação pelas perdas devido às pestes. “Graunt também mostrou que as mulheres procuravam mais por assistência médica e que a mortalidade entre homens era maior que entre as mulheres. 
 
Nos estudos propostos pelo autor percebemos a importância da principal fonte de informação na área da saúde, os sistemas de informação sobre mortalidade. Com base nesses sistemas, é possível conhecer a taxa na qual as pessoas morrem, em que idades e de que causas. Pelo fato de serem contínuas, essas informações estão disponíveis em qualquer momento do tempo”, destacou Iuri. 
 
Para o presidente da Associação de Estudos Populacionais (Abep) Jair Lício Ferreira dos Santos, a conexão entre a saúde e a demografia é complexa. Enquanto a demografia é essencialmente uma disciplina científica, a saúde pode ser interpretada como um setor de atividades que incluem serviços, produção e pesquisa. “Saúde também é um conceito amplo e tem havido muitas tentativas para defini-lo. 
 
Chegar a um esboço geral sobre saúde e demografia não é simples como descrever a interface entre dois conceitos tais como saúde e população ou duas disciplinas como epidemiologia e demografia”. Jair citou alguns exemplos da inserção da demografia na saúde, entre eles o esboço para a diminuição da mortalidade materna e infantil, no início do século XX. 
 
Jair Lício pontuou ainda a questão das doenças emergentes, que podem ser entendidas como infecções surgidas recentemente ou que já existiram, e que estão em rápido crescimento na incidência ou alcance geográfico. Segundo ele, como exemplos pragmáticos podemos citar a Aids, como uma doença verdadeiramente emergente surgida há pouco mais de trinta anos, e a dengue que reemergiu no Brasil há um período de tempo um pouco menor. O Índice de Risco Pandêmico (IRP) também foi apresentado pelo pesquisador. O IRP é composto por três subíndices, o risco da emergência de doenças, o risco de disseminação, e a capacidade de contenção. “Os fatores demográficos tem pesos específicos em cada um dos três subíndices, portanto, a ponderação de cada fator pelo respectivo peso na composição final do índice leva ao resultado de que os fatores demográficos correspondem sozinhos por 33% do Índice de 
Risco Pandêmico”, considerou.
 
Para falar sobre a heterogeneidade do processo de transição demográfica e epidemiológica no Brasil e suas implicações para a formulação de políticas públicas, a pesquisadora da Universidade Federal de Brasília Ana Maria Nogales explicou que a transição demográfica se refere a uma sucessão de etapas caracterizadas por mudanças nas taxas de natalidade, mortalidade e crescimento vegetativo da população. Já a transição epidemiológica consiste na passagem de um perfil de alta mortalidade por doenças infecciosas para outro no qual predominam óbitos por doenças cardiovasculares, neoplasias, causas externas e outras doenças consideradas não transmissíveis. 
 
Segundo ela, a transição demográfica no Brasil não tem ocorrido de maneira simultânea, tampouco homogênea. “São encontrados diferentes níveis e ritmos de queda dos indicadores de mortalidade e fecundidade, além de variações nas tendências de crescimento dos segmentos da população jovem, adulta e idosa”, explicou. No contexto da transição epidemiológica no país, Ana Maria expôs que existe dificuldade na comparação de níveis de mortalidade por causas no espaço e no tempo. “Ainda que o sistema de coleta de dados dos óbitos tenha uma coordenação centralizada no Ministério da Saúde, existem procedimentos diferenciados de certificação e codificação das causas de morte”, concluiu.

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