Americano que fala de corrupção nas pesquisas psiquiátricas participa de Ceensp

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* Pedro Leal David

Ele é jornalista e, para a Associação Americana de Psicologia (APA, na sigla em inglês), costumava ser um dos bons. Mas não foi por muito tempo que as reportagens de Robert Whitaker agradaram a principal entidade da psiquiatria oficial americana. Com uma produção destacada de livros que mostram contradições no modelo que centraliza o tratamento de doenças mentais no uso de medicamentos, ao mesmo tempo que se tornou persona non grata na APA, Whitaker passou a ser uma das mais ativas vozes a serem ouvidas em grupos, seminários e instituições que buscam saídas para além da narrativa psiquiátrica corrente. Foi com essas credenciais que o americano foi recebido como palestrante no Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos, na ENSP, no dia 10 de junho.

Paulo Amarante, pesquisador da Escola, coordenou a mesa. Ao apresentar Whitaker para a plateia, lembrou que livros como Open Dialogo e Hearing Voices, escritos pelo americano, têm sido usados como bibliografia pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps/ENSP/Fiocruz). Além disso, Amarante ressaltou um outro aspecto que torna importante a vinda de Whitaker ao Brasi. “Nosso país tem sido muito produtivo quando o assunto é a reforma psiquiátrica, mas ainda sofremos muito com excesso de medicalização”, lembrou o pesquisador.

Robert Whitaker veio ao Brasil participar do 2° Fórum de Direitos Humanos e Saúde Mental, organizado pela Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).

Fernando Ferreira Pinto de Freitas, também da ENSP, foi o segundo a falar no Centro de Estudos. O pesquisador destacou o importante papel da investigação de Robert Whitaker no desmascaramento de uma farsa. “Robert vem nos mostrando evidências de que a ideia de que os distúrbios mentais são causados por desequilíbrios químicos é uma grande fraude”. 

O americano começou sua palestra falando como essa suposta mentira teria sido construída. Para ele, o impulso para a propagação de tal ideia surge na década de 1980, mais precisamente no momento em que foi lançado o DSM III, a terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. É nesse momento que se dá o casamento entre a indústria farmacêutica e a psiquiatria oficial americana, uma espécie de efeito colateral das intenções dos pesquisadores. “A intenção primordial dos cientistas da universidade de Washington, St. Louis, ao agrupar pessoas a partir de seus transtornos, era motivar mais pesquisas sobre esses males e não classificá-los como uma verdade absoluta”.

Na prática, segundo Whitaker, o que aconteceu foi que o DSM III se tornou tanto tábua de salvação para a psiquiatria oficial, que vinha sendo questionada por associações de pacientes, nos EUA, desde os anos 1970, quanto um presente para a indústria farmacêutica. Ao confinar o distúrbio mental ao cérebro dos indivíduos, dando o desequilíbrio químico como a causa dos transtornos, a APA conferiu ao psiquiatra o papel de controlador desse equilíbrio. À indústria farmacêutica, coube a produção e venda dos remédios que o médico teria que administrar.

A despeito do mau juízo que a associação americana de psicologia faz hoje de seu trabalho, Robert Whitaker baseia suas investigações numa premissa básica do bom jornalismo investigativo: seguir o dinheiro. São muitos os exemplos de como recursos da indústria farmacêutica passaram a fluir diretamente para a APA. “Ao mesmo tempo que os médicos e cientistas da APA começaram a frequentar congressos, participar de viagens e treinamentos de mídia, a própria associação passou a se interessar em divulgar seu modelo ao grande público. É nesse sentido que agem os líderes de opinião que aparecem na imprensa tradicional, creditados como experts e habilitados a ditar normas”.

Para dar a medida da promiscuidade entre a psiquiatria e a indústria farmacêutica, Whitaker citou um congresso em que dos 888 participantes, 373 prestavam consultorias para fabricantes de medicamentos.

É sobre essa zona cinza em que interesses financeiros e pesquisa científica se entrelaçam que Robert Whitaker lançou luz recentemente. Em seu livro Psiquiatria sob influência: corrupção institucional, danos sociais e proposições para a reforma, o americano apresenta o resultado de uma investigação, originada numa bolsa de estudos em Havard, que tem por objetivo mostrar como o dinheiro age num mecanismo complexo, a ponto da corrupção passar despercebida, em alguns casos, até mesmo por aqueles que a praticam. “A psiquiatria está corrompida e as consequências são enormes”, diz Robert.

Para disseminar sua verdade -  a ideia de que os transtornos mentais originam-se em distúrbios químicos do cérebro -, a indústria farmacêutica e a psiquiatria oficial têm contado com um aliado: a imprensa. É pelas mãos daqueles a quem devem considerar bons jornalistas que é a feita a seleção de estudos a serem publicados, a maioria deles apontando a medicalização como caminho. No mesmo sentido, há pouca divulgação quando alguma pesquisa expõe as fraquezas dessa narrativa oficial. Houve poucos holofotes, por exemplo, quando Alan Fazer, chefe do departamento de farmacologia da Universidade do Texas, anunciou que não há nenhuma evidência científica de que numa escala significativa a depressão seja causada pela queda de serotonia no cérebro. Destino parecido com a declaração de Fazer foi dado a um estudo britânico que acompanhou pacientes esquizofrênicos por longos anos. Como resultado a pesquisa apontava que os pacientes que tomaram remédios tinham uma integração na sociedade menos satisfatória do que a daqueles que não fizeram uso de medicamentos. Este estudo foi apresentado por Martin Harrow, em 2009, numa reunião anual da APA.

Robert Whitaker citou, ainda, outros exemplos desse mecanismo em que só são divulgados resultados afinados com as intenções da indústria farmacêutica (há dados não divulgados sobre a piora de pacientes com síndrome do pânico durante a fase de abstinência de determinado medicamento, suicídio infantil ocorrido durante a administração de antidepressivos, entre outros). Este desequilíbrio na comunicação científica tem trazido resultados. Apesar da falta de evidências nesse sentido, hoje, entre 80 e 87% dos americanos, por exemplo, declararam saber que a depressão é causada pelo desequilíbrio químico.

Também tem sido vitoriosa a campanha para firmar a existência do TDAH, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, e seu tratamento medicamentoso. “Quando se começou a falar desse distúrbio, alguns países riram dos Estados Unidos, mas a indústria perseverou. Joseph Bierdmann, um dos mais importantes nomes nessas pesquisas, abriu o mercado de TDAH no mundo. Houve um tempo em que publicava um arquivo novo a cada duas semanas”.

Para finalizar, a carga de Whitaker se volta novamente ao DSM, hoje em sua quinta edição. “Agora, por exemplo, segundo o livro, se você está ainda triste duas semanas depois de ter enterrado uma filha ou sua mulher, você será diagnosticado com depressão. Hoje, 26% dos adultos e 13 % dos jovens americanos têm um diagnóstico. Ao ser diagnosticado, você começa uma verdadeira carreira de doente mental. Os limites para diagnóstico, no DMS, são completamente subjetivos e há interesses financeiros para que esses limites sejam mantidos os mais abrangentes possíveis. Trata-se de uma filosofia empobrecida do que é viver. É como se o manual tivesse sido escrito por pessoas que nunca leram um livro na vida ou nunca foram ao cinema”, conclui o jornalista.

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